Analítica - Persona
Breve comentário em torno de uma pintura e de uma época
Uma das pinturas selecionadas para a exposição De Frans Post a Visconti - momentos importantes da pintura no Brasil, do acervo do Museu Nacional de Belas Artes, e, agora, reproduzida neste número do Jornal do MARGS, denomina-se Alguns colegas: sala de professores, pintada e exposta no Salão da Escola Nacional de Belas Artes, em 1921. Seu autor, Artur Timotheo da Costa (1882- 1923), morreu tragicamente no Hospício de Alienados, no Rio de Janeiro. O mesmo fim, aliás, que teve o seu irmão, João, pintor de igual talento, em 1932. A pintura é um dos derradeiros trabalhos conhecidos, assinados e datados pelo autor. Artur Timóteo da Costa, que concebeu uma das obras mais conhecidas da coleção do Museu
de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli – Dama de Branco –, presta homenagem a um grupo de contemporâneos, artistas todos, alguns professores da Escola de Belas Artes.
Vários dos personagens retratados são identificáveis. À direita do observador, no canto inferior, podemos ver um auto-retrato de Artur com sua mão esquerda pousada no ombro do irmão João. A figura de grandes bigodes, que aparece no canto superior direito, pertence ao caricaturista Raul Pederneiras (1874-1953), que formou com Calixto Cordeiro (1877-1957) e J. Carlos (1884- 1950) a trindade maior da caricatura brasileira nas décadas iniciais do século XX. À esquerda de João Timotheo, encontramos o melancólico e elegante Rodolfo Chambelland (1879-1967), professor da Escola e irmão de Carlos Chambelland (1884-1950), outro pintor que foi incluído na exposição De Frans Post a Visconti. Outros participantes desta mostra estão representados: o casal Lucílio (1877-1939) e Georgina de Albuquerque (1885-1962), que foram Diretores da ENBA, ambos de óculos, e Hélios Seelinger (1878-1965), de cigarrilha na boca, à esquerda de Lucílio. Foram identificados, ainda, o pintor Francisco Manna (1879-1943), o primeiro à esquerda, que viveu alguns anos de sua infância e adolescência no Rio Grande do Sul, depois de sua chegada da Itália, expondo, em 1898, na loja Ao Preço Fixo de Porto Alegre; Pedro Bruno (1888-1949), o pintor de Paquetá, de gravata borboleta, ao lado, Manna, além dos escultores José Otávio Correia Lima (1878-1974), discípulo preferido do grande Rodolfo Bernardelli (1852-1931)e Armando MagaIhães Correia (1889- 1944), às vezes confundido com Rodolfo Amoedo, localizados entre Georgina de Albuquerque e Rodolfo Chambelland.
A maioria dos personagens representados fazia parte da “nata” artística do Rio de Janeiro, às vésperas da Semana de Arte Moderna de São Paulo. Talvez, por esta razão, estejam, hoje, um pouco esquecidos e venham sendo citados, ligeiramente, por parte dos historiadores da arte mais comprometidos com as conquistas do movimento moderno no Brasil. Mas, na época, eram conhecidos e festejados e vários deles são entrevistados em um dos livros mais interessantes sobre questões de arte publicado em nosso país: A inquietação das abelhas, de Angyone Costa (Pimenta e Mello e Cia., RJ,1927). Lucílio e Georgina Albuquerque, Rodolfo e Carlos Chambelland, Hélios Seelinger, Correia Lima, Magalhães Correia, além de nomes consagrados como Visconti, Amoedo e Parreiras, dão o seu testemunho sobre o estado das artes produzidas, no Brasil, naquele período.
Comumente, estes artistas são rotulados de “acadêmicos”, não no sentido original da palavra, ou seja, de que os seus trabalhos estão relacionados com “a doutrina e osensinamentos de uma academia de pintura, como por exemplo, a Academia Imperial de Belas Artes ou a Escola Nacional de Belas Artes” (conforme José Roberto Leite), mas num sentido pejorativo, como inimigos da renovação formaI, como conservadores e, até mesmo, como esteticamente reacionários. A verdade é que inúmeros destes pintores citados estavam longe da prática acadêmica mais usual, como comprovam os exemplos de boa parte da obra de Lucílio e Georgina de Albuquerque, Hélios Seelinger e os próprios irmãos Timotheo, nas experimentações envolvendo o estilo art-noveau de Artur e João, na decoração do Pavilhão do Brasil na Exposição de Turim, em 1911, na pintura neo-impressionista de Georgina de Albuquerque e em certo simbolismo satírico de Hélios Seelinger: não esqueçamos que O retrato de Olgária Mariano (MNBA), de Portinari, que lhe deu o Prêmio de Viagem aoEstrangeiro em 1928, se assemelha, em muito, ao espírito que envolve Alguns colegas: sala de professores. O certo é que não somos tão afortunados, em termos de talento, para desprezar artistas do porte dos integrantes do quadro de Artur Timotheo da Costa. Todos fazem parte de uma época formativa das nossas artes visuais. Viveram num Rio de Janeiro que desperta a nostalgia de todos. Para nós, do Museu Nacional de Belas Artes, que possui dezenas de obras desses artistas, eles estão bem vivos. Em segmento de uma das galerias permanentes do MNBA, que contempla as três primeiras décadas do século, a quase totalidade dos pintores, citados acima, está representada e, até hoje, suas obras, expostas, despertam a curiosidade e a admiração dos visitantes do Museu.
Pedro M.C. Xexéo, chefe do Serviço Técnico do Museu Nacional de Belas Artes (RJ)
Jornal do MARGS, nº 60, agosto de 2000
MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
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