Analítica - Persona
O caminho tragiplástico de um pintor eurobrasileiro
“Talvez seja tarde demais para falarmos ainda dela. Desde que ela se foi decorreram quinze dias, e sei muito bem que neste país uma quinzena transforma uma morte recente numa velha história”, — diz Alfred de Musset nas célebres estâncias que devotou à memória da soprano Malibran. As vozes dos cantores defuntos perdem-se no espaço e no tempo, mesmo agora que as gravações nos deixam um pálido reflexo. Sob este aspecto, os pintores são mais afortunados, uma vez que sua obra continuará testemunhando a sua grandeza, quando já não houver nenhum contemporâneo a recordar-se deles.
Faz exatamente um ano que o Brasil perdeu um dos maiores artistas radicados em seu solo. Em 2 de agosto de 1957 faleceu Lasar Segall. Sou de opinião que o primeiro aniversário da sua morte oferece uma boa oportunidadepara percorrermos o caminho da sua vida e apreciarmos seus quadros no seu duplo significado de obra de arte e documentos humanos.
Lasar Segall nasceu em 1891, no bairro judeu da cidade polonesa de Vilna. Os guetos da Polônia, ora exterminados pela sanha hitlerista, produziam em grande escala gênios artísticos e musicais. Nesse meio, também se criaram os pintores Marc Chagall, nascido em Witebsk, e Chaim Soutine, que cursou a mesma escola de arte do mestre Antokolski, onde Lasar Segall se enfronhou nos princípios do desenho. Comprimida entre os muros das judiarias, quase que ininterruptamente perseguida pelos vizinhos eslavos, passava ali a estirpe de Abrão uma vida penosa, na qual preocupação com problemas religiosos e a busca do mundo melhor da poesia ou das artes representava o único alívio. Não havia nesse ambiente nem opulência nem beleza exterior. Faltavam paisagens. A estreiteza das vielas concentrava naturalmente o olhar naquilo que nelas existia em abundância, criaturas humanas com suas misérias e seus sonhos.
Lasar Segall abandonou fisicamente o gueto de Vilna, quando tinha apenas dezesseis anos. Mas este lhe impregnou a alma e influiu de forma decisiva sobre a sua arte. Ainda que o pintor passasse mais da metade da sua vida sob o sol meridional, ainda que diariamente se embebesse nas cores exuberantes da vastidão brasileira, sua paleta sempre se conservou pobre, austera, com o predomínio das tonalidades de marrom, verde-oliva e cinza. Não encontramos nas telas de Segall nenhum colorido vivo, alegre, luminoso. Pode-se até mesmo afirmar que a natureza em geral pouco interesse lhe despertou. O que o fascinava era a criatura, o homem e, às vezes, também o gado. O próprio Segall escreveu certa vez estas linhas reveladoras: “Não é de estranhar que eu não sentisse necessidade de pintar paisagens ou outro qualquer tema que não fosse o ser humano, porque a esse sentia como pivô central e todo-poderoso da arte, da minha arte”.
Essa última restrição parece-me característica da atitude reservada que Segall costumava assumir em face de teorias e chavões artísticos. Conseqüentemente prossegue:
“Não considerava o homem apenas composição de formas, mas procurava também nele tal busca que o conduzisse na direção do Expressionismo. Dentro desse movimento, porém, esforçava-se por conferir a seus quadros um sentido mais profundo”. “Se eu tivesse de dar uma denominação a essa fase de minha obra — disse certa feita a seu amigo P. M. Bardi – eu a apelidaria de Expressionismo Construtivo. Aliás, esse termo poderia talvez ser aplicado a toda a minha produção daqueles anos, já que meu Expressionismo teve sempre uma estruturação mais firme e definida do que a dos meus colegas, os quais tendiam mais para a dissolução das formas.” Tenho para mim que, em última análise, essa maior firmeza provém do conteúdo da obra de Segall, do cunho de compadecimento com a criatura sofredora que ele imprimia a todas as suas telas, do calor humano irradiado por elas, e que, para o pintor como também para o seu público, tem importância mais profunda do que a preocupação com o problema pictórico.
Antes de destilar da sua arte as lições acima reproduzidas, Lasar Segall teve que percorrer longo caminho. Quando nada mais podia aprender na escolinha de Vilna e o acanhamento do gueto ameaçava sufocar-lhe a alma, adolescente, foi sozinho a Berlim, onde, graças a seu evidente talento, conseguiu uma bolsa, que lhe permitia inscrever-se na Academia Real. Poucos anos depois, porém, o pintor em formação libertou-se da camisa de força acadêmica, para aderir aos grupos vanguardistas, que, nos últimos anos do Império, brotavam em toda a parte do solo da Alemanha. Os jovens artistas do Reich já não estacionavam no marco do Impressionismo dos Liebermann e Slevogt. Indo mais longe, procuravam expressar com os recursos da pintura os acontecimentos do nosso íntimo, avançar até ao mistério super-real ou abandonar o mundo concreto em prol da abstração. Lasar Segall, sem tornar-se escravo de nenhuma dessas tendências, esteve em constante contato com os pintores da “Ponte”, os Heckel, Kirchner e Schmidt-Rottluff, e mais tarde com os da “Tempestade”, chefiados por Herwarth Walden. Também travou amizade com Wassily Kandinsky, o primeiro apóstolo da pintura abstrata, cujos preceitos, porém, jamais adotou. Mudando-se para Dresden, travou relações de sólida amizade com artistas da envergadura de Otto Diz e George Grosz. A violenta crítica social que se manifesta na obra deste último talvez tenha exercido alguma influência sobre a mentalidade do jovem.
