MARGS inaugura exposição sobre os 40 anos de criação do Espaço N.O.

Concebido para difusão de produção artística e intercâmbio entre outros meios artísticos, o Espaço N.O.
constitui uma das mais importantes e hist
óricas experiências de espaço coletivo e autogestionado em Porto Alegre.

Em funcionamento entre 1979 e 1982, na Galeria Chaves, a iniciativa privilegiou práticas artísticas experimentais
como instalação, performance,
arte-postal, fotocópias, carimbos e publicações de artistas.

Exposição do MARGS resgata o legado do Espaço N.O. a partir de arquivos que registram e ajudam a ativar
a sua
memória, articulando no espaço expositivo documentos, publicações e imagens fotográficas.

 

O Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) inaugura na próxima quarta-feira (09.10.2019), das 18h às 21h, a exposição Espaço N.O. 40 anos  ̶  Arquivos de uma experiência coletiva”, que apresenta um resgate de uma das mais importantes, emblemáticas e históricas experiências de espaço coletivo, multidisciplinar e autogestionado mantido por artistas em Porto Alegre.

Com pesquisa e curadoria de Fernanda Medeiros, curadora-assistente do MARGS, e do diretor-curador Francisco Dalcol, a mostra traz um diferencial: estrutura-se a partir de um acervo de arquivos, articulando no espaço expositivo dezenas de documentos, publicações e registros fotográficos.

Além desses itens apresentados na Galeria Iberê Camargo, a exposição complementa-se por três estratégias que se interrelacionam, de modo a ampliar e intensificar a experiência proporcionada ao público: 1) apresentação de itens da mostra já à entrada do museu, nas paredes do foyer, 2) disponibilização de publicações relacionadas na sala do Núcleo de Documentação e Pesquisa do MARGS para serem manuseadas pelo público e 3) uma resposta da mostra em exibição “Acervo em movimento”, a qual, por meio do seu modelo de rotatividade de obras, passa a apresentar agora em sua nova virada trabalhos de artistas atuantes no Espaço N.O. pertencentes ao acervo do museu. (Leia os detalhes mais abaixo e no texto curatorial).

Em funcionamento entre 1979 e 1982, em uma sala da Galeria Chaves, no Centro de Porto Alegre, o Espaço N.O. — Centro Alternativo de Cultura foi criado e administrado por um grupo de artistas que se reuniu com o objetivo de promover um ponto de encontro, divulgação e legitimação de manifestações artísticas mais experimentais, estabelecendo também intercâmbios com artistas de fora. Nesse sentido, enfatizavam a investigação de linguagem e o emprego de novos meios, suportes, materiais e possibilidades expressivas, como a arte-postal, a arte-xerox, a performance e as instalações; ao mesmo tempo em que exploravam a interrelação das artes visuais com a dança, o teatro, a música e a literatura. Além de exposições, o Espaço N.O. realizou atividades como leituras dramáticas, peças teatrais, projeções de filmes, debates e palestras, atividades musicais, concertos, cursos de expressão corporal, dança e teatro.

Entre os artistas visuais que atuaram no Espaço N.O. estão Ana Torrano, Carlos Wladimirsky, Cris Vigiano, Heloisa Schneiders da Silva, Karin Lambrecht, Mário Röhnelt, Milton Kurtz, Regina Coeli, Ricardo Argemi, Rogério Nazari, Sergio Sakakibara, Simone Michelin Basso, Telmo Lanes e Vera Chaves Barcellos. Alguns eram remanescentes dos grupos Nervo Óptico (atuante entre 1976 e 1978, Lanes e Vera Chaves) e do KVHR (atuante entre 1977 e 1980, Röhnelt e Kurtz), enquanto os demais procediam do Instituto de Artes da UFRGS ou eram artistas vinculados ao teatro, à música e a experiências em arte-postal e arte-xerox.

Nas palavras dos curadores:

“Além de divulgar as produções individuais e por vezes coletivas de seus integrantes e de outras manifestações artísticas da cena local, o Espaço N.O. também priorizava estabelecer contato e intercâmbios com outros circuitos artísticos, em escala nacional e internacional. Assim, promoveu exposições e ações de artistas como Bené Fonteles, Carmela Gross, Genilson Soares, Hélio Oiticica, Hudinilson Jr., Jayme Bastian Pinto Júnior, Marcello Nitsche, Paulo Bruscky, Regina Vater, Ulises Carrión e 3NÓS3 (Hudinilson Jr., Mario Ramiro e Rafael França). Também trouxe para palestrar em Porto Alegre relevantes nomes da crítica de arte no Brasil, a exemplo de Aracy Amaral e Frederico Morais, que reconheciam e endossavam a produção experimental. E entre as ações realizadas fora, destacam-se as exibições coletivas apresentadas pelo grupo na 16ª Bienal de São Paulo e na Pinacoteca do Estado de São Paulo, ambas em 1981”, escrevem os curadores.

