Analítica - Contexto
Em meados dos anos 60, ganhou espaço no cenário artístico brasileiro uma produção que pretendia romper com os lugares, suportes e atitudes convencionalmente destinados à execução e exibição de obras de arte. A própria noção de “obra de arte” já não se entendia reduzida ao objeto, passível de mercantilização. Os conceitos e os papéis desempenhados pelo artista, obra e espectador, ampliavam-se e ganhavam novas definições. Tendo como objetivo desmistificar o ato criador e o domínio do artista sobre a obra, almejava-se que a arte fosse, por fim, integrada ao fluxo da vida.
Objetos, materiais e procedimentos do cotidiano incorporavam-se ao fazer artístico, enquanto o público passava de espectador passivo a elemento fundamental para a concretização do processo criativo. Artistas como Hélio Oiticica – com seus Parangolés – e Lygia Clark – com obras como Bicho – utilizavam estes pressupostos para o desenvolvimento de seus trabalhos, enfatizando a participação do público, a ruptura de fronteiras entre as categorias artísticas e o abandono dos suportes e materiais considerados tradicionais, como a tela para a pintura, o mármore ou o bronze para a escultura.
Para um significativo grupo de artistas brasileiros, a partir daquele período, qualquer elemento do dia-a-dia poderia ser empregado - materiais efêmeros, sucata, lixo, o próprio corpo, água, fogo, sangue. As imagens poderiam ser reproduzidas através de fotocópias, serigrafias ou geradas a partir de carimbos. Mais do que o resultado final, interessava o processo: a partir do momento em que não existem mais prescrições sobre os materiais, suportes ou procedimentos que possam ser definidos como específicos para o trabalho artístico, toda a opção tomada pelo artista assume uma dimensão significativa. Desenhar já não pressupõe lançar mão de um lápis e de uma folha de papel branco. Desde o primeiro gesto, é preciso escolher - seja um pedaço de feltro, uma corda, ou uma tela - e ter consciência da opção assumida.
Assim, no contexto brasileiro das décadas de 60 e 70, torna-se possível pensar na estreita relação entre estética e política: se não era possível derrubar o autoritarismo em geral, promovia-se sua derrubada no âmbito da arte. Nestes termos, a arte não deveria ficar confinada aos lugares que, tradicionalmente, lhe haviam sido reservados, tais como museus e galerias ou teatros. Utilizava-se, agora, o espaço da cidade como suporte para as diversas manifestações artísticas, pois a criação poderia ser um ato coletivo. E ainda, paralelo ao processo de desmaterialização da arte, muitos artistasassumiam uma crítica radical ao mercado, desenvolvendo estratégias que negavam e subvertiam a possível transformação da obra de arte em simples mercadoria, seja através da arte postal, de performances ou produzindo instalações.
Partindo de um pressuposto segundo o qual ampliar o campo de possibilidades do trabalho com arte representaria uma expansão da liberdade criativa para outras esferas da sensibilidade individual e coletiva, a “crise da arte” e a crítica ao objeto artístico tradicional - vinculado à idéia de peça “única” e “original”, à marca da mão do artista através do gesto e da pincelada, à noção de obra como expressão legítima de uma individualidade, no caso, a do artista e sua subjetividade, entre outros aspectos - possuiriam um caráter produtivo,constituindo-se em um momento de sintonia entre a produção artística local e aquela realizada em outros centros artísticos internacionais.
Em Porto Alegre, será ao longo dos anos 70 que iremos encontrar um conjunto significativo da produção artística alinhado a essas problemáticas, voltada para a investigação das linguagens e dos meios, disposta a assumir um posicionamento crítico frente às condições de difusão e consumo dos produtos culturais. Neste contexto surge, em 1979, o Espaço N.O. - Centro Alternativo de Cultura, idealizado, mantido e administrado por um grupo de artistas constituído por Vera Chaves Barcellos, Telmo Lanes, Mario Rohnelt, Milton Kurtz, Carlos Wladimirsky, Heloisa Schneiders da Silva, Karin Lambrecht, Cris Vigiano, Ana Torrano, Regina Coeli, Simone Basso, Ricardo Argemi e Sergio Sakakibara, contando ainda com outros colaboradores.
O Espaço N.O. foi estruturado para atuar a partir de estatutos e financiado pelos próprios artistas interessados em sua manutenção. A proposta de constituição de um centrocultural tinha por objetivo - mais do que a divulgação do trabalho realizado pelos própriosorganizadores -, promover o intercâmbio com outros centros e artistas, estando aberto às mais variadas manifestações na área cultural, não restritas ao âmbito das artes visuais. Com este propósito, o grupo manteria uma sala, cedida pela artista Vera Chaves Barcellos – localizada no prédio da Galeria Chaves, centro de Porto Alegre -, cujo espaço foi adequado ao desenvolvimento de atividades multidisciplinares, fossem ligadas à dança ou às artes visuais, com o emprego de painéis moveis e iluminação específica.
No seu período de atividade, entre outubro de 1979 e abril de 1982, o Espaço N.O. organizou e apresentou 22 mostras coletivas e 19 individuais, entre as quais ressaltamos as de Paulo Bruscky – cuja mostra, incluindo trabalhos em arte-postal, filmes e projetos inaugurou o centro cultural –, Carmela Gross, Marcelo Nitsche, Rafael França - que se consagraria como pioneiro entre os video-artistas nacionais -, Hudinilson Jr. e, ainda, obras de Hélio Oiticica.
A opção pelo contemporâneo também aproximou o grupo de artistas responsáveis pelo N.O. e Lyba Knijnik, proprietária da coleção Rubem Knijnik. Em julho de 1981, o Espaço N.O. promoveu uma mostra de parte significativa desta coleção, incluindo obras de Waltercio
Caldas, Tunga, Avatar, Antonio Dias, Lygia Clark, Paulo Roberto Leal e outras expoentes da produção artística realizada durante os anos 60 e 70.
Assumindo de modo coerente a opção pelo caráter pluralista da arte contemporânea, o Espaço N.O. promoveu debates com artistas e intelectuais - entre os quais, o lançamento do livro Arte na América Latina: do transe ao transitório, de Frederico Moraes, e ciclos de palestras sobre arte latino-americana, com Aracy Amaral –, além de várias atividades, palestras, cursos e intervenções, nas áreas de teatro, dança, música e literatura, dirigidos por profissionais como Arthur Nestrowski, Bruno Kiefer, Celso Loureiro Chaves, Luis Arthur Nunes, Giba Giba, Olga Reverbel, entre outros.
Considerando o amplo leque de eventos promovidos e tendo sua proposta de ação cultural profundamente enraizada em um período em que artistas e intelectuais ainda apostavam em soluções coletivas, o Espaço N.O. surge em nossa memória – passados quase 20 anos do encerramento de suas atividades – como uma referência para o debate sobre a contemporaneidade artística em Porto Alegre e uma matriz para outras experiências quecongreguem o mesmo espírito crítico. Como na velha canção, “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”.
Ana Albani de Carvalho, Autora da dissertação de Mestrado Nervo Óptico e Espaço N.O.: a diversidade no campo artístico em Porto Alegre durante os anos 70. Porto Alegre. 1994. Instituto de Artes. UFRGS
Jornal do MARGS, nº 67, abril de 2001
MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
Praça da Alfândega, s/n° - Centro
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