Entre-falas: Artistas
Crônicas com aquarela
José Lutzenberger foi um arguto observador de sua época. Alemão, radicou-se emPorto Alegre nos anos 30 e dedicou seu talento de engenheiro-arquiteto para a cidade e para a Escola de Belas Artes. Quieto e observador, era fascinado pela vivacidade cotidiana. Depois de observar em silêncio, chegava logo na casa da Jacinto Gomes e suspendia, com precisão e minúcia, o tempo fugaz.
O MARGS homenageia o artista, que só teve individuais após a morte, em 1951, com uma grande apresentação de sua obra, reunindo aquarelas, desenhos, esboços, diários, revelando a alma e o bom-humor de um cronista. Nessa conversa, suas filhas, Magdalena e Rose Lutzenberger, recuperam para o Jornal do MARGS um pouco das vivências do pai, artista e professor, com a presença do curador e pesquisador Paulo Gomes.
Jornal do MARGS – Há um diário, que será exibido, onde o pai de vocês registrou a infância dos filhos através da fala e dos desenhos. Quais são as lembranças que vocês guardam disso?
Rose Lutzenberger – Ele registrava as coisas que achava interessante, brincadeiras ou bobagens que a gente fazia. Coisas do dia-a-dia que aconteciam, às vezes ele até exagerava um pouco.
Magdalena Lutzenberger – Ele sempre dava um tom mais humorístico. Seu desenho tinha uma característica mais exagerada.
Paulo Gomes – É uma veia satírica, um humor aliado a uma profunda capacidade de observação. Tanto nas imagens de Porto Alegre como nas do campo, sempre há esse caráter meio satírico. No caderno, isso aparece de uma maneira muito forte, aliado a um lado afetivo, considerando que é a história da família.
Rose – Ele era uma pessoa de fisionomia muito séria, as crianças muitas vezes até se assustavam. No entanto, era uma pessoa muito humana, muito dada, gostava das crianças, apesar de ser quieto. Ele mais desenhava e escrevia do que falava.
Magdalena – Até os alunos dele, todo mundo respeitava. Não que ele fosse uma pessoa brava, mas era a postura dele... meio de militar.
Paulo – As pessoas que conviveram com ele e o retrataram sempre acentuaram o caráter do oficial prussiano, quase como uma caricatura. Em um texto, a Patrícia Bins fala disso e, ao mesmo tempo, lembra o enorme carinho que ele tinha com as pessoas.
Como ele passou o gosto pela arte para vocês?
Magdalena – Ele sempre estimulou muito. Sempre quis que fizéssemos um diário, coisa que nunca conseguiu. Nunca ninguém escreveu, nem desenhou.
Rose – Ele saía conosco, aí voltávamos e ele dizia: “agora vocês vão desenhar o que viram”, mas a gente fazia umas porcarias... nada de maior.
O que vocês lembram das histórias que ele contava da Alemanha?
Magdalena – Durante a Guerra, não houve comunicação com a Alemanha. Nós mantínhamos contato com uma irmã dele, que era casada, mas não tinha filhos. Essa tia era muito presente, embora não a conhecêssemos. Tanto que, quando meu irmão se incomoda va, pegava as coisas dele e dizia: “Estou indo lá para a tia”. Era uma pessoa muito longe, com quem tínhamos contato apenas por correspondências, mas se falava muito nela. Eu só fui conhece-la mais tarde, em 1959, quando fui para a Alemanha pela primeira vez. Para suprir a falha da nossa falta de conhecimento dos parentes paternos, ele fez um diário onde descreve como era o pai, a mãe, todos os tios, o temperamento de cada um; fez a árvore genealógica, depois descreveu toda a guerra de 1914, os quatro anos em que ele ficou na França. O problema é que é muito difícil ler a sua letra.
Ele entrou no Instituto de Artes em 1938... no período em que também estava ingressando o Ângelo Guido...
Magdalena – Sim, foi contemporâneo do Ângelo Guido, Castanheda, ainda conheceu Pelichek, Fernando Corona. Até fizeram trabalhos juntos. O Corona trabalhava em escultura. O edifício do Caixeiral, que já foi destruído e ficava onde hoje é a C&A, foi um projeto em parceria com o Corona. Eles eram colegas e muito amigos.
E o tempo que ele reservava às aquarelas?
Rose – Isso ele fazia sempre nas horas vagas.
Magdalena – Era o hobby dele. Sua vida era realmente bem diferente do tempo da Europa. Lá, trabalhou em muitos lugares diferentes, porque queria viajar. Trabalhou por dois anos na Tchecoeslováquia, em várias cidades na Alemanha e, especialmente, em Munique, onde moraria depois. Ele nasceu em Altötting, uma cidade muito bonita da Baviera. Depois surgiu a
Guerra, ficou quatro anos na França, no front...
Deve ter sido muito difícil esse período da ascensão e queda de Hitler...
Rose – Ele nem quis ir para a Alemanha depois. Dizia: “Não, eu não quero ver meu país destruído mais uma vez”. Ele não quis voltar, dizem que esse fenômeno ocorreu com vários alemães. E em1951, faleceu. Ele se naturalizou brasileiro, mas foi um processo muito demorado por causa da Guerra.
