Selecta do Museu

Analítica - Persona

Ado Malagoli

 

O olhar de Ruth sobre Malagoli

 

Dona Ruth é uma senhora do MARGS. Está sempre no Museu, que viu nascer ao lado do marido, o artista Ado Malagoli. Em setembro, Dona Ruth foi para o auditório falar sobre o que conhece com intimidade: a vida e a obra do fundador do MARGS, paulista que se radicou no sul e deixou sua marca pessoal na formação de gerações de pintores gaúchos, ajudando também na institucionalização do sistema artístico. A fala da esposa está cuidadosamente anotada num caderno que poderia ser comprado por uma jovem adolescente. Selecionamos aqui algumas passagens do olhar de Ruth sobre Malagoli.

 

Conheci Malagoli em 1947, na Sociedade Brasileira de Belas Artes, onde eu costumava ir à noite, após meu trabalho, desenhar modelo vivo. Aluna da ENBA, freqüentava essa disciplina por apenas meia-hora, meu espaço para lanche. No ano seguinte nos casamos.

 

Fomos morar em um JK que o Ado havia adquirido para sua residência-ateliê; em Copacabana. Malagoli, na época, residia num casarão-ateliê cedido por um amigo, na Tijuca, distante 40 minutos de ônibus direto. Era preciso viver e pagar a dívida imobiliária (o apartamento não estava quitado). Portanto, além de trabalhar como funcionária pública, necessitava desempenhar todas as tarefas do lar. Era um tempo bom e feliz, o início de uma bem-sucedida vida a dois.

 

Malagoli era um boêmio, mas um boêmio sadio. Sua boêmia consistia em freqüentar cafés onde se reunia o mundo intelectual e artístico. Era amigo de todos e mantinha um relacionamento fraternal com Olegário Mariano, poeta muito em evidência na época, um mecenas que lhe adquiriu vários quadros. Gaúcho, Vermelhinho e Amarelinho eram cafés habitualmente freqüentados por eIe.

 

No Gaúcho se reuniam artistas plásticos. No Vermelhinho, o público era heterogêneo: alunos da ENBA, arquitetos (naquele tempo não havia faculdade de arquitetura, que constituía um ramo das Belas Artes e pertencia à ENBA), gente de teatro, críticos de arte, escritores, alguns em início de carreira, como Antônio Olinto, que mais tarde seria o nosso adido cultural na Embaixada do Brasil em Londres, gente famosa como Celso Kelly e Antônio Bento, os mais conceituados críticos de arte da época, a gaúcha Luiza Barreto Leite, em grande evidência no teatro, Ruth de Souza, já em ascensão. Havia pessoas como o respeitado Abdias, de grande cultura, criador e grande incentivador do Teatro Experimental do Negro, que era teatro de laboratório, e também Djanira. Enfim, era um caldeirão de pessoas de alto nível. Naquela época, eu já freqüentava o Vermelhinho, aluna que era da ENBA. O Amarelinho era mais elitizado. Lá se reuniam escritores já de maior nome.

 

O consumo exigido era mínimo. No Vermelhinho e no Gaúcho, bastava um café. No Vermelhinho, seguidamente se conseguiam entradas para espetáculos teatrais de categoria, até mesmo para o Teatro Municipal (categoria torrinhas, é claro). Com entradas distribuídas por um ex-aluno da ENBA, fui assistir a Vestido de noiva, de Nelson Rodrigues, na sua temporada de estréia.

 

Malagoli era também bastante aventureiro. Certa vez, engajou-se num grupo que trabalhava numa estrada de rodagem, junto com dois colegas, para viver no mato. Mas, não acostumado a serviços pesados, não agüentou o ritmo e teve de ser devolvido ao lar, pois havia ficado com as mãos em chagas.

