Selecta do Museu

Entre-falas: Sistema

Exposição-Manifesto (1976)

 

O Museu de Arte cedeu local para uma Exposição-Manifesto organizada por 8 artistas plásticos de Porto Alegre, nos dias 9 e 10 de dezembro passado.

 

Sob a responsabilidade de Carlos Asp, Romanita Martins, Telmo Lanes, Vera Chaves Barcellos, Mara Alvares Pasquetti, Clovis Dariano, Jesus Escobar e Carlos Pasquetti, a mostra, sem qualquer caráter comercial, apresentou ambientes, cadernos, álbuns, documentação, filmes super 8, diapositivos, além de depoimentos a respeito do momento cultural que vivemos.

 

A manifestação representou uma tomada de posição contra um contexto de mercado e ao mesmo tempo, a favor de uma maior abertura, em que forma artística, tenha, como razão de ser, a expressão de idéias e conteúdos.

 

Apesar da diversificação dos trabalhos e temperamentos (todos já estavam trabalhando novas formas de linguagem), o ponto comum que os uniu foi a abordagem de outras áreas do pensamento e a provocação de ações criativas, visando à formação de um novo público participante, no caso, os mais jovens. A luta pela sobrevivência de ideais foi também debatida, visto o acelerado processo de mercantilização de que tem sido alvo o objeto artístico. Em suma, a intenção desse grupo não é fazeruma arte essencialmente visual, mas sim trazer informações a um nível semântico. Seus trabalhos devem ser avaliados não pelos velhos critérios da crítica formal mas como uma provocação ao público expectador-participante.

 

A Exposição-Manifesto, segundo os próprios artistas expositores, constou do seguinte material:

 

Carlos Asp

Uma parede de porta-vidro que abre para um jardim onde está um violinista sentado, parte de uma natureza musical vivida, passagem para outros espaços; um jogo para montar, multiformas de caixas de fósforos Pássaros brasileiros, onde há a utilização do material pobre como veículo de jogo e imaginação criativa para o espectador; um álbum e diapositivos de documentação do trabalho Passagens mágicas da vida, realizado no MARGS, em 76.

 

Carlos Pasquetti

Imagens fotográficas, idéias expressas pela palavra e filmes sugerindo ambigüidades, numa visão interiorizada de processos mentais elaborados e mágicos. Misto de intelecto e fantasia.

 

Clóvis Dariano

Curtíssimas metragens em Super 8, álbuns e a série filmada de um violoncelo, que vai do cômico até a solenidade quase religiosa do instrumento musical.

 

Jesus Escobar

Uma parede forrada de cópias xerox contendo imagens do momento atual. A técnica de reprodução em xerox é utilizada como crítica à gravura tradicional.

 

Mara Alvares Pasquetti

Animação, álbuns e diapositivos. Em alguns álbuns existe a aproximação de fatos simples do cotidiano, enquanto que em Jogo aberto para esconder em seis toques, o gesto humano é proposto para modificar as paisagens fotografadas.

 

Romanita Martins

Montagem, com a utilização de materiais pobres (rosa de plástico, cetins pintados com giz, pontos riscados da umbanda). Estes elementos são usados para exaltar e criticar aspectos da cultura afro-brasileira na era industrial.

 

Telmo Lanes

Peça de roupa de uma coleção (camisa para pessoas duplas). Numa proposta de humor mordaz, lembra ao espectador a personagem que poderia vesti-la; um álbume uma série de fotos com o título Indicção, onde o artista se fotografa com a língua gesticulando na indicaçãode seu dedo.

 

Vera Chaves Barcellos

Serigrafias como um apelo táctil à imaginação e também em imagens que pedem a participação do espectador com uma pequena história; três cadernos, um da série Textartes, e outros dois da série Cadernos brasileiros.

 

 

O Manifesto

 

Na presente situação do movimento artístico gaúcho, o mercado de arte assume um vulto nunca antes atingido, o respeito pelo público leva-nos à necessidade de certas colocações esclarecedoras.

 

Existe uma diferença fundamental entre a eventual venda da obra de arte e a feitura da obra, especificamente para a venda, como um produto que se condiciona à demanda comercial.

 

Não somos contra a venda da obra de arte. Não aceitamos, isto sim, que o mercado dirija o movimento artístico.

 

A venda não é medida de qualidade da obra de arte, como prova a história.

 

O condicionamento ao mercado leva o artista a uma produção meramente artesanal, muitas vezes beirando um maneirismo, à repetição e a um conseqüente esvaziamento de conteúdos.

 

Igualmente, manifestações, que sob o rótulo de arte nacional têm como interesse primeiro o mercado de seus produtos, confundem ainda mais o público, quanto a discernir entre manifestações culturais legítimas e interesses de caráter comercial e promocional.

 

Propomos:

 

• Criação de uma nova mentalidade e de um contexto e clima abertos a manifestações que não procurem contentar partes mas sejam o documento vivo de uma criação embasada em novos caminhos e idéias.

 

• Um trabalho que antes de ter como suporte qualquer veículo material e sua hábil manipulação, seja produto de uma consciência crítica atuante.

 

• Operações artísticas que sejam verdadeiros centros transformadores da consciência e não manifestações coniventes com um dirigismo mercadológico deformador de valores.

 

• Uma visão lúcida do papel do artista no seu contexto social e de sua participação construtiva dentro deste contexto.
Porto Alegre, dezembro de 1976.

 

Boletim Informativo do MARGS,
ano 2, nº 4, jan/abr, 1977

 

Entre-falas: Sistema

MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
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90010-150 - Porto Alegre - RS - Brasil
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