Magdalena – Faltava o que chamavam, na época, de “título declaratório”, o que o considerava brasileiro por trabalhar aqui, por ser casado e ter tido filhos com brasileira. Isso inspirou várias aquarelas, como uma onde aparece um funcionário público sentado, atrás de uma montanha de papel, descansando ao invés de atender as pessoas. Era o sofrimento dele com a maldita burocracia.
As aquarelas que existem no MARGS são de grande precisão, minúcia. Isso caracteriza o trabalho dele?
Rose – Ele era muito rápido, tanto no trabalho de arquitetura quanto no desenho. Ele não era de vanguarda, seguia o que gostava, não fazia para vender ou para agradar alguém. Era um dos seus hobbies. Ou desenhava ou lia muito. Em vida, nunca fez exposições individuais.
Paulo – A carreira do artista começa depois da morte, basicamente. Em vida, fez uma carreira de arquiteto.
Prédios históricos, como o Palácio do Comércio, foram projetados por ele...
Magdalena – Há vários. O Pão dos Pobres é dele, a igreja São José também. Aliás, mesmo depois de ter ficado pronta, ele sempre acrescentava algo. Era uma igreja em que ele vivia participando. Há também a igreja de Cachoeira, em que se enxergam duas cruzes. Existe uma
em Caçapava, que inclusive foi tombada. Dia desses encontrei um funcionário da igreja São José, e ele comentou que há pessoas que têm dúvidas se o projeto é do meu pai. Então, encontrei um desenho, que estará na exposição, mostrando que existia antigamente uma outra fachada e ele a completou; mas o projeto é dele mesmo. Os painéis foram feitos bem mais tarde. Como éramos da comunidade São José, foi uma igreja em que a gente sempre participou. Minha mãe, inclusive, fazia parte do apostolado.
Paulo – Ele era um arquiteto muito eclético. O Fernando Corona escreveu: “Lutzenberger é o arquiteto do estilo próprio”.
Rose – Mas tinha uma influência alemã nas obras dele...
Paulo – Havia pontos góticos no detalhamento, na riqueza. Mas sua arquitetura era mais limpa, com influência art-déco. Ele trabalhava desde a planta até o mais ínfimo detalhe.
A minúcia do trabalho e o gosto do registro do costume são características da sua obra...
Magdalena – Acho que isso é muito do europeu, documentar tudo.
Rose – O pai se apaixonou muito pela paisagem do Rio Grande do Sul e andou muito pelo interior.
Magdalena – Acho que o gaúcho interessou ao pai principalmente pelos cavalos. Era apaixonado por esses animais. Durante a Guerra, sempre andou a cavalo. Sua grande dor é que não podia ter cavalos aqui na cidade. O gaúcho do pai é mais o gaúcho da serra, não da fronteira, que já tem influência do argentino.
Paulo – Lutzenberger registra tudo o que vê. A gente percebe isso no diário, nas imagens de Porto Alegre, do campo, sempre há uma fidelidade documental muito grande e há, lógico, muita invenção, apesar de ser baseada na realidade. Ele não saía com caderno, desenhando na rua; era muito discreto: chegava, observava e registrava tudo. Então, trabalhava. O detalhamento, a qualidade, a extrema precisão, o que não impede que o trabalho tenha um enorme frescor. Quando a gente olha para um desenho, ele tem uma vivacidade que parece ter sido tomado do natural.
Magdalena – Ele fazia retratos também. Nós, os filhos, com dois dias de vida, já éramos desenhados por ele. As cenas de rua eram todas desenhadas quando ele chegava em casa. O pai foi um dos poucos artistas que pintou durante a guerra. Ao mesmo tempo, seus quadros não são trágicos, são bonitos. São paisagens, cenas de interiores dos acampamentos, retratos de soldados. Não há cenas de batalha. Ele nunca nos transmitiu o pavor de uma guerra. Nunca falava de coisas tristes e até contava episódios interessantes como a história de um soldado que, ao sair para as caminhadas, punha uma pedrinha no calçado, porque sabia que ia incomodar. Quando todos os soldados já estavam ficando exaustos,
esse militar tirava a pedrinha do sapato e caminhava muito feliz... O diário do meu pai também é assim, não aparecem cenas tristes. Dos quadros dele, os que eu mais gosto são esses da Europa, da Guerra. São bonitos.
Rose – Eu sempre achava que o fato de ele ter passado quatro anos na guerra poderia ter feito dele uma pessoa nervosa, mas ele vivia tranqüilo, quieto. Não era muito social; não gostava de ir a festas, reuniões. Quando moço, gostava de viajar, de passear, mas quando chegou aqui, não quis mais. Imaginava que a pessoa que passa por uma guerra ficasse traumatizada, mas não parecia isso.
Magdalena – Mesmo quando a gente vê esses quadros, não nos passa a idéia de pavor.
Em que condições ele pintava esses quadros?
