Analítica - Persona
Uma arte que fala por si mesma
Gotuzzo dedicou sua vida à pintura. Vocação definida e cedo revelada nos desenhos escolares; depois, no curso mantido por Frederico Trebb, pintor e cônsul italiano. Cedo, também, conheceu os limites de sua terra de nascimento – Pelotas – para chegar aonde desejava.
Ajudava, por essa época, o pai, dono do Hotel Aliança, e sonhava estudar pintura em Paris. O pai, Caetano Gotuzzo, pôde realizar o sonho do filho em 1909 e, como bom italiano, enviou-o para Roma. Lá, durante quase cinco anos, estudou com Joseph Noel, ótimoprofessor... francês.
Ao romper a Primeira Guerra Mundial, em 1914, morreu Noel, e Gotuzzo decidiu que era tempo de andar sozinho. Daí por diante, o estudo dos gênios da artenos museus da Itália, da França e da Espanha, a observação da natureza e o trabalho intenso na pintura e no desenho completariam sua formação artística.
Treinou sempre nos desenhos rápidos da figura humana em ateliês na França e, mais tarde, no Rio de Janeiro, “para manter-se em forma”, dizia sorrindo, bem-humorado que sempre foi.
Em 1918, depois de nove anos na Europa, Gotuzzo resolveu voltar ao Brasil. Já havia comparecido aos Salões Nacionais, levantando prêmios: 1915 – Menção Honrosa; 1916 - Medalha de Bronze; 1917 – Medalha de Prata.
No Brasil, continuou pintando e recebendo prêmios. As distinções, as medalhas de prata e ouro acumularam-se. Fez exposições, divulgando seu trabalho junto ao público, que compareceu e adquiriu quadros. E sempre contou muito com o apoio da imprensa. Expôs em Pelotas, Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande e Bagé. Em 1927, voltou à Europa e lá permaneceu até 1930, pintando e apresentando suas obras em Portugal e na França.
Gotuzzo sempre lembrou-se de Pelotas. Em 1955, resolveu doar uma coleção de quadros para a Escola de Belas Artes a fim de viabilizar um futuro Museu das Artes Gotuzzo. Logo, fez mais algumas doações. Em 1983, em virtude da morte do pintor, houve um grande aporte de obras, tendo sido finalmente fundado o museu em 1986. Nesse ano, a idéia recebida com alegria nos idos 1955, divulgada, lavrada em atas, constante de relatórios e pareceres, tornou-se realidade: o museu abriu-se ao público.
O estilo de Gotuzzo liga-se ao pós-expressionismo. Sua arte mostra o conhecimento técnico orientado pela simplicidade. Não usou a deformação expressiva ou geométrica porque assim não quis ou não sentiu...
Passados tantos anos, num tempo de mudanças vertiginosas, a crítica, por vezes, mostra-se incapaz de olhar uma produção artística, analisando seus valores verdadeiros, desvinculados de modas ou imposições, valores que são eternos e não se limitam a pequenos espaços de tempo, nem podem ser vistos através de ângulos estreitos.
Sérgio Miliet escreve em Pintura quase sempre: “Não existe definição de arte. A arte não é boa por ser moderna ou antiga, ou clássica, ou abstracionista. A arte é boa quando é ”.
Não se pretende explicar a arte de Leopoldo Gotuzzo, ela fala por si mesma, num discurso contínuo e seguro durante mais de sessenta anos. Convidamos os apreciadores da pintura a percorrerem a mostra que ora se inicia no MARGS e terem o privilégio de observar uma pequena mas expressiva parcela da obra desse artista. Olhem e anotem: o desenho firme, o colorido e sua variedade, o detalhe pouco elaborado e sujeito ao todo, as pinceladas soltas, espontâneas, os temas tratados com facilidade, facilidade esta resultante de muitos anos de estudo e de treino, orientados pela vocação e sensibilidade, e assim descubram Gotuzzo e seu mundo.
Luciana Renck Reis
Professora Universidade Federal de Pelotas Fundadora do Museu
Leopoldo Gotuzzo
Jornal do MARGS,
nº 69, junho de 2001
MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
Praça da Alfândega, s/n° - Centro
90010-150 - Porto Alegre - RS - Brasil
Fone (51) 3227-2311 - Fax (51) 3221-2646
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