Analítica - Persona
Um artista entre dois mundos
A trajetória de Pedro Weingärtner, marcada pelas adversidades iniciais, é exemplar para que se possa entender a fase de instauração do campo artístico no Rio Grande do Sul. Nascido em Porto Alegre, e proveniente de uma família de desenhistas e litógrafos de origem germânica, Pedro Weingärtner (1853-1929), ao sentir os primeiros apelos da vocação artística, não titubeou em transpor fronteiras, embarcando rumo à Alemanha, de onde seguiu para a França e de lá para a ItáIia. Passando a maior parte da sua vida entre dois mundos, um que começava a repudiar o peso da própria tradição, e outro que lutava para construí-la, preferiu sempre a segurança das atitudes convencionais. A parte mais significativa da sua formação clássico-romântica, à que sempre foi fiel, adveio do período em que residiu em Roma. Lá, varias escolas tradicionais eram ainda mantidas por países estrangeiros, como a academia francesa da Villa Medici, que recebia estudantes de diversas partes do mundo. Naquele ambiente favorável ao gosto tradicional, Pedro Weingärtner filiou-se ao grupo In Arte Libertas, interessado em temas mitológicos, na vida popular e em paisagens rurais, que combinavam muito bem com seu pacato jeito de ser.
No Brasil, o artista encontrou mercado garantido no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde o resultado de seu esforço era integralmente recompensado, com vendas de lotes inteiros de obras expostas. No Rio Grande do Sul, a preferência do público incidia mais sobre retratos do que sobre temas mitológicos e paisagens. Entretanto, a circulação de suas telas temáticas ainda no final do século XIX, por diversas vezes, quebrou a monotonia cultural da capital do Estado. Nessa época, era comum que as pinturas que não encontrassem compradores fossem rifadas, para garantir aos artistas uma indenização pelo trabalho realizado. O mesmo processo chegou a acontecer com Pedro Weingärtner, até que começasse a se formar um mercado de arte local minimamente estruturado.
Não é difícil compreender como se deu o processo de crescente valorização do artista no contexto da sociedade sulina. Entre outras telas de forte teor narrativo, aventurou-se num tipo de pintura marcadamente romântica, com tendência para o realismo melodramático, como é o caso de Tempora Mutantur que tem como tema central o difícil processo de instalação das famílias de imigrantes no Estado do Rio Grande do Sul. Exposta em Porto Alegre, em junho de 1899, a tela foi comprada pelo presidente Borges de Medeiros para o Palácio do Governo. A essa altura, alguns grupos de imigrantes alemães, que já dispunham de grande poder econômico, procuravam maior inserção social e representatividade política. Sem dúvida, para um governo empenhado em consolidar as bases simbólicas de uma tradição regional, era vantajoso o incentivo da produção de imagens capazes de narrar as façanhas quecolaboraram para a constituição do imaginário do povo gaúcho, incluindo nisso o processo de imigração.
O interesse por temas regionais, tratados pela ótica romântica, contudo, não encontrou o desenvolvimento que se poderia esperar nas novas gerações de artistas locais. A morte de Pedro Weingärtner, ocorrida aos setenta e seis anos de idade, depois de uma vidainteiramente dedicada ao trabalho artístico, parece ter sepultado definitivamente, no Rio Grande do Sul, o interesse pelo vocabulário clássico e pela retórica do romantismo, que já não despertavam a atenção dos artistas que disputavam espaço no incipiente mercado local. As gerações que se seguiram, mesmo sem ousar romper violentamente com as práticas tradicionais de representação, voltaram-se para um naturalismo menos ingênuo, cônscios da impossibilidade da pintura em competir, em termos de verossimilhança, com o recurso da fotografia, essa irrefreável invenção da modernidade.
Cronologia
1853 – Nasce Pedro Weingärtner, em Porto Alegre, RS.
1860 – Os irmãos Weingärtner montam uma oficina litográfica.
1867 – Morre o pai do artista. A viúva e os filhos trabalham para garantir o sustento da família. Pedro emprega-se numa loja de ferragens.
1878 – Decidido a estudar pintura na Europa, embarca em 12 de fevereiro para a Alemanha. Permanece de seis a sete meses em Hamburgo, estudando na Kunstgewerbeschule. Em outubro do mesmo ano matricula-se na Grossherzohlich Badishe Kunst-Schule, na cidade de Karlsruhe. Ingressa na classe do professor Theodor Poeckh.
1882 – Vai para Paris. O professor William Adolphe Bouguereau envia recomendações positivas do jovem artista à Legação Imperial do Brasil.
1884 – Passa a receber pensão de 300 francos mensais do Império Brasileiro. Expõe no Salão da Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro.
1885 – Viaja para Munique.
1886 – Recebe da Legação Imperial do Brasil em Paris a permissão para aperfeiçoar-se na Itália. Instalase em Roma.
1887 – Visita os familiares no Rio Grande do Sul.
1888 – Primeira exposição de Pedro Weingärtner no Brasil, realizada no estabelecimento fotográfico de Insley Pacheco & Cia no Rio de Janeiro. Regressa a Roma.
1891 – Expõe no Salão da Societé des Artistes Françaises. Leciona desenho figurado na Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro até 1893.
1893-1894 – Vai a Santa Catarina. Volta ao Rio Grande do Sul, pelo interior, a cavalo (com malas, tintas, estudos e quadros pintados). É acompanhado por um grupo de federalistas até um local seguro.
1894-95 – Em Porto Alegre pinta vários retratos, entre eles o de Julio de Castilhos.
1895 – Retorna à Itália. Realiza excursão pelo Tirol. Inicia o quadro Direitos Documentados, oferecido ao Imperador brasileiro.
1897 – Morre a mãe do artista.
