Entre-falas: Sistema
O apartamento, com a vista charmosa para os jardins da Caixa d’Água, abriga uma senhora e sua grande coleção. Poucos móveis, apenas os necessários, e obras, muitas obras, uma síntese dos últimos 40 anos de artes visuais no Brasil. Um expressivo recorte desse universo, construído pelo desejo de um colecionador, será dividido com o grande público em abril. A exposição Coleção Liba e Rubem Knijnik - Arte Brasileira anos 60-90: Confrontos e Diálogos, com a curadoria da pesquisadora de arte contemporânea Ana Carvalho, vai mostrar a coleção sob o viés do impasse, da ruptura e do experimentalismo. Entre as peças fundamentais, encontra-se, ao centro, o Bicho (1960) de Lygia Clark. Na mesma temporada, o objeto foi solicitado para uma mostra no Guggenheim nova-iorquino, mas Liba preferiu exibi-lo no MARGS.
Numa manhã quente de fevereiro, essa senhora dinâmica e de porte frágil recebeu Ana Carvalho, Cida Golin, Flávio Gil e Walter Fagundes para contar histórias de sua coleção. Ela surgiu do interesse e da busca constante do casal Knijnik pelas coisas do espírito, pela boa música, pela literatura, pela arte. Ao falar do conjunto de obras, nascido ao acaso, sem um norte inicial, e depois com uma opção convicta num segmento pouco explorado, Liba foi, aos poucos, refletindo um cotidiano intenso. Um dia-a-dia de quem viajou muito – e continua viajando –, de quem é apaixonada pelo ensino, pelo cinema, pela família e pelo marido, que a deixou tão precocemente. Seus netos têm o privilégio de ter uma avó como companhia nas Bienais de arte e nas visitas aos museus internacionais. Dona Liba construiu uma pequena história da arte e quer dividir com mais pessoas seu sonho, desde menina imigrante, de guardar cultura no olhar.
Quais são as primeiras histórias da coleção?
Liba Knijnik – O responsável pelo começo da coleção é o Rubem. Ele era uma pessoa muito especial, aberto, entusiasmado pela vida e, principalmente, aberto para o que estava acontecendo. Além da medicina, ele cultivava, por exemplo, a música. Aprendeu arte, como aprendeu também música. Ele tinha uma qualidade: era humilde para aprender, respeitava muito quem cria, quem vai avante.
A primeira peça...
Estávamos no Rio de Janeiro e fomos comprar uma peça para casa. Encontramos o Erico Verissimo que, com aquele jeito todo especial, disse: “olha, eu conheço uma moça que comprou do Glênio Bianchetti um gato preto e, desde aí, a sorte não lhe corre bem. Então, ela quer se desfazer desse gato”. E o Rubem confiou na indicação. Quando compramos, não havia um projeto de coleção. Quando a minha neta mais velha fez 15 anos, eu dei esse quadro para ela. É o marco do início.
Vocês eram amigos do Erico?
Fui professora dos filhos dele. Alfabetizei a Clarissa e o Luis Fernando. Quem é que não conhecia o Erico, não é? Bom, continuando, Rubem teve sorte de ter conhecido o Thomas Cohn, através do Avatar Moraes. Naquela ocasião, também se tornou amigo do Xico...
Xico Stockinger?
Xico Stockinger, e foi amigo até o fim. Quem fez o túmulo dele foi o Xico. Desenhou. Foi tão de repente, eu fiquei tão atordoada, que o Xico não só desenhou e fez as esculturas, como mandou fazer todo o resto. É um amigão. Rubem era desapegado, porque quem quer ganhar dinheiro não faz coleção de arte. É invendável. Naquela ocasião, a seleção não era seleção. Os artistas o procuravam, estavam mal de dinheiro. Até que, por influência do Thomas Cohn, fomos estudando e aprendendo. Chegou o momento em que fizemos uma opção pela arte brasileira contemporânea e, então, Rubem morreu. Durante dois anos eu não fiz nada.
