Selecta do Museu

Analítica - Persona

Ernst Zeuner

 

Um artista gráfico

 

Ernst Zeuner, nascido em Zwikau a 13 de agosto de 1895, desde cedo demonstrou tendência para a arte, tendo pintado seu auto-retrato aos 15 anos de idade.

 

Cursou e formou-se pela Academia de Artes Gráficas de Leipzig. Terminada a Primeira Guerra Mundial, da qual participou nos serviços de intendência, resolveu vir ao Brasil em virtude das dificuldades que passava, conseqüência da alta inflação alemã.

 

Estabeleceu-se em Porto Alegre e, em 22 de outubro de 1922, foi contratado pela Livraria do Globo, como responsável pelo atelier de artes gráficas, onde trabalharia por 38 anos.

 

Durante sua vida profissional teve as mais variadas incumbências, desde o desenho de cartazes para loteria, selos de impostos, bônus, desenhos técnicos, cartões, calendários e ilustrações para enciclopédias. Desenhou a capa do primeiro livro de Erico Verissimo, Viagem à aurora do mundo, e de As aventuras de Tibicuera, este premiado pelo Ministério da Educação e Cultura.

 

Nessa diversidade de tarefas, cada uma exigindo um tratamento, uma técnica diferente, encontramos a versatilidade e a capacidade criadora deste artista gráfico.

 

Zeuner era muito procurado para executar trabalhos particulares, como por exemplo, desenhar órgãos do corpo humano para um professor da Faculdade de Medicina, o que o deixava um tanto perturbado, pois era muito sensível, e jamais podia ver sangue. Fazia também trabalhos para as Indústrias Neugebauer, como desenho de embalagens para ovos de Páscoa e chocolates. É seu o desenho do chocolate Estância Velha.

 

Teve destacado papel no desenvolvimento das artes gráficas no Rio Grande do Sul. Formou na Livraria do Globo uma verdadeira escola de artistas. Passaram por suas mãos nomes como: Edgar Koetz, João Mottini, Vitorio Gheno, João Fahrion, João Faria Viana, entre outros conhecidos no Brasil e exterior. Era um homem reservado, prestativo, cumpridor de seus deveres, exigente no seu trabalho. Tudo para ele tinha que ser perfeito. Desde o mais simples ao mais complexo desenho, executava-o com carinho, detalhe por detalhe.

 

Jamais interferia na criação dos artistas que com ele trabalhavam, apenas ensinava as técnicas, orientava, aconselhava, sugeria. Segundo ele, não criou nenhum artista, apenas encaminhou talentos, que vinham as suas mãos, com seriedade para que eles, cientes de si mesmos se realizassem artisticamente. Era um grande admirador da natureza. Aposentado e residindo em Triunfo, ficavas horas a observar um carreiro de formigas ou o desenvolvimento de suas árvores frutíferas.

 

Mas, o que mais o comovia era a hora do crepúsculo, pois trazia-lhe recordações de sua terra natal Zwikau.

 

As noites eram reservadas à leitura e à música clássica. Foi nessa época, já aposentado, que executou os trabalhos para a Revista do Ensino.

 

Esta mostra promovida pelo MARGS teve por objetivo resgatar o passado didático de Ernst Zeuner, trazendo ao conhecimento do público a importância que teve a sua contribuição inestimável ao desenvolvimento das artes gráficas e à formação de outros artistas.

 

Ruth Zeuner Pereira (filha do artista)
Boletim Informativo do MARGS,
nº 21, jun/jul de 1984

 

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A arte de iluminar

 

A maior referência para a ilustração, no Rio Grande do Sul, continua sendo o grupo de artistas que atuou na Livraria do Globo, principalmente à frente da Revista do Globo, a partir de 1928. No comando deste ilustre grupo estava o artista gráfico alemão Ernst Zeuner.

 

Zeuner (1895-1967) veio da Alemanha em 1922. Havia cursado a Academia de Artes Gráficas de Leipzig e considerava-se um mero gráfico. Conforme Carlos Scarinci, em A gravura no Rio Grande do Sul, ele “aplicou sua habilidade na iniciação de um grupo de jovens nos segredos das artes gráficas sem reivindicar destaque ou mesmo pretender mais do que um exercício honesto e correto da profissão. (...) Zeuner soube permitir que os desenhistas sob sua chefia desenvolvessem cada um o próprio caminho”. E sob sua chefia estavam alguns dos grandes nomes das artes do Estado, entre os quais podemos citar Vitório Gheno, Edgar Koetz e João Fahrion. Mas essa história começa antes...

