Analítica - Persona
Um olhar sobre Corona
Lembro de uma ocasião, quando tinha por volta de nove anos de idade, em que encontrei na rua um toco de árvore que lembrava a forma de um cachorro. Levei o toco para casa, tirei uns pedaços da madeira, envernizei, coloquei uma fita naquilo que parecia ser o pescoço e levei de presente para o meu avô.
Depois de seu falecimento, em 79, iniciou-se a tarefa de desmontar a casa e dividir os bens. E minha grande surpresa foi descobrir que o toco-cachorro havia sido guardado por todo aquele tempo. A minha surpresa era decorrente de uma série se sentimentos contraditórios que me acompanhavam desde a minha infância. A percepção que eu trazia da figura de meu avô era um misto de fascínio e receio. Visitá-lo significava entrar num ambiente em que a arte se espalhava por todos os cômodos e cujo gabinete era onde eu me perdia por longos momentos, mergulhada em papéis, lápis de cor e canetinhas que ele já preparava para aquelas situações. Não sei quando isso começou, acho que assim que eu e meu irmão começamos a dar os primeiros rabiscos, pois até hoje tenho das garatujas aos desenhos da pré-adolescência por ele guardados.
Ao mesmo tempo, ficou também a imagem não de um avô bonachão, e sim de uma figura temperamental e severa, um baixinho de um metro e sessenta que quando contrariado mostrava seu intempestivo sangue espanhol, dando pulinhos no chão.
A surpresa de ter encontrado o toco-cachorro no armário residia exatamente nessa contradição. Como um homem tão severo trazia consigo um olhar tão sensível? Até hoje a sua personalidade é para mim enigma.
Na data de seu falecimento eu era apenas uma menina de quinze anos. Portanto a visão que tenho, passados vinte anos, é formada pelos resíduos que trago da minha infância somados aos relatos de quem com ele conviveu, e o que ficou impresso como resultado desua inserção na vida cultural de Porto Alegre.
A influência exercida por sua figura mítica é inegável, uma vez que já na adolescência me imaginava trilhando o caminho das artes. O contato que tive com obras de arte originais deu-se desde cedo. Nomes como Iberê Camargo, Locatelli, Malagoli, Tênius, Frank Schaeffer, Bianchetti, Seelinger, De Francesco, entre outros, eram familiares na medida em que dividam espaço nas paredes e balcões da casa de meu avô. Penso que a partir desse contato próximo deu-se o início da alfabetização do meu olhar.
Quatro anos após sua morte, ingressei no Instituto de Artes e, a partir daí, fui conhecendo o professor Fernando Corona através dos relatos daqueles professores que haviam sido seus alunos. As histórias contadas iam desde fatos hilariantes até a sua admirável participação na construção de um novo prédio para o Instituto, sendo que, para a realização deste, Tasso Corrêa, na época diretor, meu avô e outros professores, hipotecaram suas casas para conseguir o empréstimo necessário junto à Caixa Econômica Federal. Descobri, então, o professor comprometido e obstinado, que deixou a própria produção de lado, dedicando-se exclusivamente, como ele próprio dizia, ‘a fazer escultores’. Assim mesmo, passeando pela cidade, encontro o escultor em vários locais, como na fachada do Banco do Comércio, no qual realizou o pórtico de entrada que contém um escudo com duas figuras reclinadas sobre o arco da porta principal, ou no próprio Museu de Arte, do qual faz parte do acervo, com uma belíssima escultura em bronze intitulada
O Inca. Lembro dele, uns anos antes de sua morte e já bem velhinho, corajosamente suspenso em um alto andaime, em pleno inverno rigoroso, trabalhando no que seria a sua última escultura, uma imagem de Nossa Senhora que ocupa a fachada da Igreja Maronita na rua Jerônimo de Ornelas.
Mais adiante, quando fui convidada a integrar o corpo de professores da Escolinha de Arte da Associação Cultural dos Ex-Alunos do Instituto de Artes da UFRGS, novamente me encontro com seu trabalho. Amigo de Augusto Rodrigues, idealizador das Escolinhas de Arte do Brasil, apoiou de diversas formas um grupo de ex-alunos, do qual participavam Rubens Cabral, Alice Soares, Iara de Mattos Rodrigues, entre outros, que por volta de 1960 se uniu em torno do sonho comum de fundar no Instituto uma escolinha nos mesmos moldes.
“A criança expressa o sentimento que a embarga, que a emociona também e a seu modo o reproduz no papel com as cores que bem entender, com plena liberdade individual criadora”, já dizia o ‘’Velho Corona” em um artigo publicado no Correio do Povo por ocasião do 12º aniversário daquela associação, ressaltando mais uma vez sua importância. E é com essas palavras na cabeça e com a lembrança de minha experiência como aluna, que dia 15 deste mês de setembro vou ter o prazer de comemorar juntamente com meus colegas, professores e a nossa diretora, a Larinha, 39 anos desta escola que vem possibilitando, através do fazer artístico, o exercício da livre-expressão.
Mas voltando novamente aos encontros que venho tendo com meu avô, cabe citar as novas descobertas que fiz quando foi lançado, no ano passado, o livro Fernando Corona e os caminhos da arquitetura moderna em Porto Alegre, de Anna Paula Canez. Descobri, então, oarquiteto. Já tinha conhecimento de alguns de seus projetos, mas foi através dessa pesquisa que me surpreendi ao saber que muitos dos prédios em que eu encontrava beleza eram de sua autoria, como o edifício João Ibanez ou a Casa Sloper, que tanto freqüentei na infância comprando penduricalhos.
É, portanto, evidente a influência que meu avô exerceu sobre minha carreira, tanto como artista, como professora, na medida em que minha vida é constantemente transpassada pela história de uma produção de obras e de saber que foi se constituindo, durante 67 anos, desde sua chegada nesta cidade. Muitas vezes me questionei a respeito do peso desta tradição familiar. O quanto este caminho era uma escolha e necessidade próprias ou a idealização e continuidade de um mito.
Depois de tantos anos trabalhando com arte, essa questão talvez não mais me importe. A impregnação foi tamanha que a necessidade se fez e não me imagino trabalhando em outro campo que não seja este. É através da pintura que me encontro, que leio e transcrevo o mundo. Do “Velho”, não sei se carrego o talento. No entanto, da obstinação de ser artista e professora em um país que ainda, infelizmente, não prioriza nem a cultura nem a educação, tenho certeza.
A casa do cachorro
Durante vinte anos morei em uma casa de estilo modernista projetada por meu pai, Luis Fernando Corona. Na elaboração do projeto, ele incluiu uma escultura de meu avô, que se tratava de um cachorro de grande porte, em cimento, revestido de pedacinhos de azulejos, com dois olhos de bola de gude. E era por sobre este cachorro que eu e a gurizada da zona cavalgávamos horas, no devaneio infantil das brincadeiras de mocinho e bandido. O cachorro transformava-se em cavalo valente e íamos longe em nossa imaginação. A referência de nosso endereço era, então, a “Casa do Cachorro”.
Marilice Corona, artista plástica e professora.
Jornal do MARGS,
nº 50, setembro de 1999
MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
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90010-150 - Porto Alegre - RS - Brasil
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