Analítica - Persona
Criação e esperança
Convivi com Mário Pedrosa em Santiago do Chile, quando eu trabalhava nas Nações Unidas (CEP AL), em pleno governo Allende e ele chegava para mais um exílio (o terceiro ou o quarto, desde os anos 30). Vivia perto de minha casa, era só dobrar a esquina. Na sua cadeira de balanço preparava “teses” sobre as grande transformações civilizatórias; na mesa ao lado, sua mulher, Mary Houston, datilografava velozmente um livro em que ela, perfeitamente bilingüe, dava chaves de leitura e decodificava para o inglês o texto críptico de Joyce, Finnegans Wake. Ali reencontrei Darci Ribeiro, conheci a cineasta Tetê Morais e Túlio, exilado com Mario, que seria um dos desaparecidos nos dias seguintes ao golpe de Pinochet.
Conversas intermináveis sobre sua experiência de jovem militante na Alemanha de 1930, onde lutara nas ruas contra os nazistas; sua reação rápida frente ao estalinismo e sua aproximação com Trotsky. Depois de uma divergência com este, sobre o caráter socialista de regime soviético, que Mário negava, pretendia ir explicar- se com o “velho”, quando ele foi assassinado no México. Falou-me de seu exílio durante o Estado Novo, nos Estados Unidos, quando desenvolveu sua carreira de crítico de arte. Sempre atento ao local e ao universal, promovera a pintura comprometida de Portinari, para depois – com escândalo de amigos ortodoxos – abrir-se à arte abstrata e, mais tarde, até o trabalho de sua amiga Lygia Clark. Temperamento inquieto, absorvendo o novo que surgia, sensível às perspectivas planetárias da arte, das práticas sociais e do pensamento.
Dali de Santiago escreveu bela carta a Picasso, sugerindo que tirasse sua obra Guernica de Nova lorque e a enviasse ao Chile, país que era sinal de novos tempos. Ainda bem que Picasso não o atendeu... Logo depois, com Giulio C. Argan, crítico de arte, que fora prefeito de Roma, com Tierno Galvan, prefeito de Madri e também crítico, com o escultor Alexander Calder e outros, presidiu um Comitê Internacional que criou o Museu da Solidariedade no Chile. Mais de seiscentos artistas doaram telas, a começar por aquela de Miró, “os galos que cantam ao amanhecer” e que foi capa da apresentação do Museu.
Na noite da inauguração, em seu discurso, infelizmente perdido, entregando o Museu ao povo chileno, Mário lembrou que toda arte era um esforço para encarnar-se na vida e toda história uma busca para transcender-se, uma descendendo e outra ascendendo. E um dia, indicou, no futuro – tempos do “reinos da liberdade” de um de seus mestres? – toda arte seria história e toda história seria arte.
Salvador Allende, em seu improviso de resposta, retomou a idéia. A exposição temporária na Quinta Normal foi transferida para o edifício que se chamaria depois Diego Portales, construído para um grande encontro político internacional.
Veio o golpe e Mário ficou umas semanas, oculto, em minha casa. Ali escondi quadros de sua coleção particular que, depois de várias peripécias, minha mulher e eu conseguimos entregar-lhe no México. O embaixador desse país, seu amigo, que já recebera Hortência Allende, quis acolhê-lo como asilado. Depois de uma tentativa frustrada para entrar na embaixada – em que terminei indo com o embaixador e Mário ao enterro de Pablo Neruda – conseguimos, dias mais tarde, que transpusesse o portão, num momento de desatenção dos policiais. Temeu-se pelo acervo do Museu, que esteve desaparecido por muito anos. Foi redescoberto há pouco tempo, não sei em que condições.
Mário não esmoreceu. Vivendo depois na França, numa ida a Cuba, lançou a idéia do Museu da Resistência Salvador Allende, com sede em Paris e em Havana. A proposta era que os artistas enviassem obras para serem leiloadas e servissem para financiar a resistência.
