Maria do Carmo Carvalho apresenta a exposição “Brancos plenos, pretos abismais”

A artista paulista Maria do Carmo Carvalho traz ao Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) a exposição Brancos plenos, pretos abismais. A mostra individual tem lugar na galeria Iberê Camargo, com abertura no dia 28 de maio, às 19 horas.

A exposição reúne cerca de 60 obras entre gravuras, pinturas e técnicas mistas, com destaque para gravuras em metal com inspiração expressionista e abstrata. O texto de apresentação da exposição é assinado pela crítica e curadora Caroline Carrion. Nas suas palavras, “Maria do Carmo Carvalho ganhou reconhecimento nacional e internacional por sua produção em gravura, especialmente em metal. Sua reputação como exímia gravurista e a especificidade de sua mídia de escolha não a restringiram, no entanto, a este meio. Ao longo de sua trajetória, Maria do Carmo desenvolveu uma ampla pesquisa pictórica, marcada pelo interesse pela cor e por uma ousada pesquisa de materiais”.

“Brancos Plenos, pretos abismais” pode ser visitada de 29 de maio a 21 de julho, de terças a domigos, das 10h às 19h, com entrada franca. Visitas mediadas podem ser agendadas pelo e-mail educativo@margs.rs.gov.br.

 

Texto de apresentação:

BRANCOS PLENOS, PRETOS ABISMAIS

Maria do Carmo Carvalho ganhou reconhecimento nacional e internacional por sua produção em gravura, especialmente em metal – técnica que exige uma considerável especialização devido às dificuldades intrínsecas a seu método produtivo. Às suas gravuras podem-se atribuir todos os predicados geralmente imputados a grandes obras: pesquisa de linguagem; maestria de luz e cor; exploração formal; qualidade técnica excepcional.

Sua reputação como exímia gravurista e a especificidade de sua mídia de escolha não a restringiram, no entanto, a este meio. Ao longo de sua trajetória, Maria do Carmo desenvolveu uma ampla pesquisa pictórica, marcada pelo interesse pela cor e por uma ousada pesquisa de materiais. Mais que isso, a linguagem desenvolvida pela artista ao longo de décadas é dotada de uma consistência que perpassa todas as mídias e suportes que se apropriou, linguagem essa marcada, mais que qualquer outra coisa, por um desejo escultórico, uma busca subversiva pela extrapolação do plano dentro dos limites do plano mesmo.

Neste sentido, três séries são excepcionais e solicitam uma leitura mais atenta: as pinturas em técnica mista sobre tela da série “Brancos plenos” (2003-2014); os painéis de grandes dimensões da série “Pretos abismais” (2013-2014); e as acrílicas sobre papel da série “Recortes” (2014). Se antes, em suas gravuras em metal, monotipias e óleos sobre tela, podíamos intuir, com maior ou menor evidência, o caráter objetual e escultórico da linguagem cultivada e aprimorada pela artista ao longo de décadas, neste grupo de trabalhos ela se apropria de materiais cotidianos e, em alguns casos, de descarte para criar colagens e obras de técnica mista que, por mais que possam ser inicialmente lidas como pinturas (e não menosprezem os elementos característicos à pesquisa pictórica), possuem uma presença tridimensional tamanha que exigem ser compreendidos como objetos.

Seus “Brancos plenos” inicialmente parecem encaixar-se em uma longa tradição de pinturas brancas — impossível não pensar em Turner, Malevich e Rauschenberg. A colagem de materiais cotidianos poderia aproximá-los ainda mais do pop ou outros do século 20. No entanto, a especificidade dos objetos utilizados e o contexto de produção da artista inevitavelmente deslocam essas obras para outro campo: o da arte feminista das últimas décadas do século 20. Ao utilizar linhas de costura de costura, filtros de café, gaze  e tinta acrílica, Maria do Carmo simultaneamente atém-se e transfigura o universo doméstico. Como para muitas artistas de sua geração, o uso de materiais tradicionalmente pertencentes ao universo feminino possui um caráter duplo de praticidade (inúmeras vezes lhes foi necessário produzir suas obras com o que estivesse à mão) e de recuperação/valorização desse universo. Ao trazer para o campo da arte materiais simbólicos da subjugação feminina, algo de emancipatório acontece.

