Homo Machina – Esculturas de Paulo Favalli

O Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli apresenta a exposição “Homo Machina – Esculturas de Paulo Favalli”, com abertura dia 15 de janeiro, às 19h, nas Salas Negras do MARGS. A mostra, com curadoria de José Francisco Alves, pode ser visitada até 13 de março, com entrada franca. Visitas mediadas podem ser agendadas no e-mail educativo@margs.rs.gov.br.

Serão apresentadas 14 obras do escultor – e também cirurgião plástico – Paulo Favalli (Porto Alegre, 1974), o qual realiza a sua primeira exposição individual da carreira no MARGS. Constará na mostra a sua primeira obra, de 2008, junto com as demais, realizadas em 2017, 2018 e 2019.

As esculturas têm como tema a anatomia humana. Favalli modela partes do corpo em barro ou plastilina e as funde em bronze. A seguir, ele opera uma simbiose desse bronze corpóreo em junção com peças mecânicas, analógicas e digitais. Desse modo, resultam obras híbridas que unem técnicas escultóricas tradicionais da modelagem e fundição com procedimentos contemporâneos de apropriação e assemblagem (montagem), remetendo ao clássico conceito homem-máquina, na ficção científica conhecido como ciborgue.

 

Gabinete de Anatomia high tech

Uma das gratas novidades nas artes visuais é o aparecimento do escultor Paulo Favalli, o qual produziu a sua primeira escultura em 2008, mas que somente recentemente se pôs a intensificar sua particular produção. Dentre as inúmeras abordagens que a sua obra desperta, vemos em primeiro lugar a união da tradição acadêmica escultórica com a arte contemporânea. Favalli é um escultor que domina totalmente a modelagem da anatomia humana, à luz do academismo europeu do modelo vivo e do estudo com cadáveres. Vimos isso, como exemplo, com a Escola de Belas Artes de Lisboa, que oferecia disciplina de anatomia e dissecação e cadáveres aos futuros artistas, diretamente na Faculdade de Medicina, tal qual a cursaram Leopoldo de Almeida e Vieira da Silva, importantes nomes da arte portuguesa.

O talento em modelagem e desenho de Favalli foi desenvolvido por ele mesmo, eis que autodidata em arte, e o seu conhecimento do corpo humano parte de uma base científica. Filho de psicanalista, já na infância os livros de anatomia o fascinavam. Como o próprio artista diz, “observar aquelas lindas ilustrações saciava a minha curiosidade sobre quais mecanismos estariam por trás dos movimentos dos dedos, dos batimentos cardíacos, ou do olhar.” Por esta influência familiar, Favalli se formou em medicina. Ao longo do curso, seu contato com o célebre cirurgião Roberto Corrêa Chem o fez optar pela cirurgia plástica, especialidade entre as quais exige muito talento em reconstituir e transformar a nossa composição anatômica – e na qual Favalli também possui estudos de pós-graduação na França.

Além da modelagem, esta produção reivindica ainda mais sobre a tradição escultórica, com a milenar arte da fundição. Favalli modela partes do corpo humano (com barro ou plastilina), aplica o conhecimento que domina do que se cria, e este resultado é fundido em bronze, na conceituada fundição de Jamil Fraga. A contemporaneidade molda o produto final e agrega às obras o elemento principal, temático, do que interessa ao artista do corpo humano e como se especula sobre ele: o impacto da tecnologia que nós criamos e podemos empregar em nós mesmos. Um futuro que já fricciona o presente, o homem-máquina, em aspecto que vai ao encontro de outro interesse do artista, o cinema SciFi e Science Fiction, a exemplo dos filmes de Kubrick, Ridley Scott, Spielberg, G. Lucas e outros. O recurso duchampiano da apropriação de elementos industriais, no caso, peças analógicos ou digitais, une maquinário a elementos do corpo humano; este corporificado como carne de bronze, a natureza escultórica da qual é base.

Favalli, em seu “gabinete de anatomia high tech”, nos apresenta músculos e tendões com reforços mecânicos, olhos como máquinas fotográficas, cérebros com hard disks, corações com pistões, circuitos diversos, etc. Membros e órgãos que recebem “melhorias” tecnológicas, um futuro antecipado pela Ficção Científica: os ciborgues. Também como o artista declara, esta junção de “materiais eletromecânicos às funções orgânicas de nossa anatomia também nos faz refletir sobre este tema tão constante e universal, que é a nossa constituição biológica em profunda relação com as máquinas criadas por nós mesmos”.

Deste grupo de esculturas que ora apresenta-se, a maioria versa sobre os reforços cibernéticos de nossos órgãos e o resultado plástico que tais configurações podem tomar, à luz da arte e sob referência à Ficção Científica. Mas também há trabalhos que nos remetem a dispositivos de museus de ciências, como The Super Eyeght Camera (Singulari apparatus optica), uma visão particular ao funcionamento do olho humano, e mesmo o diálogo com a História da Arte, La Petite Danseuse du XXIème Siècle, sua obra mais recente e uma releitura de “A pequena dançarina de 14 anos” (c. 1881), de Edgar Degas.

As proposições singulares de Favalli, enquanto possibilidades de abertura plástica ao problema humano-tecnológico, não fogem também às conjecturas éticas que a questão levanta. Ao mesmo tempo em que há o encanto com os “avanços” cibernéticos, o artista se coloca como crítico no sentido de alertar o quanto dependentes estamos nos tornando da tecnologia, o que pode acabar por nos encaminhar a um futuro incerto.

José Francisco Alves

Doutor e Mestre em História da Arte, membro da AICA e ICOM. Graduado em Escultura, é professor de Escultura e teorias de arte no Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre.

 

Fotografias de Divulgação: Sílvia Brum

 

SERVIÇO

Título: Homo Machina

Artista: Paulo Favalli

Abertura: 15 de janeiro de 2019, às 19h

Curadoria: José Francisco Alves

Visitação: De 16 de janeiro a 13 de março de 2019, de terças a domingos, das 10h às 19h

Local: Salas Negras do MARGS

Entrada franca

 

 

Patrocínio

Banrisul

BRDE

Sulgás

 

Apoio

Café do MARGS

Arteplantas

Celulose Riograndense

Oliveira Construções

AAMARGS

 

Realização

Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli

Localização: Praça da Alfândega, s./n.

Centro Histórico, Porto Alegre, RS

Telefone: 32272311

Entrada Franca

Site: www.margs.rs.gov.br

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