Analítica - Persona
Lembro-me dos guaches de Carlos Scliar, expostos em 1944, no Instituto dos Arquitetos do Rio de Janeiro. E, depois, dos desenhos expressionistas de guerra, resultantes de sua estadia na Itália como expedicionário da FEB, mas só vim a conhecê-lo pessoalmente em Paris (1950). Hospedadas em hotel, na Rue Cujas do Quartier Latin, personalidades brasileiras: escritores, pintores, atores, políticos, jornalistas, etc. Também importantes personalidades estrangeiras. Entre elas o gravador mexicano Leopoldo Mendez, realizador do Tajer Grafico, que originou o movimento dos Clubes de Gravura, sendo o de Porto Alegre efetivado por Scliar e nosso grupo, pioneiro dos posteriores no Brasil e no Uruguai.
A liderança e persistência entusiástica de Scliar contagiava os jovens artistas que, comunitariamente, eram partidários de uma arte engajada ou humanística. Movimento, na época, semelhante ao de outros países europeus contrários ao decorativismo alienado da abstração. O jovem pintor com planos e sonhos. Mais planos plausíveis do que utópicos. Temperamento rico em emotividade.
Consolidamos nossa amizade nas tantas vezes em que trabalhamos juntos com o Grupo de Bagé e seu inseparável companheiro Glauco Rodrigues.
Depoimento de Scliar
“Diariamente, podemos aprender melhor e mais profundamente transmitir nossa visão das coisas. Acho que não há forças capazes de impedir que a humanidade avance na conquista de uma vida mais digna e bela para todos. Tento, através dos meus quadros, transmitir minha confiança no homem e na sua luta, mostrando que a vida é bela e merece ser conquistada. Cada um diz o que sabe e como pode.”
O pintor gaúcho, autodidata, estava sempre atento aos conselhos dos artistas experientes. A isso, somava-se a pratica de ateliê, as viagens e a permanência em países europeus. Cativante sua erudição. Conversa sua era oratória, acessível para os menos cultos e no mesmo diapasão aos mais esclarecidos. Leitor por toda vida, apaixonado e conhecedor de cinema ou outros gêneros da arte. Autor de obra volumosa e diversificada. Diagramador da
excelente revista Senhor (Rio de Janeiro, de 1958 a 1960) e também da revista Horizonte (Porto Alegre). Ilustrou com linoleogravuras o Les Chemins de la faim, de Jorge Amado (1950). Editou estampas em linoleogravura epoichoir, no período dos Clubes de Gravura de Porto Alegre e Bagé. Seria extensivo relembrar as tantas atividades de sua trajetória artística. Todavia, devo situar, nas etapas de São Paulo, Rio de Janeiro e Paris, sua preferência pela figura humana. A seguir, predominou a paisagem e a natureza morta (viva...) na sua pintura, com vestígios do cubismo (Juan Gris) e do mundo silencioso de Morandi, com quem muito se identificou. Da essência, acrescida à sua rica experiência pictórica, resultariam quadros povoados com ferros de passar, bules, flores, lamparinas, etc. Objetos cotidianos afetivamente
recriados e sabiamente colocados nos espaços serenos de suas composições. De colorido tonalista refinado, germinados à colagem, palavras ou curtas frases que, em mensagem, tornaram suas mudas naturezas vivas em falantes.
Carlos Scliar sempre esteve atento às injustiças e às falcatruas globalizadas. Nunca alienado. Alerta e ativo na defesa da não depredação do patrimônio artístico nacional (em Cabo Frio e em Ouro Preto). Defensor da memória e, seguramente, contra o descartável consumismo.
Legou-nos obra de postura profundamente humanística, tão digna de ser continuada. Exemplo para os que vêem na arte apenas um mote decorativo ou que vivem ainda trancafiados na comodista torre de marfim...
Adeus, Carlos Scliar, continuarás vivo para orgulho de nossa arte e cultura.
Danúbio Goncalves,
artista plástico
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Depoimentos de Scliar (1920-2001)
Sobre o Atelier da Globo
O trabalho editorial da Globo está entre as melhores coisas feitas no país. Num dado momento, pelo padrão de profissionais que tinha, a Globo representou o máximo de seriedade e qualidade criativa. Os livros juvenis publicados na década de 30 – A ilha do tesouro e Alice no país das maravilhas com ilustrações de João Fahrion – são obras-primas na qualidade editorial. Eu era um menino quando ia lá. Tinha entre 14 e 1 5 anos. Era o início dos anos 30. Eu freqüentava o Ateliê de Artes Gráficas porque era amigo do Nelson (Boeira Faedrich). Era um privilegiado. Ficava encantado com o trabalho dos artistas, o Nelson, o Gastão Hofstetter, o Joào Fahrion. O Ateliê ficava no ultimo andar, voltado para a Praça XV. O clima era de compenetração; cada um concentrado na sua mesa. Eles faziam uma espécie de litografia sobre zinco, que era preparado para dar a mesma resposta que a pedra daria. O Edgar Koetz era um grande profissional e muito simpático. O Zeuner dirigia o Ateliê. Era muito discreto e eficiente, respeitadíssimo por todos. O trabalho deles foi fundamental para as artes plásticas, pois abriu a possibilidade, no mais alto padrão, para o surgimento de novos artistas. Hoje, não há mais isso.
A Chico
A Chico Lisbôa nasceu de uma necessidade dos artistas iniciantes. Precisávamos de um espaço para mostrar os trabalhos e sentir a opinião das pessoas. Na época, existia somente o Instituto de Belas Artes que, se por um lado, alguns até respeitavam, outros – e eu era um destes – eram completamente contra. Na nossa opinião, a escola era sinônimo de ‘ser box’. Engraçado, essa medalha de autodidata eu usei muito tempo até morar na França e me dar conta de que a escola também era necessária. Na época, nosso pessoal se reunia em vários lugares, até que em 1937, 1938 efetivouse a idéia da primeira associação. Eu falo em primeira porque já havia existido outras organizações, mas nenhuma teve essa longevidade de mais de meio século. No primeiro ano, nós conseguimos realizar, na Casa das Molduras, uma exposição. Creio que a Francisco Lisbôa foi um trampolim para a minha carreira, assim como para outros artistas, ao possibilitar a exibição do nosso trabalho. Como representante da Chico Lisbôa em São Paulo, eu consegui trazer os artistas paulistas mais representativos para a Exposição Farroupilha que houve em Porto Alegre nos anos 40.
Curadores
Acho que estamos assistindo hoje, não só no Brasil, mas pelo mundo todo, a muita gente orientada pelos chamados ‘curadores’. Segundo meu amigo lberê, eles acham que são os donos da verdade e são figuras que passam e causam um estrago. Nunca tivemos um instante tão rico, no Brasil, como agora. Encontramos em todos os Estados gente com indiscutível talento. O problema é a excessiva importância dada a essa família, antes conhecida como críticos de arte, e agora conhecida como curadores. Devemos ter cautela suficiente para não permitir que eles nos digam o que fazer. O meu alerta é que o artista faça o seu trabalho, sem estar condicionado ao que está na ordem do dia.
Depoimentos concedidos ao MARGS em outubro de 1994 e novembro de 1995
MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
Praça da Alfândega, s/n° - Centro
90010-150 - Porto Alegre - RS - Brasil
Fone (51) 3227-2311 - Fax (51) 3221-2646
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