Entre-falas: Artistas
Fotografias para a transcendência
Evgen Bavcar é um sujeito surpreendente. Provoca no interlocutor mais do que uma tentativa de entendimento entre sintaxes ou culturas. Convida suas companhias para um passeio pela tridimensionalidade do escuro, pela delicadeza de um sabiá no centro ruidoso de uma cidade, pela riqueza das descrições dos espaços geográficos e afetivos. Kantiano, mostra o quanto o olhar é um instrumento da distância. Como não desfruta dessa possibilidade (perdeu completamente a visão na pré-adolescência), percorre o cotidiano numa materialidade densa, sente o espaço na textura e no apego aos objetos, no perfume dos sujeitos e dos territórios, no movimento do vento e da música e, melhor, na fala das pessoas sobre suas terras.
Filósofo, pesquisador do Centro Nacional de Pesquisas Científicas (CNRS) de Paris, esse esloveno, naturalizado parisiense, deixou no MARGS um pouco do paradoxo de suas imagens. Não faz fotos porque é um cego, algo chamativo num mundo atordoado de visões. Bavcar é o oposto dos clichês sobre a cegueira. Seu trabalho e sua vida vão além dos limites impostos pelas circunstâncias biográficas. Não faz imagens para si, faz para os outros. Traz para o olhar do próximo imagens frágeis, feitas da interioridade, de narrativas, espécies de “miradas tácteis” como diz. No terraço do Museu, fotografou Porto Alegre, espaço já da nostalgia, conhecido na curva de um globo, na voz alta das pessoas, nos espaços vazios da Catedral, na sensação do viaduto da Duque, nas peculiaridades físicas de suasacompanhantes. Junto à amiga Elida Tessler, Bavcar conversou com as fotógrafas Márian Starosta e Andréa Bracher e com a jornalista Cida Golin, numa manhã quente e ensolarada de uma quase primavera gaúcha. Com metáforas, com gestos às vezes perturbadores, com o espelho que tira da bolsa ou exibe na lapela, Bavcar falou um pouco das janelas para se olhar o mundo. Talvez sua última lembrança visível seja a de uma rua, uma rua e uma janela. Para ele, as janelas são o caráter especial do olhar, as janelas de nossas lembranças, nossos olhos que se abrem ou que se fecham. A dele é a de um menino que olha um pouco de baixo.
A fotografia, para mim, não é somente um problema técnico, mas um problema conceitual. A fotografia moderna é destruída pela técnica. Os novos aparatos técnicos definem quase todo o olhar. Sou um filósofo que deve refletir sobre essas novas possibilidades técnicas, mas sobretudo sobre a fotografia como expressão.
Por que produzir mais imagens neste mundo já tãocheio de imagens? Não se pode digerir todas as imagens. Não se cria uma configuração interior, tudo é muito superfície. Meu princípio são as trevas. Com elas, estou criando imagens muito frágeis porque são novas.
Não sou influenciado diretamente por outras imagens. Minhas fotografias são paradoxos. Eu trabalho o retrato ou o nu como uma escultura. Estou no espaço tridimensional das trevas, um espaço de volume em que se pode mover como a Terra move-se no Cosmos. Essas pequenas luzes, que são as estrelas, são acompanhadas das trevas.
Como filósofo, estudo estética. É uma possibilidade de defender-me de minha curiosidade pela arte. Escrevi um texto sobre o pintor Zoran Music e a editora da Art Press não sabia que eu era cego. Quando foi publicado, já era demasiado tarde. Por que Kant, o grande Kant? Ele também escreveu sobre as coisas invisíveis, ele não visitou a igreja de São Pedro e escreveu sobre ela. Nem sempre a mirada física é a que conta mais. Por isso é que a estética me interessa: compreender o que significa a percepção, a consideração dos elementos, da estrutura, dos conteúdos.
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Minhas andorinhas significam um desejo da luz. Quando há muita luz elas voam alto; quando há pouca luz, voam baixo. As andorinhas são um símbolo, um emblema do desejo de voar.
