Entre-falas: Artistas
Paradoxos visuais
Regina Silveira faz de cada criação uma pergunta. Em busca da poética sobre os modos de ver, desvela a artificialidade das representações. Sustenta seu universo a partir da geometria e da perspectiva como instrumentos irônicos e paródicos. No jogo das distorções, persegue perspectivas em abismo e cria paradoxos visuais em torno da luz e da sombra.
Regina é uma artista do espaço, do interior, da fachada, da malha urbana, dos monumentos, tem ousadia para enfrentar até arquiteturas difíceis como a de Legorreta, buscando estratégias nada comuns. Precisa articular medições, plantas, escalas, meios que transcendem sua capacidade física de trabalho.
“Minha grande problemática é o espaço, como as imagens constituem espaços de vários tipos. Desde que eu pude sair dos lugares tradicionais da arte, mergulhando numa arena arquitetônica, isso ganhou sentido e diferença. Isso me interessa mais do que produzirpeças que tanto faz estarem aqui como estarem ali”.
A artista, no momento, prepara uma das obras que irá fazer parte do cotidiano do novo aeroporto de Porto Alegre. Prevista para estar pronta em julho, a malha de desenhos em perspectiva, com fundo em azul escuro, passa por um longo percurso, que inclui computador, transposição das imagens para azulejos, pintura em cerâmica, queima em forno, numeração dos azulejos e, finalmente, a montagem. A obra descende de um painel externo que a artista fez para um museu americano durante a exposição Passion for winds.
“Preparei dois projetos, um maior para o setor de chek-in e um outro menor, que é o que eu vou realizar. Nos dois trabalhei com a mesma mistura de desenhos. Não há nada ali que não seja concepções da Idade Média, fiz uma enorme investigação. Escaneei, fiz xerox, fotografei e saiu aquela malha. O aeroporto é isso: desenhos esquemáticos de aviões, ultra-leves, desenhos do começo do século, imagens de Guerra nas Estrelas, como se fosse uma mistura de épocas, tempos, culturas e mitologias”.
A artista, professora aposentada da Escola de Comunicações e Artes da USP, veio a Porto Alegre, sua cidade natal, para inaugurar uma intervenção no espaço Torreão (rua Santa Terezinha, 79), onde seu trabalho fica até 6 de julho. Obra inseparável do lugar, ali, em Desaparência (Estúdio), revisita seu percurso artístico inicial como pintora e aluna de Ado Malagoli e Iberê Camargo. Nessa longa quilometragem, como definiu em palestra comemorativa aos 40 anos do Ateliê Livre, a gravura e o grafismo são constantes. Regina, por exemplo, colaborou durante seis anos com antigo Correio do Povo, ilustrando colunas como a de Lara de Lemos ou do Bric a Brac.
A efemeridade caminha lado a lado com a artista, levando-a, às vezes, à necessidade de tecer tapeçarias como solução à falta de permanência de trabalhos queridos. Com o recurso das novas tecnologias – que também trazem o ilusionismo e a interferência como bases do imaginário cotidiano – ela pode guardar suas idéias executadas num zip, onde ficam aguardando a próxima oportunidade para retomar, muitas vezes transformadas, ao espaço real.
“O efêmero é uma questão política, não é para ser posto à venda. Existe para provocar estranhamento nos sujeitos, mudar algo na vida das pessoas. (...) As pessoas olham a Mosca, o Super-X e de alguma maneira isso intervém na sua percepção, dá um corte, uma mudança. São momentos bastante inesperados, poéticos, procurando sua diferença”.
A Mosca e o Super-X são personagens criados por Regina para dialogar com os sujeitos passantes, aqueles que jamais vão ao MASP, e com a imensidão de sinais luminosos de uma metrópole. A Mosca faz parte da exposição Bienal: os primeiros 50 anos, em cartaz em São Paulo, dentro de um segmento que revela a complexa relação da arte com um sistema de circulação de pessoas, energia e informação que é uma cidade. Signo de deterioração, de transformação, a Mosca vai sendo projetada por um equipamento em cima de uma camionete
e interfere em diversos espaços de poder da cidade, conforme o desejo e o percurso afetivo de sua autora. Provoca diversas leituras, desde críticas até comemorativas. Regina recebe vários pedidos para projetar sua elegante e luminosa mosca varejeira.
“A mosca não pode passar aqui no Hospital da Mulher, que está há tanto tempo parado? Virou instrumento de crítica e de vingança”.
Cida Golin com a participação de Flávio Gil na entrevista
Jornal do MARGS,
nº 69, junho de 2001
MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
Praça da Alfândega, s/n° - Centro
90010-150 - Porto Alegre - RS - Brasil
Fone (51) 3227-2311 - Fax (51) 3221-2646
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