Enquanto seus trabalhos brancos são delicados e relacionados ao que se entende tradicionalmente por universo feminino, se continuarmos operando segundo essa lógica dicotômica vemos – por seu peso ou pelo uso de materiais associados ao trabalho industrial (como lona e metal) – como é fácil esquecer a forte história feminina da classe operária, e o papel imprescindível das mulheres na indústria na Europa conturbada por guerras.

Expressivos respingos de tinta ao fundo e o uso consciente de poucos e impactantes campos de cor remetem ainda ao expressionismo abstrato norte-americano, talvez um dos movimentos mais masculinos do século 20.

Em comum com os “Brancos plenos”, os painéis têm a apropriação e ressignificação de materiais de descarte pelo campo da arte. A exibição das duas séries na mesma sala nesta individual é fruto de uma reflexão que nada tem de casual. Para além de sua complementaridade cromática e de suas similaridades de linguagem, o movimento realizado pela artista na passagem de uma série para outra é bastante significativo. Enquanto os trabalhos brancos valorizam elementos do universo feminino — e, ao fazê-lo, subvertem seu caráter opressor —, os “Pretos abismais” mostram uma artista confortável com materiais e uma estética que há pouco (e talvez ainda hoje por muitos) poderia ser considerada masculina, estética pela qual se move com a liberdade de quem se encontra em terreno comum aberto e igualitário.

Por fim, é com seus “Recortes” que o desejo escultórico, sempre latente em sua obra, emerge estrondosamente. Como de hábito, a artista utiliza como suporte um material pouco nobre, apesar de já bastante explorado pela arte contemporânea – o papel kraft. O papel irregular è manuseado por ela de forma livre e não convencional em nada se assemelhando ao tratamento dado por artistas que o encaram como um substituto da tela. Com recortes e sobreposições, ela transforma essas obras em exercícios de exploração  do espaço, trazendo para o mundo as formas antes confinadas a suas gravuras e pinturas. Essa materialização se dá, no entanto, sem necessidade de romper com a bidimensionalidade do papel – uma pouco provável união entre subversão e sutileza.

Caroline Carrion

Crítica e curadora

 

PORQUÊ DO FAZER

O depoimento do artista sobre seu processo de trabalho é sempre revelador.

Construo imagens sem me referir a uma situação real, mas partindo dela como pretexto.

A cor/luz concentra meu interesse.

Há surpresas quanto às certezas/ incertezas que enfrento num trabalho de pintura, desenho ou gravura. Os trabalhos que apresento nessa exposição falam desses instantes.

Maria do Carmo

Artista

 

Sobre a artista

Maria do Carmo Carvalho é natural de Jacareí/SP.

Desde 1980 dedicou-se à gravura em metal trabalhando em ateliês de importantes artistas brasileiros. Em Barcelona trabalhou com Tristan Barbará, gravador de Miró e Tapies.

Participou de bienais nacionais e internacionais, tais como a III Graphic Art Biennial Yugoslávia 1997, e em exposições individuais e coletivas. Entre seus prêmios destaca-se o Prêmio Brasília – XXI  Salão Nacional de Gravura. Suas gravuras podem ser vistas em coleções públicas e privadas.

 

SERVIÇO

Exposição “Brancos plenos, pretos abismais”

Artista: Maria do Carmo Carvalho

Abertura: 28 de maio de 2019, às 19h

Visitação: 29 de maio a 21 de julho de 2019

Local: Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) Galeria Iberê Camargo

Entrada Franca

 

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Apoio

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