Selecta do Museu

Paisagens urbanas

Os estatuários da Delegacia Fiscal

 

O prédio do MARGS foi construído entre 1912 e 1922, para sede da Delegacia Fiscal do Tesouro Nacional. Seu construtor foi o arquiteto Rudolpho Ahrons e seu projetista o alemão Theo Wiederspahn. Seu espaço circundante, na ocasião, era um dos mais notórios dacidade. A atual avenida Sepúlveda, depois de aterrada, era a via de acesso que ligava Porto Alegre com o mundo. Ali estavam a Alfândega, a Secretaria da Fazenda, os Correios e Telégrafos e a Delegacia Fiscal. Estes dois últimos, com suas torres, formavam uma espécie de pórticoatravés do qual os recém chegados divisavam a cidade.

 

Nessa época o centro de Porto Alegre passava por grandes transformações urbanas e arquitetônicas como já acontecera em outras cidades do mundo ocidental. O modelo inspirador dessas reformas era a Paris de Luis Napoleão e de seu prefeito George Haussmann. Aqui, no governo do Estado, os republicanos positivistas, admiradores de Augusto Comte e da cultura francesa, também queriam fazer de Porto Alegre uma espécie de cartão de visita de sua administração, pretensamente pautada na ciência, no progresso, e no consórcio da técnica com a arte. Esse processo tinha relação com a segunda fase da revolução industrial, quando as máquinas a vapor, o telégrafo e as estradas de ferro, proporcionaram um espetacular incremento na produção e nos intercâmbios econômicos, numa espécie de globalização da economia mundial.

 

O estilo arquitetônico que acompanhava essa expansão do capitalismo foi o chamado historicismo, ou ecletismo, que tinha como característica uma profusa e variada ornamentação nas fachadas dos edifícios. Assim como os interiores repletos de quadros, móveis e objetos de arte, tais fachadas simbolizavam a prosperidade e opulência das classes dominantes da época. Em sua fase européia, entre 1860 e 1900, este estilo arquitetônico tinha dado emprego a um grande número de profissionais da escultura. As instâncias de legitimação, entretanto, não reconheciam valor artístico no seu trabalho. Quando o historicismo, a partir de 1900, começou a ser substituído pelas novas arquiteturas, que rechaçavam o decorativismo, muitos desses escultores ficaram sem emprego. Em algumas cidades da América do tipo Buenos Aires, Montevidéu, Rio de Janeiro e São Paulo a arquitetura historicista ainda persistia. Em outras, como Porto Alegre, começava a despontar. Atraídos pela perspectiva de trabalho, muitos deles vieram “tentar a América”. Este foi o caso de Alfred Adloff, um dos estatuários da Delegacia Fiscal.

 

Alfred Hubert Adloff nasceu em 22 de julho de 1874, em Dusseldorf, Alemanha, onde fez o curso de modelagem na sua Escola de Belas Artes. Apesar de premiado em exposições européias, como a de 1907, em Dusseldorf, teve que se contentar com a condição de assalariado em oficinas de escultura de Berlim, Bruxelas e Dresden, na Itália. Aqui chegou em 1912, contratado pela oficina de João Vicente Friederichs. Seu primeiro trabalho foi o monumento ao Barão do Rio Branco, defronte ao prédio dos Correios e Telégrafos (1910-1914), onde trabalhou outro grande estatuário, o austríaco Wenzel Forberguer, autor do grupo do Atlante carregando o mundo nas costas, ladeado de um jovem representando a América e de uma mulher adulta representando a Europa.

 

A seguir Adloff trabalhou na Delegacia Fiscal, para a qual executou as seis figuras da fachada. Simbolizam as atividades econômicas do Estado. No andar superior, da esquerda para a direita, foram dispostas, respectivamente, a Indústria, Arquitetura, Pecuária e Navegação, com seus respectivos adereços identificadores. A Indústria com a marreta e as rodas dentadas. A Arquitetura com o compasso e, atrás de si, uma maquete do próprio prédio. A Pecuária com um cordeiro debaixo do braço e uma armação de cangar animais. A Navegação com uma vela desiçada em volta da cintura e um cantil na mão direita. Acima da porta de entrada foram dispostas a Agricultura, com a cornucópia da fertilidade, e o Comércio, com um saquinho de moedas na mão direita. Para indicar sua integração, foram colocadas de frente uma para outra, com os antebraços apoiados no dossel do escudo da Delegacia Fiscal. Todas estas alegorias serviram para ilustrar a pujança e a dignidade das atividades econômicas do Estado Positivista. A dignidade ficou plasmada nas suas características neoclássicas, uma especialidade de Adloff. Na roupagem, nenhuma ação de agentes externos; na musculatura, nenhum sinal de esforço; no rosto, nenhuma expressão de sentimento. Em suma, figuras olimpicamente indiferentes ao que se passa na rua. Mas nem tudo nelas é grego. Na representação do deus Hermes, simbolizando o Comércio, não foi escolhido o perfil grego. Foi uma cabeça de alemão, posando de deus helênico. Adloff foi o mais virtuoso e produtivo dos modeladores que trabalharam aqui no Estado, entre 1910 e 1940. Foi o autor do Atlante e do Remador Negro, no prédio da Alfândega, assim como da Camponesa com o Cântaro, hoje colocada na Praça da Alfândega, e que o imaginário popular apelidou de Samaritana com a Ânfora.

 

Os signos da pujança e da opulência foram consignados na profusa e variada ornamentação da fachada da Delegacia Fiscal. O ecletismo de seus figurinos denotam, talvez, o internacionalismo econômico e cultural do período. São máscaras e carrancas clássicas, barrocas e orientalizantes, rodeadas de guirlandas dos mais variados tipos de flores e vegetais. Nelas trabalharam diversos estatuários, entre eles Vitório Livi, nascido em Porto Alegre, em 1896, e que foi aprendiz de Wenzel Forberger, Jesus Maria Corona e Alfred Adloff, nas oficinas de João Vicente Friederichs. Entre seus diversos trabalhos destaca-se o monumento ao Cel. Aparício Borges (1934), em parceria com Francis Pelichek.

 

Arnoldo Walter Doberstein
Doutor em História do Brasil pela PUCRS
Jornal do MARGS, nº 70, julho de 2001

 

Paisagens urbanas

MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
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