Foi algo repentino?
Repentino. Ele trabalhou até as nove da noite e às duas horas da madrugada morreu. Eu não fiz nada, não queria me forçar, mas o tempo ajuda. A gente sobrevive, não morre junto.
Vocês ficaram quantos anos casados?
Trinta e três anos casados e seis anos de namoro, é uma vida. Nós nos desenvolvemos juntos, crescemos juntos. Isso é o casal. Durante as viagens, compramos gravuras (de Chagall, Léger, Braque, Marx Ernst,Picasso) que depois precisei vender para continuar a comprar brasileiros contemporâneos.
A opção pela arte contemporânea se dá num período em que isso não é muito comum.
Não, não é. Meu primeiro contato com arte abstrata foi em 1959. Nós não fomos à primeira Bienal de São Paulo, mas depois fomos a quase todas. Nos últimos tempos, convido toda a família. Tenho quatro netos e os quatro vão à bienal para abrirem os olhos. Porque é o mundo que vêem lá, não é? Em 59, Rubem ficou três meses em Nova York, foi a minha primeira viagem ao estrangeiro. Enquanto ele trabalhava no hospital, eu ia todos os dias ao museu. E pensava, “meu Deus, umas manchas, o que é isso?” Cheguei perto de duas senhoras na frente e perguntei o que tinha de especial naqueles quadros, elas falavam na cor, na nuance, explicações difíceis de dar porque você tem que aprender a olhar. A influência de Thomas Cohn foi decisiva, ele é uma pessoa internacional, viaja por todo o mundo, foi o mentor e, até hoje, a opinião dele me é muito valiosa. A pessoa que tem o mundo nos olhos é especial.
Dona Liba, essa atração do casal pela arte, pela música, isso se deve, também, à formação familiar de vocês?
O Rubem teve uma formação familiar bem diferente da minha, porque eu sou imigrante. Sou da Polônia e cheguei com nove anos ao Brasil.
Qual a cidade da Polônia?
Uma cidade pequena, perto de Lemberg, que hoje pertence à Ucrânia. A Polônia tem histórias de junção e de separação. Imigrante é uma situação toda especial, porque ninguém que está bem imigra para outro país. Imigrar é muito sofrimento. Eu esqueci o polonês. Os judeus que tinham que imigrar davam valor à cultura. Essa é a herança que se leva para qualquer lugar. É o que ninguém pode tirar.
Voltando à coleção. Conte uma história de alguma peça. A famosa obra da Lygia Clark, por exemplo...
Foi o Rubem quem comprou. Para tu comprares é tanta coisa que está em oferecimento que tu tens que ter aquele feeling. Por exemplo, o Ivens Machado. Estive na galeria do Thomas, gostei da peça, mas não deu para comprar. Me esqueci. Três anos depois voltei, e a peça estava esperando por mim. Quer dizer, as coisas acontecem. Tem uns que compro e penso, “poxa, não entendo esse sujeito. Vou aprender”.
Alguma de sua preferência?
Eu não sei responder. A preferência muda. Eu tenho uma relação de afeto com as peças, com os artistas que, às vezes, nem conheço. E eu mudo também. Cada obra me deu prazer num tempo determinado. E o novo é sempre mais instigante, não é?
A senhora também é apaixonada por cinema, não?
O cinema é a outra paixão. Não tenho ido tanto porque ando amolada, mas gostaria de ir ao cinema todos os dias. Gosto da sala escura. Aí eu estou em outro mundo, me faz bem. O cinema me alimenta. A literatura alimenta, mas leva mais tempo.
A senhora trabalhou como professora...
