Selecta do Museu

Entre-falas: Artistas

Carlos Petrucci

 

Retratos do tempo e da solidão

 

Carlos Alberto Petrucci completa 80 anos no próximo dia 23 de outubro. Pelotense, registrado em cartório dois dias depois, cumpriu a vocação artística da família materna. Os tios eram músicos, o avô fabricava violinos e ritmava no piano o movimento do cinema mudo. Dividido entre a segurança da carreira de funcionário público, no mesmo cargo que Iberê Camargo deixou na Secretaria de Obras, e as inquietações de um pintor rigoroso, Petrucci repassa para o Jornal do MARGS essa história, os impasses e a solidão de seus retratos realistas.

 

O início

Não houve nenhum acontecimento especial que me levasse para o lado das artes plásticas. Sempre desenhei como qualquer criança. Quando deixei o ginásio, em função de dificuldades financeiras da família, me empreguei numa companhia de seguros. O chefe foi meu primeiro cliente, comprou meu primeiro quadro, feito aos 15 anos. Era um nu copiado de cartão postal estrangeiro, sempre trabalhei com nus. Acho que através do nu feminino a gente pode expressar tudo. Não há nada mais lindo do que o corpo feminino. São gestos, atitudes... expressam qualquer sentimento. Meu chefe me mandou fazer o curso de desenho com Adail Bento Costa, desenho acadêmico. Acho que foi útil, ensina a gente a enxergar. Em 38, vim para Porto Alegre empregado numa empresa de publicidade. Trabalhei quatro anos e depois passei para o emprego público. Estava convencido de que precisava ter uma renda mensal segura para sustentar a família, meu pai havia morrido. Eu pintava painéis, os letreiros e as figuras eram pintados direto na placa de ferro.

 

Retratos

Com o emprego público, reorganizei meu tempo. Pintava de manhã e à noite. No início, me interessava muito por retratos. O Retrato de Maria Moritz que está no MARGS talvez seja o meu retrato mais clássico. É a maneira de pintar com o maior objetivismo possível, sem audácias. O retrato bem pintado é muito mais parecido com o modelo do que uma fotografia. Uma fotografia é uma fração de milímetro de uma personalidade. Uma pintura são muitas horas de convivência, em que se pode conhecer o modelo por fora e por dentro. Pintei o Lewgoy numa única sessão, fazíamos parte da mesma turma. Era uma pessoa muito interessante, brincalhão. O retrato do P. F. Gastal segue o mesmo estilo, com pinceladas mais soltas, mais impressionista. Os retratos sempre me interessaram muito porque não há nada mais impressionante do que as pessoas . Fiz um retrato de uma moça que, em 1948, tinha uns vinte anos. Foi uma das minhas paixões. Ela ia muito na casa do Guilhermino César, que dirigia o Teatro do Estudante, e eu fazia cenários. Ela era muito bonita.

 

Auto-retrato

Fiz muitos auto-retratos, até pela falta de modelos. Todo o quadro é o retrato do autor. Todas as coisas passam pelo seu cérebro e vão para a tela. Estou em todas as minhas pinturas. Meu trabalho é sempre muito bem acabado, rigoroso na técnica. A parte pela qual nós pintores somos realmente responsáveis é a técnica na qual podemos nos aprimorar até o máximo. Talento ninguém sabe se tem.

 

Abstração

Foi a época em que todo mundo lia ficção-científica. Isso me influenciou muito a fazer quadros abstratos, mas todos tinham algum sentido, alguma idéia. Todos os artistas experimentavam o abstrato. Não sou um pintor coerente, que começou a fazer uma coisa e seguiu passo a passo. Eu faço uma série, quando ela se esgota, faço outra coisa.

 

A cidade vazia

Quando me desinteressei pela abstração, eu pensei em simplesmente reproduzir a natureza sem a preocupação de expressá-la. Foi assim que entrei no realismo absoluto dos prédios antigos. Há um silêncio, há uma solidão, o tempo parece que parou, tiro automóveis, tiro pessoas, tiro cartazes, tiro tudo o que incomoda. Uma vez uma pessoa disse: “que estranho, não há nada errado”. Como é que vai ter algo errado se eu fiz coisa por coisa, tudoraciocinado. Não pode ter erro. Eu tenho receio que Porto Alegre se descaracterize completamente. Ainda há alguns recantos. Eu sou, até certo ponto, um saudosista. Acho que a vida já foi muito melhor do que hoje. Isso, naturalmente, é resultado da idade. Todo o velho tem a mania de dizer que no seu tempo era melhor, não é? Quando volto a Pelotas, fico tão triste: cidade suja, abandonada, não conservam os edifícios.

 

Chico Lisboa

Em 1938, foi fundada a Associação Chico Lisboa. Ninguém me conhecia, mas como eu fazia painéis, acabaram me chamando e me convidaram para participar da Chico. Mais tarde, nos anos 40, fui presidente da Associação. Fazíamos salões todos os anos com dinheiro conseguido dos bancos. Nos anos 40, alguns integrantes da Chico resolveram fazer uma exposição para desmoralizar a arte moderna. Aceitei o convite ingenuamente, sem saber a intenção do salão. Naquela época, o Getúlio também estava em cima do muro.As pessoas estavam em dúvida. Eu não era politizado, fui politizado pelo Vasco, que era comunista. Fiquei fã do Luiz Carlos Prestes. Pintei um enorme retrato de cinco metros de altura para o comício que ele fez na Redenção, assim que saiu da cadeia, em 1945. Esse salão era um arremedo do salão feito pelos fascistas na Alemanha, de arte degenerada. Pintei um quadro surrealista, na linha de Salvador Dali, só para ser moderno e participar do salão. Quando saiu o manifesto com todos aqueles chavões fascistas, fiquei apavorado de ter participado de algo com que eu não concordava. Tanto que dei uma entrevista à Revista do Globo esclarecendo a minha participação ingênua e a minha desastrada estréia. Para fascista, não sirvo.

 

Pancetti

Tenho até um Pancetti feito por mim. O escritor Marques Rebello trouxe à cidade, pela primeira vez, pintores de alto nível como Portinari. No fim da exposição, ganhei um Pancetti. Tive que vendê-lo quando comprei esse apartamento e fiquei com medo de morrer de saudades. Fiz uma cópia idêntica em outro material. Ficou pronto numa manhã. Tenho que colocar minha assinatura ali.

 

Jornal do MARGS,
nº 50, setembro de 1999

 

Entre-falas: Artistas

MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
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