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Tenho muitas impressões de Porto Alegre e devo tudo analisar. Vou precisar de muito tempo para isso. Gosto do ar, é pelo menos melhor que o de São Paulo. Um problema que é mais poético do que estético: a diagonal que devo criar em minha interioridade, França, Eslovênia, Atlântico, Porto Alegre, outra parte do mundo, é fantástico. Toco num globo que tenho em casa, para olhar a curva. Devo situar Porto Alegre com meu corpo e depois como nostalgia. Eu devo me preparar para essa nostalgia. Nostalgia é como uma imagem, nostalgia de um objeto perdido.
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Senti muito bem o espaço da Catedral, o espaço do viaduto. É muito importante conhecer as cidades para entender os olhares das pessoas. Escuto muito a forma como as pessoas olham para compreender as suas paisagens. Um índio da Amazônia pode ver muitas tonalidades de verde, enquanto um esquimó pode detectar vários tipos de branco. Eu me interesso pelas particularidades de cada olhar.
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A televisão forma, ao mesmo tempo, a luz e as trevas como um fast food. Tudo pronto e tudo igual. Conheço o código, sem precisar olhá-la. Entendendo a música e o diálogo, posso saber quando as pessoas se abraçam, fazem amor, sem ter imagens concretas, é possível visualizar planos através de uma reflexão lógica. Necessito da descrição das pessoas. A palavra do outro é o que me importa nas minhas películas. Minha inspiração depende em grande parte da palavra, da poesia, falo muito com as minhas modelos.
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Minhas miradas tácteis: não é para tocar, é para olhar de perto. Estou olhando com minhas mãos.
Eu não faço imagens porque sou cego, mas porque tenho visões interiores. Faço as fotografias como uma espécie de expressionismo moderno. Há ali uma espécie de transcendência, como os quadros do Egito que foram concebidos para a morte. Minhas fotografias não são um produto para mim, mas para o olhar do outro. É muito interessante como problema de criação. Como os santos. Os santos não se vêem, só se vêem as figuras. Para mim, a fotografia é um trabalho com a transcendência da percepção do corpo físico e do olhar do outro.
Eu me sinto um analfabeto das imagens. Posso olhar com a memória psíquica das coisas. Naturalmente, sou muito humilde com as pessoas que podem ler todos os dias. Mas para que servem essas leituras? Como disse Milan Kundera, a memória necessita de um tempo. Eu tenho muito tempo para repetir uma imagem.
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A separação entre o homem e os objetos é uma forma de castração moderna. Existe uma divisão entre a substância do objeto e a imagem do objeto. Os objetos fazem parte de meu corpo, tenho muitos objetos em casa, pedras das ruas de Praga, de minhas visitas ao mundo. Também exprimem a materialidade do mundo, porque quando se toca alguma coisa, se toca de verdade, enquanto o olhar imprime distância. Como disse Kant, “os olhos são os instrumentos da distância”.
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A separação entre o homem e os objetos é uma forma de castração moderna. Existe uma divisão entre a substância do objeto e a imagem do objeto. Os objetos fazem parte de meu corpo, tenho muitos objetos em casa, pedras das ruas de Praga, de minhas visitas ao mundo. Também exprimem a materialidade do mundo, porque quando se toca alguma coisa, se toca de verdade, enquanto o olhar imprime distância. Como disse Kant, “os olhos são os instrumentos da distância”.
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O silêncio deste mundo é muito raro, pela poluição. É o mesmo problema das imagens. Para mim, são como as nuvens que escondem o sol. Não posso saber se há uma mulher bonita nas ruas de Paris, há muito ruído. Só pelo perfume, mas há muitos homossexuais que usam os perfumes das senhoras. É uma confusão, e é preciso pensar sobre isso, sobre os rumores. Em todos os aeroportos sinto o mesmo perfume. Prefiro lugares que têm perfumes e ruídos naturais, árvore com cheiro de árvore e não de petróleo, como é o caso das grandes cidades. É a mesma coisa com os objetos sem aura, todos iguais com suas qualidades olfativas, sonoras e visuais. Prefiro escutar um som natural, um acordeão natural, do que um som eletrônico. O som eletrônico é um som dos números, do platonismo moderno, som das cifras, do cálculo.
Edição de Cida Golin
Jornal do MARGS,
nº 72, setembro de 2001
MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
Praça da Alfândega, s/n° - Centro
90010-150 - Porto Alegre - RS - Brasil
Fone (51) 3227-2311 - Fax (51) 3221-2646
museu@margs.rs.gov.br