Selecta do Museu

Paisagens urbanas

O pintor da Demétrio

 

Quem passa em frente ao número 535 da rua Demétrio Ribeiro, no Centro de Porto Alegre, tem a atenção despertada por uma placa fixada na fachada do prédio. Letras brancas sobre um fundo vermelho compõem a inscrição: Gavronski – artista e pintor.

 

O sobrado amarelo de vidraças esverdeadas e janelas em arco foi a residência de um artista plástico que viveu em Porto Alegre na primeira metade do século XX. Nascido em São Paulo, no ano de 1876, Júlio Gavronski procurou o Sul do país em busca de oportunidades de trabalho. Em 1920 chegou à Capital gaúcha acompanhado pela esposa, Olga, e pelas filhas, Wilma e Wanetti.

 

Hoje, aos 81 anos, a caçula Wanetti ainda vive como guardiã da história daquela casa e dos quadros produzidos pelo artista, esquecido em quase todos os dicionários de artes plásticas. Os sete cômodos da construção concluída em 1928 comportam, intactos, os utensílios da família. Junto às paredes descansam pinturas a óleo aplicadas sobre uma tela confeccionada pelo próprio artista. Com passagem pela Itália em 1904, Gavronski aderiu ao estilo clássico e dedicou-se aos retratos. Sobre um cavalete, na varanda da casa, a filha do pintor exibe um dos quadros produzidos na Europa. Trata-se do perfil de uma modelo italiana. Molduras de diferentes tamanhos e estilos contornam paisagens, naturezas-mortas, cenas de uma Porto Alegre antiga e imagens religiosas como a de São Pedro, desenhada a crayon, no último trabalho feito pelo pintor. A longa idade das obras não permitiu que elas conservassem sua beleza original. Agredidas por cupins ou pela ação da umidade, muitas peças se deterioram. Ao apresentar cada um dos trabalhos feitos pelo pai, Wanetti sabe diferenciar quais foram produzidos com tinta estrangeira ou nacional. Ela lembra da preferência do artista pelo produto italiano. Com a segunda guerra mundial, muitas importações foram suspensas, e as paisagens da praia de Volta Redonda e das termas da Guarda tornaram-se mais escuras. Além dessas imagens, os quadros mostram cenas de uma capital habitada por construções baixas, ruas fartamente arborizadas, bondes e antigas fábricas.

 

Gavronski teve na pintura sua profissão. Apesar das encomendas, ele não entendia a produção de retratos como arte legítima. Aceitava fazê-los, pois era a única manifestação artística que poderia render-lhe o sustento. Foi contemporâneo de um período em que galerias de arte eram raras em Porto Alegre. Na falta de museus, adotou a vitrine de um amigo alfaiate, na Rua da Praia, para exibir suas obras. A trajetória do artista inclui participação no Primeiro Salão de Belas Artes do Rio Grande do Sul, em 1889, quando recebeu menção honrosa.

 

Os quadros anônimos do pintor da Demétrio Ribeiro ganharam forma no ateliê do artista, nos fundos do terreno da mística construção. O pai de Wanetti preferia trabalhar perto das filhas e da esposa. A caçula acompanhava o pai em suas tardes de produção. Ficava quietinha, num canto da garagem, que nunca serviu como tal. Partilhava, com o progenitor, o comportamento discreto.

 

Gavronski nunca se mostrou expansivo. Em família, manifestava seu apreço às filhas através de uma criação rígida. Entre suas memórias, Wanetti recorda um episódio que marcou sua relação com o pai. Num momento em que todos estavam reunidos no segundo piso da casa, ouviram o som do piano vindo do andar de baixo. O suspense tomou as pequenas irmãs que foram ordenadas pelo pai a darem fé da situação. Desceram a escada lentamente, num rigoroso gesto de coragem infantil, e encontraram a tampa do teclado aberta. Sobre o piano, o gato da casa desfilava em suas peraltices. A lei na família Gavronski era jamais dar chance ao medo.

 

A rua Demétrio Ribeiro não foi apenas endereço residencial dos Gavronski. Na altura onde hoje fica o edifício Irupê, o artista pintor montou uma escola. Todas as noites, reunia um grande grupo de alunos e lecionava pintura. Wanetti lembra, saudosa, da casa com janelas de guilhotina. “Morei lá quando tinha uns três anos e meio e ainda tenho impressão de entrar na casa quando lembro dela.”

 

Nesse tempo eram comuns as reuniões de família e amigos em frente às casas, ao anoitecer. Os adultos conversavam, enquanto as crianças brincavam no meio da rua. O sossego só poderia ser importunado pelos moleques que acertavam boladas nas vidraças. Mas as bolas que caíam dentro do jardim, cuidadosamente tratado por Olga Gavronski, não eram devolvidas. Como represália, Wanetti conta que os meninos roubaram a placa vermelha, com o nome do pai, presa no portão da casa. Mais tarde, aos 20 anos, ela foi descobrir que o objeto havia sido enterrado próximo ao Guaíba. Wanetti recuperou-o e trouxe-o de volta para casa.

 

Por isso, até hoje, quem fica fatalmente curioso ao ver a tal placa pode avistá-la dentro do pátio, protegida por dois portões de ferro. Acompanhada por quatro gatinhos, Wanetti deslumbra-se com as lembranças da casa e do pai. Nunca se casou e, hoje, é amparada por um parente distante. “A gente só sabe o que é estar sozinha quando se está sozinha.”

 

A necessidade de ter alguém para conversar, trocar idéias e combinar coisas a faz uma interlocutora muito ativa, o que lhe permite um bom relacionamento com a vizinhança. Admiradora das obras de Ângelo Guido e de Leopoldo Gotuzzo, Wanetti quer conhecer o MARGS. Mesmo com uma saúde frágil, guarda o desejo de ver exposto Auto-perfil, um óleo sobre tela de seu pai, doado pela mãe, Olga, ao acervo do Museu, em 1978.

Ana Maria Brambilla,
Equipe JM
Jornal do MARGS, nº 77, março de 2002

 

Paisagens urbanas

MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
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