Selecta do Museu

Analítica - Persona

Lunara

 

Fotógrafo do passatempo

 

Lunara, pseudônimo de Luiz Nascimento Ramos (1864-1937), deixou para a contemplação do futuro a pequena Porto Alegre do início do século XX. Comerciante bem-sucedido, dono de um Secos e Molhados, saía pelos arredores para fotografar a rua, as pessoas comuns, os namorados, os ex-escravos, os aguateiros, os imigrantes alemães do Vale dos Sinos e, claro, gaúchos a cavalo. Congelou, em preto e branco, a Capital de 70 mil habitantes que seguia, passo a passo, o receituário positivista da modernização ainda com a delicadeza das grades rendilhadas nas fachadas. Como bem disse o cronista da Gazeta do Comércio, em 1903, Lunara é um “incorrigível amador da fotografia, que trata simultaneamente de açúcar e de tudo que passa... pela Praça”. Seu olho jornalístico não deixou passar a tradicional exposição festiva de abertura do século (1901), junto à Escola de Engenharia, revelando em panorâmicas os primórdios do nosso Parque de Redenção, um campo sem maiores atrativos onde os carreteiros comercializavam mercadorias do interior.

 

Em meados dos anos 70, a fotógrafa Eneida Serrano, enquanto concluía seu curso de jornalismo, pesquisando as origens da fotografia gaúcha, iniciava, com as imagens de Lunara, um diálogo que duraria pelo menos 20 anos. Através de pesquisas no Museu de Comunicação Social, em jornais da época e em revistas como a Ilustração Brazileira e a Máscara, foi recuperando o percurso do colega oitocentista que ganhou prêmio internacional e publicou na Revue de Photographie, em 1922, uma cena lúdica de uma paisagem portoalegrense que permanece hoje apenas na curiosidade do nome, a Cascatinha. Assim, na surpresa, surgem outras perspectivas do bairro Navegantes, da prainha da Tristeza, da cidade do arranha-céu Malakof, as lavadeiras do rio, flashes de cantigas de roda e de um porto com jeito de aldeia.

 

Após descobrir a identidade escondida atrás do charmoso pseudônimo, Eneida chegou à descendência de Lunara. Encontrou Áureo, o primogênito de Luiz do Nascimento Ramos, que preservara no afeto e nos baús de casa o pouco que restou do fotógrafo de Porto Alegre. As imagens e as chapas em diálogo com pequenos textos de época resultaram, diz a autora, num livro de fotos ilustrado com textos. São fragmentos de crônicas, verdadeiros exercícios descritivos sobre as fotos “de gênero”, revelando hábitos prosaicos como os passeios a vapor pelo Guaíba, passatempos saudáveis de domingo.

 

“Entre os exercícios ao ar livre, o da fotografia de amador é talvez um dos que mais beneficamente influi para o desenvolvimento da saúde. As excursões fotográficas, tais como as que fazem aqui, são de grande utilidade para o físico como para o moral (. . .)”

 

“E são as cenas as mais variadas. Desperta-se a curiosidade dos amadores para tudo ver e notar. E notam, não em carteiras, mas em placas fotográficas, as mais lindas imagens das costas. Aqui é o rancho que se escora e que está prestes a cair; ali, um grupo de crianças alegres, correndo e saltando; mais além, uma casinha, cuja família, espalhada pelas portas e janelas, vê o que se passa fora, no rio.”

 

Contemporâneo do famoso retratista Virgilio Calegari, de quem foi um dos testamenteiros, Lunara fez parte do primeiro fotoclube da cidade. Ao contrário do retratista, investia nas imagens externas, num percurso semelhante aos impressionistas que romperam com os ateliês em busca da luz. A fotografia já existia há mais de 50 anos e passava a ser algo mais popular, almejando também uma condição artística, além do mero registro documental. O fotógrafo era um grande amigo do pintor Pedro Weingärtner, uma das referências fundantes da arte no sul. Eneida Serrano chama a atenção para a proximidade de enfoques dos dois companheiros, a composição acadêmica detalhada, o olhar atento ao cotidiano e aos costumes dos habitantes, sobretudo dos imigrantes que chegavam para construir uma história.

 

Cida Golin, jornalista
Jornal do MARGS,
nº 78, abril de 2002

 

Analítica: Persona

MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
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