Outro aspecto destacado pela curadoria é o objetivo de estabelecer intercâmbios com outros meios:

“Por fazerem do Espaço N.O. um modo de atuação, seus participantes estabeleceram também um modo de funcionamento, com estratégias para exibir, circular e intercambiar. Muito disso vinha da própria experiência e princípios da arte-postal. Exposições de artistas de fora se tornavam possíveis e viáveis porque, em diversos casos, os artistas não vinham a Porto Alegre. Os trabalhos a serem apresentados eram enviados ao Espaço N.O. pelos Correios, com instruções para montagem e apresentação”, escrevem no texto curatorial.

A exposição “Espaço N.O. 40 anos  ̶  Arquivos de uma experiência coletiva” procura resgatar e pontuar o legado dessa breve e intensa história, a partir de arquivos que registram e ajudam a ativar essa memória. Segundo os curadores:

“’Espaço N.O. 40 anos  ̶  Arquivos de uma experiência coletiva’ é uma exposição que procura resgatar e pontuar o legado dessa breve e intensa história, a partir de arquivos que registram e ajudam a ativar essa memória. Ao levarmos em conta o próprio caráter processual da produção em questão — na qual muitas vezes obra e documento se indiferenciam — e o fato de que, a rigor, a experiência consistiu mais em um espaço de atuação e exibição do que em um acervo de objetos artísticos, a curadoria fez a opção por privilegiar os arquivos do que está em causa na exposição”, escrevem no texto curatorial.

Esse arquivo reunido procede em sua maior parte do Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Vera Chaves Barcellos, que guarda a documentação original constituída ainda durante as atividades do grupo. Complementam a exposição arquivos de artistas atuantes no Espaço N.O., além de itens do acervo documental do Núcleo de Documentação e Pesquisa do MARGS, cuja sala onde funciona no museu também integra a exposição, ao apresentar documentos e materiais manuseáveis à disposição do público.

Nas palavras dos curadores:

“Outras duas estratégias também se interligam à exposição, ampliando-a. Enquanto no foyer apresentamos já à entrada do museu alguns documentos sobre o Espaço N.O., na Sala Aldo Locatelli a exposição “Acervo em movimento”, que opera com um modelo de rotatividade de obras do acervo, responde à mostra documental sobre o Espaço N.O. complementando-a com a entrada de trabalhos de artistas atuantes que pertencem à coleção do MARGS. São obras, contudo, que não correspondem precisamente ao período do Espaço N.O., mas que são representativas da presença desses artistas no acervo do museu”, escrevem os curadores.

Os curadores também ressaltam o investimento em uma exposição do tipo documental.

“Este é mais um projeto curatorial da atual gestão a explorar uma certa arqueologia do arquivo, a partir da mobilização de documentos que têm sido levados e articulados no espaço expositivo como modo de enriquecer e intensificar as experiências proporcionadas pelas nossas exposições. Desta vez e neste caso, atribuindo aos arquivos um protagonismo total, mas não sem o desafio que essa opção traz quanto a realizar uma exposição sobre um episódio da história artística somente e a partir de seus documentos”, escrevem os curadores no texto curatorial.

 

TEXTO CURATORIAL

 

Espaço N.O. 40 anos  ̶  Arquivos de uma experiência coletiva

 

O Espaço N.O. – Centro Alternativo de Cultura (1979-1982) constitui uma das mais relevantes e emblemáticas experiências no histórico de espaços coletivos, multidisciplinares e autogestionados mantidos por artistas em Porto Alegre.

Concebido para funcionar como um ponto de referência para a difusão de manifestações artísticas não convencionais – vinculadas, sobretudo, às práticas vindouras dos conceitualismos e experimentalismos vanguardistas que se seguiram aos anos 1960 e 70 –, o Espaço N.O. privilegiou uma produção diversificada, mas que em comum enfatizava a pesquisa da linguagem e a investigação do emprego de novos meios, suportes, materiais e possibilidades expressivas. Isso envolvia fotografia, performance e instalações, e também estratégias gráficas como arte-postal, fotocópias, carimbos, cartazes, impressos, publicações de artistas e mesmo desenho.

