Analítica - Persona
O jogo sinfônico de Arthur Piza
Acostumados a associar figuras geométricas a rigidez e equações matemáticas, podemos surpreender-nos com Arthur Piza e sua maneira de sujeitar triângulos, boxs e retângulos a ritmos orgânicos por definição opostos ao cerebralismo frio, transformando-os em elementos capazes de revelar não somente sensações, mas também emoções. Observe-se atentamente, por exemplo, a peça A88, de 1995. Aqui, losangos e trapézios, a despeito de suas pequenas dimensões, revoltam-se contra o suporte que os mantinha presos a duas dimensões e buscam cada qual sua direção, estraçalhando-o no ímpeto de sua fuga, numa verdadeira explosão à qual só falta o som. Metáfora consciente ou inconsciente, talvez, mas algo que nos impele interiormente – definição por excelência da melhor arte.
Na poesia visual de Piza, as formas geométricas assumem as funções das palavras na poesia concreta: a materialidade daquelas geram significados, como nesta o sentido das palavras une-se ao significado da forma.
Confirmando sua íntima ligação com o universo poético, Piza, em algumas oportunidades, não resistiu à possibilidade de somar ao impacto visual de sua obra o significado de um título. Foi assim na exposição quetivemos a oportunidade de apreciar aqui em Porto Alegre, em 1989, quando Piza falou de suas criações. Peças daquela época, que podem ser revistas agora no MARGS junto a outras mais recentes, traziam nomes sugestivos como Partículas em liberdade, Pequeno cataclisma ou Queda inexorável. Sem dúvida entra aí uma pequena concessão ao gosto francês pelo jogo de palavras, uma vez que as peças em questão provinham de mostras realizadas em Paris. Contudo, são títulos que vão além da mera descrição/identificação.
A obra de Piza tem raízes no prazer da criação, e esta origem lúdica perpassa-a em todas as linguagens escolhidas. O próprio artista declarou certa vez que seus “elementos-alfinetes montam jogos de influências e, quando se transformam em um só elemento, está terminado o jogo”. Para expressar esta pulsão vital, Piza se vale de recursos sempre econômicos, mas extremamente eficazes. Assim, na maior parte das vezes, suas figuras geométricas não resistiriam à prova do esquadro e do transferidor de ângulos: elas trazem em si o caráter de rebeldia da linha sutilmente curva ou levemente quebrada, capaz de transmitir um caráter de “imperfeição” que é condição mesma dos seres animados e desta trajetória a que chamamos vida.
Um segundo recurso é aplicado quando as peças são, realmente, geométricas: neste caso, sua exatidão individual pode se diluir diante da nova forma composta pelo conjunto. É esta, e não seus elementos constitutivos, que elabora um traçado tortuoso, que se amontoa no centro do suporte como se temesse uma agressão, ou que se libera tranqüilamente em ritmos ondulantes. Diante da beleza do rodo resultante, esquecemos das pecinhas que o compõem, como não atentamos para as notas isoladas de uma sinfonia. Piza nos mostra o movimento do motor e onde ele nos leva, sem necessariamente destacar o papel de cada engrenagem.
O repertório de recursos do artista inclui ainda o uso controlado da cor. Ela vem conferir individualidade, para não dizer personalidade, a cada elemento. Não por acaso, geralmente estes deixam de ser tão numerosos quanto em outras peças. Piza aponta para a multidão uma lente zoom e observa um grupo reduzido de suas figuras. Agora, trata-se das relações dentro de um microcosmo. Vistos assim, os elementos parecem menos ordenados, mas influem mais uns sobre os outros. Aqui, não é somente a sombra de um relevo que afeta o outro, mas é a própria sobreposição cromática que se une à física para determinar o comportamento de todo o tecido.
Coerente, Piza dá continuidade à poesia e musicalidade das gravuras que o revelaram há 50 anos em seus relevos, que convidam muitas vezes ao toque de maneira quase sensual. Nestes, porém, as formas geométricas parecem ter adquirido “consciência” de sua existência e se apoderado de seu destino. Abstratos, no sentido legítimo da palavra, que não é a mera oposição ao figurativo, mas sim a capacidade de gerar pensamentos e emoções – os relevos de Piza se completam no íntimo de cada observador, criando sensações como de paz e aconchego, de agressividade, de isolamento e solidão, de harmonia ou de desencontro, de alegre desordem, ou simplesmente representando uma revoada rumo ao desconhecido.
Biografia do artista
O MARGS recebeu, entre 10 de outubro e 17 de novembro de 2002, a retrospectiva de Arthur Luiz Piza. A mostra traz 142 obras em esculturas, relevos, aquarelas em papel, madeira e gesso, além de uma pequena série em porcelana. Nascido em São Paulo em 1928, Piza está radicado em Paris desde a década de 50, fato que o consagrou como um dos mais notáveis representantes da arte brasileira no circuito internacional. A vinda desse conjunto de obras produzidas entre 1958 e 2002 ao MARGS faz parte de um intercâmbio firmado entre o MARGS e a Pinacoteca do Estado de São Paulo. Em cartaz na instituição paulista entre agosto e setembro, a mostra atraiu uma média de mil pessoas por dia.
Eunice Gruman
Jornalista
Jornal do MARGS, nº 84, outubro de 2002
MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
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