O legado de Danúbio Gonçalves (1925 – 2019)

O ano era 1979. A matéria publicada no jornal Zero Hora, assinada por Marli Scomazzon, iniciava com a seguinte chamada: “Aviso às tigresas gaúchas: se você esteve em Torres entre janeiro e fevereiro de 79 pode ter a esperança de ter sido transformada em obra de arte. Foi lá que o mestre Danúbio Gonçalves realizou mais de 700 apontamentos sobre as diversas posições do sensual banho de sol. Eles foram transformados em 16 pinturas e seis litografias expostas a partir desta terça na Galeria de Arte. O tema são lindas mulheres em diminutos trajes tostando-se ao sol.”

Causava certa estranheza, na época, o desenho do corpo feminino envolto em sensualidade, em decorrência da postura politizada e socialista do artista, sempre atento a temas ligados à exploração do homem e ao trabalho árduo no charque e na mineração em solo gaúcho. Apaixonado pela figura feminina, nos anos 1990 pinta a série Eróticas, em belos desenhos aquarelados.

Natural de Bagé (1925), Danúbio teve o Rio Grande do Sul como principal cenário para suas obras, sendo o gaúcho o personagem principal. É na série Xarquedas que Danúbio eternizou em gravuras cenas do abate e corte de gado para fabricação do charque, importante fonte de renda da indústria local entre os séculos XIX e XX. O acervo do MARGS possui a série completa dessas obras, consideradas pela crítica como um dos pontos altos da carreira de Danúbio.

Filho de fazendeiro, aos 10 anos mudou-se para o Rio de Janeiro para estudar e, a contragosto da família, decidiu ser artista. Estudou com Candido Portinari e desenvolveu o apreço pela técnica durante toda trajetória. Iniciou-se na caricatura e depois fez belas sátiras da sociedade carioca da época, retratando as favelas e o porto cariocas.

Nos anos 1950, fez parte do Grupo de Bagé, ao lado de Glauco Rodrigues (Bagé/RS, 1929 – Rio de Janeiro/RJ, 2004), Glênio Bianchetti (Bagé/RS, 1928 – Brasília/DF, 2014) e Carlos Scliar (Santa Maria, 1920 – Rio de Janeiro/RJ, 2001). O Grupo era assim chamado pois seus integrantes se reuniam na cidade de Bagé, no Rio Grande do Sul, para juntos retratarem os hábitos e costumes gaúchos através da pintura, do desenho e da gravura. Esses artistas somavam já na época vasta experiência individual e, sobretudo, coletiva.

O engajamento constante dos quatro amigos mostrava a preocupação permanente pela comunicação com o público e com a profissionalização do artista. Buscava a popularização das artes plásticas e das artes em geral, e a busca sempre renovada de um contato direto com o público. Em 2015, o MARGS apresentou a exposição intitulada O Grupo de Bagé, que também fez uma homenagem nos 90 anos de Danúbio.

Também se dedicou com maestria aos retratos – seja da figura recorrente de Aida – ou do amigo Glênio Bianchetti, confeccionados com nanquim, lápis preto ou crayon. Dirigiu o Ateliê Livre da Prefeitura de 1964 a 1979, dando aulas de xilogravura e desenho, e muitos foram os artistas que passaram por lá e se projetaram no cenário artístico mais tarde. Entre 1969 e 1971 foi professor do Instituto de Artes da UFRGS.

Nos anos 1990, revisitou grandes nomes da arte mundial como Toulouse-Lautrec, Renoir e Van Gogh em acrílicos sobre tela, nas pinturas intituladas Bonjour monsieur… e o nome do artista homenageado.

No final dos anos 1990, fez belas pinturas do balonismo em Torres e dedicou-se aos grandes murais, registrando ali seu olhar sobre o ambiente urbano. Nos anos 2000, dedicou-se a fazer obras em grandes dimensões. Os murais espelhando a cultura local podem ser vistos nas ruas de Porto Alegre, pelos gaúchos que passam pela estação Mercado, pela rótula da Avenida Carlos Gomes ou pela Praça Farroupilha, na capital. Há ainda o belo mural da Usina Elétrica do Jacuí, no interior do Estado.

Em 2000, o MARGS realizou uma exposição retrospectiva de sua produção, ocasião em que também foi publicado um catálogo.

Com a morte de Danúbio, no último domingo (21 de abril), ficamos com o grande legado para a arte brasileira e mundial. O MARGS tem a honra de possuir em seu acervo um conjunto representativo da trajetória inestimável deste artista, que foi capaz de registrar com maestria a presença do homem nas paisagens culturais do seu tempo. Com a mesma precisão técnica e sensibilidade apurada retratou a vivência no campo gaúcho, no subúrbio e nas favelas cariocas, nas praias de Torres, em viagens ao interior europeu e em Porto Alegre – a cidade que escolheu para viver.

 

Cláudia Antunes

Jornalista e coordenadora do Núcleo de Comunicação do MARGS

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