 

É em Les origines de la peinture moderniste au Rio Grande do Sul - Brésil que Maria Lucia Kern nos conta uma parte dessa história, que se inicia nas revistas literárias que agregavam em torno de si um grande grupo de artistas (escritores, pintores e ilustradores). Assim ficamos sabendo da existência de artistas que se dedicavam à ilustração em periódicos como a Revista Máscara, fundada em 1918, e que tinha como colaboradores Francis Pelichek, Fernando Corona, Augusto Luiz de Freitas, Angelo Guido, Hélios Seelinger (este um carioca que aportou e permaneceu aqui de 1924 a 1925), Sotero Cosme e Sobragil Carolo. Depois da Máscara (da qual o Museu de Comunicação Hipólito José da Costa tem exemplares em seu acervo) vem Madrugada, criada em setembro de 1926. Esta apresentava na publicidade e na ilustração “um caráter modernista” semelhante àquela da revista Klaxon, publicada pelos modernistas em São Paulo. Trabalharam na Madrugada Sotero Cosme e João Fahrion, que depois vão atuar na página literária do Diário de Notícias. Em 1928, o mesmo grupo vai criar, por sugestão de Getúlio Vargas (então Presidente do Estado), a Revista do Globo, que tinha por objetivo “constituir uma ponte entre o Rio Grande e o resto do mundo”, nas palavras de seu diretor Mansueto Bernardi. É nessa revista que vai se dar uma efetiva modernização do pensamento artístico do Estado. Mas a história continua tanto para frente quanto para trás.

 

Se olharmos para trás saberemos de um grupo litógrafos que atuou no Estado no século XIX, ilustrando jornais como A Sentinela do Sul e tendo como artistas o Conde Von Chanac, Inácio Weingärtner e Joaquim Samarach.

 

À frente continuamos com a Livraria do Globo e suas obras com capas e ilustrações primorosamente executadas por gente do porte de Fahrion, Koetz e Gastão Hoffstetter e também, nos anos 50, as capas da jovem Clara Pechansky. Outro grupo ótimo é o da revista Horizonte, onde atuam Carlos Scliar, Vasco Prado e Danúbio Gonçalves, entre outros. Esta produção tem continuidade em anos recentes como no jornal O Continente, que abriu espaço para um grupo muito grande de artistas.

 

Algo dessa memória tem sido resgatada em algumas mostras, como a de Edgar Koetz, com curadoria de Ana Carvalho, e a dos ilustradores da Livraria do Globo, com curadoria de Renato Rosa. É muito pouco, se considerarmostamanho e a qualidade da produção gráfica entre nós. Mas este texto era para falar da obra de Ernst Zeuner, da qual o acervo do MARGS possui vários exemplares. Exibidas várias vezes, essas ilustrações foram feitas para a Revista do Ensino e atendem, portanto, à necessidade de textos educativos. Mas sua qualidade, sua inventividade e sua beleza lhes dão autonomia. Podemos olhá-las hoje, principalmente algumas, como exemplares primorosos de pintura, todas com uma qualidade técnica insuperável e algumas com um humor e inventividade ímpares.

 

É um belo exemplo de uma área pouco valorizada e tão difícil, que exige, além de habilidade técnica e talento, uma capacidade de deslocar-se de si e pôr-se a serviço de outros, tornando visível o que está em palavras e, mais importante, ainda, possibilitando o vôoda imaginação a partir da sugestão da escritura.

 

Às vezes penso que a nomenclatura que usamos para as ilustrações em textos manuscritos é mais justa do que a que usamos hoje. Chamam-se iluminuras as ilustrações dos textos e é exatamente isso que um bom ilustrador ou capista faz: ilumina o texto.

 

Paulo Gomes, artista plástico e professor
Jornal do MARGS,
nº 52, novembro de 1999.

 

Analítica: Persona

MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
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