Rose – Direto no campo, no front. Magdalena – Uma vez caiu uma granada bem no
cavalete em que estava pintando. Outra vez, foi ferido na cabeça, sangrou muito e os colegas achavam que ele havia morrido. De repente, apareceu, de noite, no acampamento. Os desenhos foram feitos nas horas em que tudo ficava calmo.
Paulo – Com exceção das paisagens da Europa, a partir da produção da guerra e do Brasil, a pessoa está sempre em primeiro plano nas suas composições. Nas cenas de Porto Alegresempre há uma figura. Ao mesmo tempo em que parece anti-social, nutre um interesse profundo pelos sujeitos. Observa com cuidado, com carinho e uma pontinha de humor. Destaca o que há de mais humano nas pessoas. Todos os seus colegas do Instituto
de Artes pintaram paisagens, mas nenhum se interessou pela pessoa. Somente Lutzenberger e Pelichek. Existe algo muito bonito também que é a questão do cuidado que elas, as filhas do José Lutzenberger, têm com os quadros...
Magdalena – Pelo contrário, tenho remorso de não cuidar mais... Há vários anos eu não vendo quadros. Agora quero reorganizar tudo. A quantidade é grande, mas não poderia precisar um número exato. Alguns já ficaram na Europa; os parentes dele tinham vários e a gente também já vendeu alguns. Há cerca de oito anos não vendemos mais justamente porque nãoorganizamos. Depois que meu pai faleceu, nós dividimos tudo. Cada um ficou com um terço. Separei por categoria, por tamanho, por tema.
Rose – A essa altura, nós já achamos que a coleção precisa ficar mais ou menos reunida, porque o que nós temos, junto com o acervo do meu irmão, tem mais valor junto do que uma obra isolada.
Agora queremos saber mais sobre vocês. A Magdalena trabalhou no MARGS, na Revista do Ensino...
Magdalena – Eu comecei como professora de artes em um grupo escolar, depois passei para a Revista do Ensino, onde fiquei 17 anos.
O Zeuner fazia ilustrações nessa revista...
Magdalena – Nós trabalhamos muito com ele. O Zeuner era ilustrador da Editora Globo e fazia os desenhos para nós. Cada revista acompanhava um quadro didático, material que os professores aproveitavam muito, já que tinham poucos recursos audiovisuais para trabalhar
com as crianças. E a revista tinha uma difusão bem grande, circulava em todo o Brasil. Durante nove anos estive na Direção. Então pedi demissão e, após dois anos, a revista terminou. O problema é que nunca havia dinheiro. Depois da revista, passei para o MARGS,
onde fiquei cinco anos. Fizemos o Núcleo de Documentação e Pesquisa, começamos com a lojinha e fundamos a Associação dos Amigos. Fui a primeira presidente. Depois, peguei tempo integral no Instituto de Artes. Quando moças, trabalhamos na decoração de vitrinas por 15 anos. Trabalhamos muito com decoração de estandes e também para o ConsuladoAmericano, mas isso a gente só pode fazer quando é moça, porque é uma verdadeira ginástica.
E a Rose é escultora...
Rose – Não, eu não me considero uma escultora. Magdalena – A Rose é artista, eu não sou. Ela é uma artista que largou a arte. Eu fico com pena disso...
Rose – Uma ocasião, comprei um aparelho de solda. Aí comecei a trabalhar, fazendo peças pequeninhas e saíram jóias. Inclusive, usava pedras regionais de Soledade; havia pedras lindas, que pareciam flores. De repente, parei. Sempre o problema da técnica.
Magdalena – Ela é assim. Quando gosta de uma coisa faz em quantidades. Quando não quer mais, pára e vai para outra.
Rose – Eu gosto de experimentar. Já tive a fase de pintura em tecido, depois trabalhei com o alumínio... Com escultura sempre tive problemas com a técnica. Eu mesma tinha de executar e aí não saía em muita quantidade; foram poucas peças. Por isso, não me considero artista.Gosto de fazer. Sou como o meu pai, faço pelo prazer. Meu trabalho não era vendável. Magdalena – Acho que a Rose também não gostava dessa função de exposição, de toda aquela engrenagem que o artista precisa para exibir seus trabalhos.
Rose – As poucas exposições que fiz, tive enxaqueca depois.
Magdalena – A Rose começou na Escola de Belas Artes antes de mim.
Rose – Eu substituí o Locatelli. Comecei a trabalhar quando ele estava se preparando para um concurso. Ficou doente durante uma semana e faleceu. Aí ficou aquele impasse sobre quem faria o concurso. Eu estava lá, trabalhando sem ganhar nada. Então a turma da Escola
começou a insistir para que eu fizesse o concurso. Mas eu não estava preparada, nem queria fazer. Enfim, fui tão pressionada que me vi na obrigação de fazê-lo. O maior sofrimento da minha vida foi ter feito esse concurso. Mas enfim, passou e eles me aprovaram. Eu me
apeguei à Escola e fiquei trabalhando por lá.
Edição de Cida Golin e Ana Maria Brambilla
Jornal do MARGS, nº 68, maio de 2001
MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
Praça da Alfândega, s/n° - Centro
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