Analítica - Persona
A vida e a pintura não andam em linha reta
“Olhar é o modo dos poetas ( ... ). Ver é o modo dos pintores”.
A frase é de Ione Saldanha, uma artista que viu muito e transformou o visto numa produção artística que seduziu críticos, jornalistas e outros artistas. Seu segredo? “Pegar um objeto de função perfeita (...) e transformálo numa coisa gratuita, inútil mas usável, de necessidade total”, como ela explicou no catálogo que apresentava as bobinas, em 1971. Explique-se: o trabalho plástico de Ione Saldanha, na tela, passou do figurativo ao abstrato e do abstrato ao geométrico. Depois, saltou da tela e materializou-se em ripas, bambus e bobinas (dessas usadas pelas indústrias para enrolar fios e cabos). Em comum nas diferentes expressões plásticas, a cor: “Ela significa a própria vida”, segundo a artista. Ou, no dizer de Frederico Morais, nas mãos de Ione, “a cor como se tribaliza”.
Ione Saldanha faleceu no início deste ano, aos 80 anos. Gaúcha de Alegrete, aos três estava no Rio de Janeiro, porque o pai, advogado, foi cassado por uma destas inúmeras revoluções que o sectarismo gaúcho produziu. Adotou a cidade carioca, de onde só saiu para temporadas na Europa ou na serra fluminense. Ao longo da vida foram inúmeras exposições, no Brasil e no exterior, mas o destaque do seu currículo é um privilégio raro: ter participado de onze Bienais, entre 1953 – a segunda edição do evento paulista – e os anos 80, na 15º edição. Como não poderia deixar de ser, ela também foi homenageada pela I Bienal do Mercosul. Em Porto Alegre, realizou uma única exposição, em 1982, na galeria do Clube do Comércio, com organização de Fabio Coutinho.
“Durante todos esses anos, houve uma espécie de vai e vem. Na pintura e na vida a gente não anda em linha reta”, explica a simplicidade de Ione. Em termos artísticos, talvez a ruptura mais marcante tenha sido a passagem do quadro para o objeto: um dia, “a ripa de Ione pulou fora do quadro e declarou-se autônoma” (Frederico Morais), transformando-se em “mastros mágicos” (Mario Pedrosa), “numa leitura brasileira, lúdica e afetiva” (Marcus Lontra). A ripa, no princípio, era uma ripa mesmo, que ela apanhou num canto do atelier e incorporou à pintura, “seguindo ritmos de cor e de espaços, para preencher toda ripa”. Depois, independentes da tela, as ripas surgiram como objetos tridimensionais até ganharem a companhia dos bambus, que viraram marca registrada de Ione Saldanha. A produção dos bambus tinha um ritual cuidadoso. Primeiro, eles deveriam ser cortados entre maio e setembro, preferencialmente na lua minguante, nunca em dia de chuva. Depois, ficavam armazenados um ano, para secagem completa. A preparação da peça envolvia raspagem das felpas, lixagem e perfuração cuidadosa de lado a lado, com ferro em brasa. A seguir, o bambu era colocado entre dois cilindros para que pudesse rolar no chão do atelier, enquanto recebia seis demãos de tinta branca.
A aplicação da cor definitiva só era realizada depois de muitos estudos e croquis. Tudo ao som de Stravinsky ou Schubert.
Em meados dos anos 90, quando a equipe do MARGS fez contato com ela para uma possível mostra na cidade, desculpou-se por não poder aceitar, porque “havia doença na família”. Não revelou que, de fato, quem estava doente era ela própria. Como nas suaspaisagens urbanas dissolvidas em brumas, Ione se foi de mansinho e em silêncio.
Susana Gastal
Jornalista e Professora da FAMECOS/PUCRS
Jornal do MARGS, nº 67, abril de 2001
MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
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