Com a abertura política, Mário voltou ao seu apartamento de Ipanema, onde o reencontrei, já com sinais de sua enfermidade final. Retomou seus artigos e, em 1979, instigou o líder sindical que surgia, Luís Inácio da Silva, Lula, a criar um partido a partir das práticas do ABC paulista. Em razão disso, Mário seria o segundo, depois de Lula, a assinar a ata de fundação do PT. Foi então, em 1980, a festa de seus oitenta anos (nascera com o século), numa galeria de arte, rodeado de tantos amigos. Morreria logo depois, vencido pelo câncer. Um busto na Praça Nossa Senhora da Paz o mantém presente em seu bairro. Graças aos cuidados da professora de estética da USP, Otília Fiori Arantes – filha do filósofo gaúcho Ernani Maria Fiori, contemporâneo de Mário no Chile –, um bom número de seus textos foi publicado, pela Edusp, em quatro volumes.
Antes de morrer, propusera a organização de galerias temporárias, que recebessem obras de arte indígena, negra, popular e de vanguarda, para assinalar a criatividade permanente do país. O Espaço Mário Pedrosa, no Museu Nacional de Belas Artes do Rio,recolheu sua sugestão.
Recordo Mário sempre alegre, moleque mesmo, otimista irremediável, rodeado por jovens. Mesmo nos dias imediatos ao golpe, manteve a esperança. Guardo a imagem dele, na cabeceira de nossa mesa chilena, com um grupo de amigos que se protegiam do toque de queda, animado com alguma história divertida. Porém uma noite, num certo momento, ao falar do amigo Salvador Allende, sua voz de belo timbre quebrou-se num soluço. Todos tínhamos diante de nós a imagem do Palácio de La Moneda em chamas.
“Más temprano que tarde volverá el pueblo a las grandes alamedas... La historia es nuestra, la hacen los pueblos”, falara Allende pelo rádio pouco antes de morrer: mantemos até hoje a memória dessa despedida, que ouvimos com o coração apertado. Mário acreditou sempre num futuro aberto depois das derrotas, e lembrei dele ao voltar ao Chile já liberado e entrar no La Moneda restaurado.
Seu exemplo e ensinamento são indispensáveis em nossos dias, quando dirigentes políticos sem compromisso com a nação tentam sucateá-la e quando a miopia de tantos não vê o grande processo em curso na sociedade e nas artes. Espírito universal e ousado, ao mesmo tempo enraizado em seu Brasil e em sua história, Mário nos ajuda a apostar num horizonte utópico mais à frente e no dinamismo de um povo que sabe criar, festejar, celebrar, amar e transformar.
Biografia do artista
Mário Pedrosa (1900-1981)
Professor e historiador da arte, foi um dos nomes decisivos da crítica de arte brasileira, articulando, ao longo de uma vida dinâmica, o engajamento político revolucionários com a atuação e reflexão artística. O texto As tendências sociais da arte de Kathe Kollwitz (1933) rompeu com a tradição nacional da crítica impressionista e convencional. Com o trabalho Da natureza afetiva da forma na obra de arte (1949), foi o mais importante defensor da arte abstrata no Brasil. Personalidade internacional,
num de seus exílios, organizou o Museu de Arte Moderna, depois Museu da Solidariedade no Chile de Allende. Artistas do mundo inteiro, como Picasso, Calder, Miró e Léger, atenderam o apelo do amigo enviando obras. Os únicos artistas brasileiros que conseguiram furar o bloqueio do governo militar à iniciativa de Pedrosa, foram Frans Kracjberg, Lygia Clark e Sérgio Camargo, que remeteram suas obras de Paris.
Luiz Alberto Gómez de Souza, Diretor Executivo do Centro de Estatística Religiosa e Investigação Sociais (CERIS) no Rio de Janeiro
Jornal do MARGS,
nº 69, junho de 2001
MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
Praça da Alfândega, s/n° - Centro
90010-150 - Porto Alegre - RS - Brasil
Fone (51) 3227-2311 - Fax (51) 3221-2646
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