Transversais
O artista gaúcho Carlos Scliar, um dos nomes importantes da pintura e decisivo no movimento de afirmação da gravura brasileira, completou 80 anos no dia 21 de junho. Num depoimento a Clarice Lispector, em 1966, disse que, se não fosse um pintor, seria um cineasta, uma preferência que herdou do pai. Um de seus filmes chama-se Escadas, uma producão de “linguagem misteriosa”, como ele mesmo define, e que o pesquisador Glênio Póvoas resgata do esquecimento.
As lembranças de Carlos Scliar de sua aproximação com o cinema remontam à infância quando tinha quatro, cinco anos e via trechos de filmes alemães ao ar livre, levado por uma empregada da casa. Ele mesmo já afirmou que o cinema é o ponto de partida de seu trabalho criativo.
No início dos anos 40, em São Paulo, conheceu aquele que viria a se tomar uma referência obrigatória nos estudos sobre cinema brasileiro: Paulo Emilio Salles Gomes.1 Logo se estabeleceu uma cumplicidade entre eles através de acaloradas discussões sobre cinema e política, entre tantos outros assuntos.
Em 1944, Carlos Scliar concebeu e dirigiu o curtametragem Escadas, com o casal de artistas plásticos que viveu no Rio de Janeiro entre 1940 e 1947, os seus amigos Arpad Szenes e Maria Helena Vieira da Silva. A Cena Muda, atenta às atividades cinematográficas brasileiras, dedicou a página 23 de sua edição de 15 de agosto de 1944 a “um short diferente”, publicando algumas imagens de Escadas, “short brasileiro, digno de destaque por ser a primeira experiência cinematográfica de um pintor interessado pelo cinema, Carlos Scliar. Com tema e direção desse jovem artista, fotografia de Ruy Santos, o film não conta uma história, apresenta somente um ambiente com seus elementos e as pessoas que nele vivem – os pintores Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes”.
Por essas informações, Escadas era um filme preocupado com as imagens e não com uma história, embora o filme tivesse, como diz o pequeno texto, um “tema”. A ênfase nas imagens como suporte principal fica evidente com o espaço de diagramação na página de ACena Muda, dispondo as quatro fotografias – altamente expressivas – sobrepostas umas às outras.
A primeira fotografia, no canto superior direito, é enigmática. Ao que parece é uma fotografia dentro da fotografia ou seja, um big close-up de uma boca de homem, tocando uma flauta, superposta numa parede de um longo corredor. O big close da boca lembra de imediato o big close-up no início de Cidadão Kane, quando o personagem-título pronuncia a palavra mítico-cinematográfica “rosebud”.
A fotografia seguinte também lembra uma imagem do início do filme de Orson Welles, que Carlos tinha visto em 1941, com grades filmadas em contraplongée, sombreadas.
A terceira foto mostra o interior do ateliê de Arpad, confirmado por Carlos quando lhe mostrei a página de A Cena Muda. Ele me disse que a casa, onde moravam Arpad e Maria Helena, tinha espaço para que cada um dos artistas tivesse o seu próprio ateliê. A fotografia mostra o ateliê de Arpad, com duas telas suas, sendo que uma delas, a que está embaixo da tela com os copos de leite, é um retrato que Arpad fez de Maria Helena. Esta terceira foto com o retrato pintado introduz a quarta e última fotografia em plongée, com Maria Helena subindo uma escada, que parece ser de um porão.
Esse “ambiente” tratava-se do ateliê dos artistas, no Silvestre, em Santa Teresa. O título do filme surgiu de urna observação de Carlos: “Para chegar no ateliê deles, tinha escadas pra burro”. Pelas fotografias, Escadas não apresentava um tema único, mas vários: o espaço, a convivência, os objetos, valor do documentário, preocupação com linguagem cinematográfica.
Na época, o filme foi exibido como complemento de longa-metragem. Carlos conta que o filme era vaiado nos cinemas, mas, por outro lado, revela: “Ganhei amigos depois do filme. Gastal assistiu em Pelotas e sempre, curiosamente, vinculou o meu nome mais ao cinema do que às plásticas. Outro que assistiu foi o Valêncio Xávier, quando era um guri, e sempre quis me conhecer, até que um dia nos conhecemos e somos amigos até hoje”.
A produção foi de João Tinoco de Freitas, recentemente falecido, que trabalhava no Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo, onde também trabalhava Ruy Santos. A montagem foi realizada pelo próprio Carlos. Ele recorda que a música de fundo era de um disco de Manuel De Falla e a narração de Sady Cabral sobre um texto de Rubem Navarra. Para uma edição posterior, em Paris, Cláudio Santoro compôs uma partitura especial, executada ao piano por Arnaldo Estrela.
Ainda, em agosto de 1944, mesmo mês da publicação em A Cena Muda, Carlos embarcou para a Itália, permanecendo ali como recruta da FEB até julho de 1945. Retorna ao Rio, mas em 1947, em companhia de Helena Vieira da Silva, volta para a Europa, estabelecendo- se em Paris, onde fica até 1950. Carlos localizou o copião de Escadas com Arpad, trazendo para o Brasil para fazer uma nova cópia. O material foi mandado para o laboratório junto com os negativos de Vento norte, de Salomão Scliar. O laboratório, por um problema técnico, acabou danificando o copião de Escadas.
Outro entusiasta do filme foi o seu amigo Paulo Emílio. Carlos relembra: “Como o filme teve uma exibição num circuito amplo, o Paulo Emílio sempre teve esperanças de que alguém tivesse guardado uma cópia e que um dia esta cópia apareceria”. Ao que parece, as quatro fotografias na página de A Cena Muda e uma outra série de fotografias pertencentes a Carlos Scliar são hoje o que resta das imagens de Escadas.
Nota
1 (1916-1977), principalmente através de Humberto Mauro, Cataguases, Cinearte São Paulo, Perspectiva, 1974 e Cinema: trajetória no subdesenvolvimento, Rio de Janeiro, Paz e Terra / Embrafilme, 1980.
Carlos Scliar: filmografia
1943 - Segall, de Ruy Santos (texto)
1944 - Escadas, de Carlos Scliar (direção, montagem, texto)
1946 - 24 anos de luta, de Ruy Santos (desenhos)
1957 - Rio, zona norte, de Nelson Pereira dos Santos (criação do
cartaz)
1975 - A cartomante, de Marcos Farias (criação dos créditos)
Glênio Nicola Póvoas
Professor pesquisador de cinema
Jornal do MARGS, nº 58, junho de 2000
MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
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