Entre-falas: Artistas
A revolta
Sou um homem muito revoltado pela violência do homem contra o homem, do homem contra a natureza, ou seja, do homem contra a vida. Minha preocupação não é ser um ecologista, mas lutar pela vida. Isso é minha obra, o meu trabalho, a minha luta. É mostrar um pouco a destruição, o quanto este planeta está machucado.
A natureza me deu a possibilidade de sobreviver. Eu fugia do homem após a Segunda Guerra. Quando montei a primeira Bienal de São Paulo, a minha obra estava toda cinzenta. A vida estava tão negra que não conseguia ver a cor, até voltar à natureza e sentir suas formas.
No início, tive medo, me senti perdido perto dela. Entrei nos manguezais, nunca tinha visto tanto movimento. Mesmo Pollock, mesmo o cubismo, mesmo o construtivismo, mesmo o tachismo, tudo está ali. Comecei a descobrir a matéria, fazendo impressões de pedras, de terras, desenhando com pigmentos naturais.
Fiz minha primeira escultura em 1965, em Minas Gerais, depois da Bienal de Veneza. Quis então fazer da minha obra um grito. Tudo o que nasce neste planeta tem direito de sobreviver, por isso faço todo o possível para exprimir a minha revolta. Se isso é arte ou não, isso é assunto dos outros.
Eu viajo muito. Não quero esquecer o que vejo. Por isso fotografo. Com as fotos, capto de onde vem esse material e por que estou fazendo esse trabalho. O fogo me acompanha sempre. É um registro que faço das queimadas e da destruição.
Nunca sei a madeira que tenho, sei que tenho um pedaço de carvão. Do sul da Bahia a Vitória, no Espírito Santo, não há mais mata, há apenas uma reserva perto de Linhares, e cada vez que passo lá está diminuindo, está morrendo. Deixaram uma única árvore na estrada, eu passo por ela e digo bom-dia, até a volta, e a abraço.
Estou no Brasil há 54 anos, eu escolhi este país. Nasci aqui pela segunda vez. O Brasil detesta o passado, o Brasil das grandes florestas é passado. A caatinga está em todo o lugar, qualquer dia vamos precisar entrar num museu para ver uma árvore ou, então, ligar a televisão.
Minhas esculturas estão cada vez mais altas, mais pesadas, mais difíceis. Quando a gente trabalha num ateliê, tudo o que faz é grande. Quando a gente trabalha ao ar livre, tudo que se faz é pequeno.
Vivemos um vazio político, e a arte, o que está fazendo a arte, como ela vai acompanhar o século XXI que será um século urbano? Ela acompanhou a segunda revolução industrial e foi muito útil, precisávamos de novas formas, o design, a Bauhaus. Hoje a terceiraevolução industrial é a informática. A arte é dominada por um mercado que está em crise. Se a gente pega uma obra de arte americana, a gente pergunta qual o seu preço e não o seu significado.
Quero continuar a defender a natureza. Ela me deu a possibilidade de sentir um pouco mais a vida.
Pode parecer poético, mas não faz muito tempo que descobri eu mesmo. Isso tem uma importância enorme na vida. Comecei a ver diferente do que via antes. Isso é minha obra, minha vida, é muito rico ser eu mesmo.
Depoimento gravado em 1º de junho de 1999,durante encontro com os monitores do MARGS. Frans Krajcberg apresentou no museu uma série de fotos e a escultura A Revolta, numa promoção da FEPAM, dentro da Semana do Meio Ambiente.
Jornal do MARGS,
nº 48, julho de 1999
MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
Praça da Alfândega, s/n° - Centro
90010-150 - Porto Alegre - RS - Brasil
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