Analítica - Persona
A autoria de Siron Franco na pintura brasileira
Uma das alusões mais freqüentes a respeito de Siron é a de ele ser um pintor brasileiro. Em princípio, não concordamos com a generalização do termo, já que nossa produção pictórica é heterogênea e plural. Diríamos que Siron é uma entre as múltiplas alternativas de lidar com a brasilidade, cabendo a nós verificar onde reside sua autoria na pintura brasileira, o que efetivamente a constitui e a dilacera.
Por ter vindo ao encalço das formas abstratas dos anos 50 e 60, Siron chamou seu contraponto: botou os olhos num conteúdo de fôlego que seria sua forma. A lição de privilegiar o específico de sua linguagem que a tudo reduz e incorpora acentuou o compromisso com a pintura pura, numa comunhão inalienável com sua materialidade, que o faz cúmplice para sempre do óleo sobre tela, sendo essa a primeira de suas qualidades. A segunda e decisiva para nós é o projeto de poética que foi sendo gestado no interior de sua pintura e que tem seu auge a partir dos anos 80.
Após a adesão inicial por uma figuração de tradição expressionista (expressionismo alemão, espanhol, inglês, etc) a caracterizar a maior parte de sua produção dos anos 70, Siron redimensiona a concepção plástica e ganha com isso. Opta por incorporar, em sua pintura, os recursos visuais próximos da criatividade de base, internos à sua cultura, a totalidade visual de um campo cultural alternativo, num Brasil goiano (antas, césio, terra, enxadas, currais), longe dos centros cosmopolitas e próximo ao meio ambiente natural em si, ou de si mesmo enquanto natureza intensa. Aproxima-se e introjeta vorazmente as sugestões visuais desse entorno e através da maneira de formar e dar cor, próximas ao popular, ao ingênuo, ao ínsito, aos aspectos da arte pop – o kitsch, a grafite, ballons, letras e números –, numa sofisticada operação visual – forma x forma – por nós percebida. São metáforas e simbolizações desses mundos paralelos até sua transcendência em sonhos e pesadelos tão imprevisíveis quanto indispensáveis.
É importante observar que Siron não se limita, em sua obra, apenas ao discurso explícito que quer questionar mazelas ou exaltar feitos fortes nessa totalidade de sua proposta cultural. Vai além das intervenções estético-ideológicas na sociedade em que convive – traduzidas em instalações, memoriais e monumentos, atuações públicas em cuja liderança busca um exercício de cidadania iluminada. É nas formas pictóricas - veja-se bem - que propõe uma interação cultural com genialidade. Executa o que os críticos dos anos 70 apontavam como estratégia de translado, ou seja, a operação de levar até o espaço erudito da obra os recursos formais das artes da base. Num raro acordo visual, congrega a criatividade da margem (formas alternativas dessa base) com as formas hegemônicas da história da arte, num verdadeiro desagravo ao culto e ao inculto, onde ele compreende que reside a origem e onde a emoção estética se funda. Por vezes branda e lírica (como nos Pássaros), irônica e analítica (em Curral), exasperada e aflitiva (Homem e metamorfoses), insana (em Político), vulgar e suburbana (em A rainha na intimidade), toda primitiva (em Um pintor), erótica (no Em nome do pai), ritualística (em Patuás e Ensaio), gestante (em Embalagem 3 ) ou puramente inocente (em Vestígios) nas novas formas nascentes, de forma a guindar os recursos de base até um poder simbólico autêntico. E haverá poder mais genuíno que o poder simbólico?
Siron parece, com isso, querer questionar o próprio conceito de arte erudita, quando ligada tão-somente a um saber superior e descontaminado, acrescentando a esse código erudito todos aqueles conteúdos que adensam a totalidade desse campo artístico interno à sua vivência de raiz rural num Brasil central. Busca demonstrar que a relação que entre os códigos altos da pintura pura de Siron Franco entretêm com a vida e a mente desse povo é questão relevante, e é posta-em-forma literalmente – óleo sobre tela – a conter a diversidade visual de todas as paixões elementares ali contidas e ali expressas.
Isso que o qualifica também o faz polivalente, propondo questões para a pintura que vão do envolvimento ao desapego permitindo-se elaborar uma erudição outra, até a metalinguagem (em Homenagem a Monet) onde zera o tom e tudo recomeça.
Siron é raro e caro como uma das possibilidades autorais da pintura brasileira, capaz de lidar com as várias facetas de nossa dimensão estética, refletindo-a de sua base ao topo. Parece cogitar-se pouco, hoje em dia – numa arte entregue apenas à produção e ao consumo – esses níveis alternativos de criatividade, buscando compreender que a latência da arte (cultura) não sonega, nas formas, as diferenças e os conflitos. Ela é íntegra e incorpora um underground próprio e irredutível à globalização.
Espera-se, outrossim, níveis de leitura compatíveis com essa espessura existente em toda grande arte como é a de Siron Franco, um dos autores brasileiros mais completos e significativos da atualidade.
Marilene Burtet Pieta
Professora do Instituto de Artes da UFRGS Membro do Conselho Consultivo do MARGS
Jornal do MARGS,
nº 48, julho de 1999
MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
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