Ao defender e divulgar essas manifestações, o Espaço N.O. foi também criado como modo de atualizar o público e o cenário cultural em relação às linguagens contemporâneas.

Entre os artistas visuais que atuaram no Espaço N.O. estão Ana Torrano, Carlos Wladimirsky, Cris Vigiano, Heloisa Schneiders da Silva, Karin Lambrecht, Mário Röhnelt, Milton Kurtz, Regina Coeli, Ricardo Argemi, Rogério Nazari, Sergio Sakakibara, Simone Michelin Basso, Telmo Lanes e Vera Chaves Barcellos. Alguns eram remanescentes dos grupos Nervo Óptico (atuante entre 1976 e 1978, Lanes e Vera Chaves) e do KVHR (atuante entre 1977 e 1980, Röhnelt e Kurtz), enquanto os demais procediam do Instituto de Artes da UFRGS ou eram artistas vinculados ao teatro, à música e a experiências em arte-postal e arte-xerox.

Intercâmbios com outros meios

Aberto ao público em outubro de 1979, após meses de discussões preparatórias que resultaram na formalização de uma associação com um estatuto, o Espaço N.O. realizou em pouco mais de dois anos dezenas de atividades na sede onde funcionou, na Galeria Chaves, mantendo uma programação praticamente ininterrupta. Além de exposições e performances, eram promovidas leituras dramáticas, peças teatrais, projeções de filmes, debates e palestras, atividades musicais, cursos de expressão corporal, dança e teatro. Participaram desses eventos nomes como Arthur Nestrovski, Celso Loureiro Chaves, Bruno Kiefer, Luis Arthur Nunes, Giba Giba e Olga Reverbel.

Além de divulgar as produções individuais — e por vezes coletivas — de seus integrantes e de outras manifestações artísticas da cena local, o Espaço N.O. também priorizava estabelecer contato e intercâmbios com outros circuitos artísticos, em escala nacional e internacional. Assim, promoveu exposições e ações de artistas como Bené Fonteles, Carmela Gross, Genilson Soares, Hélio Oiticica, Hudinilson Jr., Jayme Bastian Pinto Júnior, Marcello Nitsche, Paulo Bruscky, Regina Vater, Ulises Carrión e 3NÓS3 (Hudinilson Jr., Mario Ramiro e Rafael França). Também trouxe para palestrar em Porto Alegre relevantes nomes da crítica de arte no Brasil, a exemplo de Aracy Amaral e Frederico Morais, que reconheciam e endossavam a produção experimental. E entre as ações realizadas fora, destacam-se as exibições coletivas apresentadas pelo grupo na 16ª Bienal de São Paulo e na Pinacoteca do Estado de São Paulo, ambas em 1981.

Por fazerem do Espaço N.O. um modo de atuação, seus participantes estabeleceram também um modo de funcionamento, com estratégias para exibir, circular e intercambiar. Muito disso vinha da própria experiência e princípios da arte-postal. Exposições de artistas de fora se tornavam possíveis e viáveis porque, em diversos casos, esses artistas não vinham a Porto Alegre. Os trabalhos a serem apresentados eram enviados ao Espaço N.O. pelos Correios, com instruções para montagem e apresentação.

Visão crítica do papel do artista

Ao estabelecer uma movimentação renovadora em Porto Alegre em termos de pesquisa, processo e experimentação de linguagem, o Espaço N.O. se alinhava a um sentido de contemporaneidade à época, que implicava não só na produção em si, mas antes na tomada de consciência de um maior comprometimento crítico quanto ao papel do artista e do processo criador na sociedade. Na defesa pela necessidade de novos valores e sentidos para a produção artística que não os mercadológicos, buscavam-se outros objetivos e enfoques para exercer a criação, assim como outras maneiras de veiculação.

Ao mesmo tempo que criaram suas próprias redes de circulação, artistas como os do Espaço N.O. romperam com modos e atitudes convencionais de executar e exibir arte, defendendo a liberdade criadora e expandindo o seu campo de possibilidades. Ao tomarem parte e posicionamento nas condições de criação e veiculação, enfatizaram uma produção que abria mão da noção de obra de arte como objeto material em si e único, em favor de um entendimento que investisse na dimensão processual e vivencial do trabalho artístico, sendo o artista e sua obra estimuladores e desencadeadores de leituras perceptivas e sensoriais críticas.