1898 – Expõe no Salão de Paris. O presidente Campos Sales visita seu ateliê em Roma e demonstra interesse em comprar Tempora Mutantur, mas o artista nega-se a vender a tela, porque estava destinada ao Rio Grande do Sul.
1899 – Tempora Mutantur é exposta no Rio Grande do Sul e adquirida por Borges de Medeiros para o palácio do governo.
1900 – Viaja ao Brasil, realizando exposição em São Paulo. Participa da Exposição Universal de Paris.
1901 – Oferece o quadro Borboletas como presente de aniversário a Julio de Castilhos.
1905 – Viaja ao Brasil. Entrega à Assembléia dos Representantes do Rio Grande do Sul retrato de Julio de Castilhos, pintado em Roma. Repousa em Poços de Caldas e retorna a Roma.
1909 – Passa temporada em Portugal, às margens do Lima, em Viana do Castelo. Expõe Rodeio, tela encomendada por Carlos Barbosa Gonçalves, presidente do Estado do Rio Grande do Sul, que não é bem aceita pela crítica e pelo público por supostos erros na representação dos hábitos dos gaúchos.
1910 – Realiza exposição em São Paulo em que quase todos os quarenta e seis quadros expostos são vendidos. Da mostra consta o típico Faiseuse d’anges. Casa-se com Elisabet Schmitt.
1911 – Expõe em Porto Alegre, vendendo apenas duas telas. Realiza exposição no Rio de Janeiro, com sucesso de vendas e de crítica.
1912 – Retorna ao ateliê da Via Margutta, em Roma, agora casado.
1913-14 – Volta ao Rio Grande do Sul e faz quadros com motivos regionais.
1920 – Retorna definitivamente ao sul, com seus quadros, inúmeros desenhos, águas-fortes e livros. Monta seu ateliê em Porto Alegre. Realiza exposição na capital do Estado e em Pelotas.
1922 – Expõe no Rio de Janeiro.
1925 – Realiza duas exposições em Porto Alegre.
1929 – Falece em 26 de dezembro de 1929.
Neiva Bohns, Professora da UFPEL
Jornal do MARGS, nº 90, julho de 2003
***
O positivismo em Pedro Weingärtner
Em fins do século XIX, encontram os líderes sociais e intelectuais do Rio Grande do Sul, no ideário éticopolítico baseado no Positivismo europeu, os elementos necessários para fornecer sustentação às elites agrárias e, ao mesmo tempo, expressar valores da classe média, fortalecida com o desenvolvimento urbano. É o que se pode constatar tanto no discurso político, em que avulta a palavra de Júlio de Castilhos, como na produção cultural e artística, especialmente nas obras literárias de Alcides Maya ou Simões Lopes Neto e na obra plástica de Pedro Weingärtner.
Fazem parte desse ideário positivista algumas propostas que, desde logo, transparecem nos diversos aspectos da pintura de Weingärtner, como:
I. A exaltação do regional entendido como categoria universal, ou seja, uma visão “científica” ou “positiva” do regional:
– Weingärtner faz um extenso levantamento da paisagem natural e humana do Rio Grande do Sul, mas também fixa cenas de paisagens do Tirol, da Itália e de Portugal, procurando sempre a visão objetiva que encerra uma certa neutralidade por parte do artista diante do assunto, encarada como atitude científica. Não se trata, portanto, de um regionalismo preso às características desta ou daquela região, mas de um artista que se pretende um analista “positivo” dos aspectos do cotidiano regional.
II. A temática profana e clássica revela a propensão à atitude civilista dos positivistas, em que desponta o culto do racionalismo e da erudição:
– Seguidamente, em Weingärtner, o tema surge da antigüidade greco-romana ou se prende à visão das for mas que estruturam tanto a paisagem natural quanto interiores urbanos.
III. A valorização da família, da tradição, do dever e da hierarquia que no discurso positivista gaúcho marca a exaltação da manutenção da ordem estabelecida:
– São comuns as obras em que o artista retrata cenas de ambiente da classe média ou das lidas populares, sempre organizados como um jogo de relações harmônicas, simples e estáveis. São também exemplares seus retratos pomposos, mas austeros.
IV. A valorização da estrutura formal integradora dos valores hierarquizados:
– Os trabalhos de Weingärtner são estruturados a partir de um desenho preciso da cena enfocada em que os detalhes jamais são descuidados. O tratamento da cor e da luz orientam-se para a delicadeza e para o refinamento bem equilibrados que diluem e integram quaisquer contrastes. Os tons mais abertos e frios de seus verdes e azuis sempre diluem a dramaticidade que poderia surgir dos ocres, terras e vermelhos, fazendo com que sua palheta se apresente brilhante e bem-comportada.
Não é por acaso que a imprensa, a intelectualidade e as autoridades políticas da época, desde logo, encontram o que aplaudir na obra de Pedro Weingärtner. O caudilho republicano e positivista Júlio de Castilhos não só se fez retratar pelo artista, mas, após elogios públicos à exposição da obra Tempora Mutantur em 1900, induz o então Presidente do Estado, Borges de Medeiros, a adquiri-la para o Palácio do Governo. Entre os inúmeros elogios que lhe dedica a imprensa local, é interessante observar o que lhe faz Olinto de Oliveira, em 1898, no Correio do Povo, afirmando ter Weingärtner traduzido “...esses belos sentimentos em uma linguagem mais consistente, mais positiva”.
José Luiz do Amaral, crítico de arte e curador da exposição O Positivismo em Pedro Weingärtner.
Jornal da AAMARGS, nº 11, fevereiro de 2003
MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
Praça da Alfândega, s/n° - Centro
90010-150 - Porto Alegre - RS - Brasil
Fone (51) 3227-2311 - Fax (51) 3221-2646
museu@margs.rs.gov.br