Eu estou aposentada, dava aulas para formar professores de escola primária. Trabalhei com muito entusiasmo, com paixão. Fiz a faculdade, mestrado e me aposentei no Instituto de Educação. Depois que me aposentei, e ainda antes, preparei os quatro netos em língua portuguesa, história e geografia para o vestibular. A minha neta mais moça terminou o vestibular agora e passou em Medicina. Voltando ao meu mestrado, a minha tese é sobrecriatividade no ensino. Tentei demonstrar a diferença de sensibilidade e criatividade das alunas no início e no fim do curso normal. Quando saíam, as alunas estavam com aquele planejamento rígido, não viam que todas as crianças, potencialmente, são criativas.
Como é morar quase numa galeria, num museu de arte, acordar e ver as peças?
De vez em quando eu descubro coisas novas. É ótimo, sabe? Sou sozinha. A gente convive com as peças e com o tempo tu passas a não ver mais, aí num determinado dia... tu descobres detalhes novos. A gente também amadurece, cresce.
De uma certa forma, colecionar é contar, sob o próprio viés, a história da arte.
É preciso também estudar. Eu assino a revista Art in America, e estudo inglês também para poder compreender melhor a arte na América. Também estudo alemão, porque acho a Alemanha uma grande escola.
Uma de suas preferências seria a Leda Catunda...
Tenho admiração por ela. Eu a acho criativa e corajosa, até instintiva, sabe? Porque ela pega uns paninhos, junta, pega umas cortinas... Vocês já viram essa dela? São cortinas e, de longe, todos dizem que é uma cachoeira.
Dona Liba, fale um pouco mais do convívio de Rubem com Avatar Moraes. Avatar é um artista interessante dos anos 60. Sua primeira exposição de objetos aconteceu no MARGS em 1965.
O Rubem tinha consultório no edifício onde o Avatar tinha um ateliê, na General Vitorino. O convívio deles começa aí. Na época, a enfermeira do Rubem, uma alemã, ficava louca com a agenda de horários, brigavam muito. Rubem atendia os artistas preferencialmente e ficava muito tempo conversando. Logo, atrasava os outros horários...
E o futuro da coleção, dona Liba?
Não sei responder. Eu não sei. O que eu faço, quase naturalmente, é preparar a minha gente para entender o que está acontecendo. Não é a coleção mais fantástica do mundo, mas é a que se conseguiu e, aqui no sul, talvez isso seja um caso único.
Algumas coleções são mais centradas em artistas. Outras privilegiam determinados artistas contemporâneos. Nessa, você pode quase traçar uma história da arte que é, mais ou menos, o que vamos ver nessa exposição, dos anos 60 aos 90. É a segunda vez que ela vem a público?
É a quarta. A primeira vez foi no MARGS, 1966; a segunda foi no Espaço NO, em 1981; a terceira, no MARGS, em 1986.
E o mercado, como a senhora lida com essa circunstância?
Eu sou absolutamente desligada do mercado. Quem quer ganhar dinheiro não faz coleção, nem vai estudar arte, não é verdade? Eu admito que o que eu tenho, com exceção de pouca coisa, é invendável. Eu não me submeto, não tem porque, não é uma coleção tão grande que eu precise que o mercado tenha ingerência.
Como a senhora vê a possibilidade de tornar pública sua coleção?
Quero oportunizar a outras pessoas usufruírem disso. Acredito na possibilidade de socializar esse patrimônio. Não posso fazer uma exposição na minha casa. É também uma forma de homenagear o governo estadual pelo qual lutei.
A senhora é militante?
Tenho muito orgulho em dizer que toda a minha família é do PT. No Fórum (Fórum Social Mundial) tive uma satisfação de ver meus quatro netos participando, batendo palmas. Tem tanto jovem alienado e esse fórum foi um acontecimento ímpar.
Jornal do MARGS, nº 66, março de 2001
MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
Praça da Alfândega, s/n° - Centro
90010-150 - Porto Alegre - RS - Brasil
Fone (51) 3227-2311 - Fax (51) 3221-2646
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