Assim, o artista passava a ser entendido como um agente e produtor, cuja função na sociedade de massas e comunicação corresponderia também ao modo com que opera os meios atuantes, ordinários e aplicados, sobretudo os sistemas e as estratégias disponíveis para obtenção, reprodução e circulação de imagens, fossem tecnológicos ou manuais.

Uma exposição a partir de documentos

“Espaço N.O. 40 anos  ̶  Arquivos de uma experiência coletiva” é uma exposição que procura resgatar e pontuar o legado dessa breve e intensa história, a partir de arquivos que registram e ajudam a ativar essa memória. Ao levarmos em conta o próprio caráter processual da produção artística em questão — na qual, muitas vezes, obra e documento se indiferenciam — e o fato de que, a rigor, a experiência consistiu mais em um espaço de atuação e exibição do que em um acervo de objetos artísticos, a curadoria fez a opção por privilegiar os arquivos do que está em causa na exposição.

Assim, ao invés de apresentarmos obras propriamente ditas dos artistas atuantes e participantes do Espaço N.O., esta exposição se estrutura ao mobilizar um amplo acervo arquivístico, articulando no espaço expositivo diversos documentos, publicações e imagens fotográficas, apresentadas nas paredes e em vitrines, como também com recursos de projeção. Nesse sentido, não deixamos de nos remeter à mostra “Espaço N.O. 1979-1982 — Exposição documental”, apresentada em 1995, na Casa de Cultura Mario Quintana. Uma de suas curadoras foi Ana Albani de Carvalho, cujas pesquisas pioneiras sobre o Nervo Óptico e o Espaço N.O. fornecem aportes e subsídios para a presente curadoria.

O material agora reunido para esta exposição documental que o MARGS apresenta, como homenagem aos 40 anos de criação do Espaço N.O., procede em sua maior parte do Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Vera Chaves Barcellos, que guarda o arquivo constituído ainda durante as atividades do grupo, e que seguiu disponibilizado ao público por algum tempo, logo depois de seu encerramento, em abril de 1982.

Complementam a documentação reunida arquivos de artistas atuantes no Espaço N.O., além de itens do acervo documental do Núcleo de Documentação e Pesquisa do MARGS, cuja sala onde funciona no museu também integra a exposição, apresentando documentos e materiais à disposição do público.

Outras duas estratégias também se interligam à exposição, ampliando-a. Enquanto no foyer apresentamos já à entrada do museu alguns documentos sobre o Espaço N.O., na Sala Aldo Locatelli a exposição “Acervo em movimento”, que opera com um modelo de rotatividade de obras do acervo, responde à mostra documental sobre o Espaço N.O. complementando-a com a entrada de trabalhos de artistas atuantes pertencentes à coleção do MARGS. São obras, contudo, que não correspondem precisamente ao período de atividades do Espaço N.O., mas que são representativas da presença desses artistas no acervo do museu.

Por fim, ressaltamos que “Espaço N.O. 40 anos  ̶  Arquivos de uma experiência coletiva” é mais um projeto curatorial da atual gestão a explorar uma certa arqueologia do arquivo, a partir da mobilização de documentos que têm sido levados e articulados no espaço expositivo como modo de enriquecer e intensificar as experiências proporcionadas pelas nossas exposições. Desta vez e neste caso, atribuindo aos arquivos um protagonismo total, mas não sem o desafio que essa opção traz quanto a realizar uma exposição sobre um episódio da história artística somente e a partir de seus documentos.

Em relação a isso, alinhamo-nos ao teórico e crítico Boris Groys, segundo quem “documentar a arte não é tornar presente uma arte do passado, nem a promessa de uma obra de arte por vir, mas é a única possível referência a uma atividade artística que não pode ser representada de qualquer outra maneira”.


Fernanda Medeiros
Francisco Dalcol
Curadores

 

 

SERVIÇO

Espaço N.O. 40 anos  ̶  Arquivos de uma experiência coletiva

Curadoria: Fernanda Medeiros e Francisco Dalcol

Abertura: 9 de outubro de 2019, das 18h às 21h

Visitação: 10 de outubro a 15 de dezembro de 2019

Local: Galeria Iberê Camargo do MARGS

Entrada franca

 

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