Em fins de 1912, Lasar Segall deu um passo que dez anos após se tornaria muito mais importante do que lhe parecia no momento. Durante uma estada casual em Hamburgo, resolveu embarcar no vapor “Santos”, a fim de conhecer o Brasil. A viagem de quatro semanas, num navio em cujo bojo “se iam amontoando como mercadorias parcelas da humanidade” (Bardi), deixou profunda impressão na sua alma. No Brasil, Segall encontrou um ambiente aberto a idéias modernas, que lhe agradou imediatamente. A primitividade de um país de futuro, o espírito afável, imaginativo, sensual, da gente que o habitava, a acolhida generosa que os imigrantes encontravam em seu seio — tudo isso fascinava o artista. Lasar Segall expôs em São Paulo e Campinas. Ainda que, naqueles dias, o Expressionismo fosse coisa inédita na nossa terra, venderam-se algumas telas. Em fins de 1913, o pintor regressou à Europa, levando consigo um punhado de recordações que mais tarde não somente se condensariam em quadros como também dariam novo rumo à sua vida.
Durante a primeira guerra mundial, Lasar Segall, cidadão russo, passou algum tempo num campo de prisioneiros civis. Recebeu então licença para rever o seu país de origem, sob ocupação alemã, e para visitar os pais. Do reencontro com a cidade natal, mais mísera do que nunca, e com seus habitantes famintos, abatidos, nasceu o primeiro dos grandes ciclos de Segall: as gravuras intituladas Recordações de Vilna, expressivos documentos da compaixão que o invadia, o grito de uma consciência no deserto de uma época inconsciente.
Nos primeiros anos de após-guerra, Lasar Segall conseguiu firmar-se no ambiente artístico do Reich. Suas telas apareciam em lugar de destaque nos salões artísticos de Berlim, Dresden e Dusseldorf. O Museu Folkwang, de Hagen, na Vestfália, famoso núcleo da arte expressionista, convidou-o em 1920 para uma exposição exclusiva de seus quadros e gravuras. Foi precisamente nessa fase de triunfos que Segall, lembrado das dificuldades que tivera de vencer, ajudou a grande Käthe Kollwitz a fundar uma instituição humanitária,destinada a auxiliar artistas pobres.
Com a repercussão que teve a mostra de Hagen, o futuro de Segall parecia garantido. Mesmo assim, o pintor não se sentia feliz. Acossava-o o desejo de libertar-se da agitação reinante na Alemanha e de buscar sossego, solidão e concentração interior. Foi essa necessidade que originou a decisão de tentar uma vida nova num mundo novo. Em 1923, Lasar Segall imigrou para o Brasil, onde fixou residência definitiva. Instalou-se em São Paulo. Casou-se com a talentosa Jenny Klabin, sua exaluna de 1913, constituiu sua família, naturalizou-se cidadão brasileiro. A parte mais valiosa da sua obra foi criada na sua segunda pátria.
Aos poucos vingavam as experiências colhidas nos anos de formação. O que o cérebro do artista armazenara durante as andanças pela Europa e pelo Brasil, no vapor “Santos”, nos becos do Rio de Janeiro, nas fazendas paulistas, no campo de prisioneiros, nos guetos polacos – tudo isso ressuscitava com vida milagrosa nas suas telas. Assim surgiam, baseados em reminiscências e visões, aqueles quadros comoventes que imortalizaram o nome de Segall: o Navio de emigrantes, o ciclo das meretrizes do Mangue, a Guerra, o Campo de concentração. Por mais diferentes que sejam entre si, sentimos em todos eles a mesma sinceridade inexorável, o mesmo calor humano, a mesma compaixão com a criatura aviltada, oprimida, despojada dos seus direitos básicos. Lasar Segall nunca faz arte pela arte. Não se esforça por deleitar o grande público. Suas obras são amargas como o mundo que o cerca e que nenhuma glamourização falsa seria capaz de açucarar. Sem demagogia barata, o pintor apresenta os fatos, e estes falam por si. Clamam! Não sei o que é mais pungente, a vida dessa humanidade massificada, sem feições individuais, ou a sua morte. O desamparo da primeira geme nos Sobreviventes ou no Êxodo. O silêncio da segunda paira sobre os cadáveres
do Pogrom. Quem olhar tais telas jamais as esquecerá. Seu protesto mudo, sua força de pesadelo nos atraem e espantam ao mesmo tempo. Diante da obra de Lasar Segall, compreendemos as palavras de Gilberto Freyre: “Ele nos acompanha sempre. Ele, propriamente, não: seus judeus, seus negros, seus bois, suas multidões de sofredores”.
Herbert Caro, crítico de arte
Boletim Informativo do MARGS,
nº 29, jul/set, 1986
MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
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