 

Malagoli gostava de trabalhar em grupo. Assim, em 1949, dividia seu ateliê na rua da Quitanda, no Rio de Janeiro, com Glauco Rodrigues, Noemi, pintora carioca, nessa época noiva do desenhista gaúcho Paulo Flores, a quem desposaria mais tarde, Darel Valença e Misabel Pedrosa. Por lá, apareciam, de vez em quando, Christina Balbão e outros gaúchos. Foi nesse ateliê que Malagoli pintou o quadro Por quê?, contemplado com o Prêmio de Viagem pelo País, no Salão de 1949.

 

Seu grande aprendizado no metier ele teve em São Paulo com o professor Enrico Vio, segundo o qual, apagar e desenhar de novo não era honroso. Procurava ele, desse jeito, fazer com que o discípulo desenvolvesse o domínio completo da mão e a perfeição do golpe de vista. “Aprendi muita coisa com ele, como jogar uma figura de qualquer jeito”, dizia Malagoli.

 

Malagoli era um grande técnico. Conhecia profundamente o que os artistas chamam a “cozinha da pintura”. Em atividade no Instituto de Artes, a partir de 1952, promoveu uma verdadeira revolução no ensino da pintura que, como em todas ou quase todas as escolas de arte, era feito em bases bastante acadêmicas. Sofreu, com esse seu procedimento, a reprovação dos pais dos alunos, que afirmavam o prejuízo dos filhos, dizendo que eles estavam desaprendendo a pintar.

 

Acostumados com a reprodução fiel do objeto, Malagoli soltou as amarras dos alunos, fazendo-os criar e, assim, surgiram trabalhos pessoais, diferentes uns dos outros, onde cada um tinha o ensejo de mostrar sua personalidade, sua maneira de ver as coisas.

 

No Rio de Janeiro, introduziu nas suas aulas um sistema de debates que se tornou famoso na época. Cada aluno expunha sua obra e os demais faziam todo o tipo de crítica. Os encontros se davam aos sábados, à tarde, e atraíam grande afluência de público (...) Foi essa espécie de aula polêmica e com a participação plena dos alunos que ele trouxe para o IBA em 1952.

 

“Eu não corrigia quadrinhos”, dizia, “isso nada tem que ver com a pintura”. Tratava-se de uma experiência inovadora, e ele enfrentou muita resistência, inclusive da parte de alguns colegas. O ensino da arte, naquele tempo, ainda era bastante acadêmico e rígido, o que afastava os alunos e tornava pouco atrativas as aulas. Malagoli tornou-as agradáveis e flexíveis e desenvolveu nos alunos o espírito crítico. Alguns professores costumavam dizer: “aproveitem para aprender aqui, porque lá em cima (as aulas de Malagoli eram dadas no último andar) vocês não irão aprender nada”. Porém os alunos se entusiasmavam com esse tipo de ensinamento e se tornavam seus amigos. Vários deles se encontram, hoje, entre os principais artistas gaúchos contemporâneos.

 

Dotado de grande conhecimento técnico, que se empenhava em passar aos alunos e fazê-los compreender a sua importância, entendia ser necessário que os alunos gozassem de liberdade de expressão, cada um de acordo com a sua personalidade. O professor, para ele, era apenas um orientador, um mentor intelectual.

 

Em 1989, Malagoli já estava muito doente. Foi operado, com certa urgência, de um câncer. Daí por diante, nada mais se pôde esperar dele. Caiu numa prostração, foi atacado por esclerose cerebral e uma isquemia, também cerebral, que o tornaram incapaz de permanecer no lar. Fugia de casa, desmaiava nas ruas, perdia o rumo. Foi mister interná-lo numa clínica geriátrica. Esteve em duas delas, num período de quatro anos. Voltou à casa em conseqüência do estado que se agravara, e foi obrigado a guardar o leito, por dois anos. Veio
a falecer em 4 de março de 1994.

 

Ruth Malagoli
Jornal do MARGS,
nº 62, outubro de 2000

 

Analítica: Persona

MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
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