Transversais
Logo à entrada, o painel é imponente: a anfitriã, amantíssimo ser suspenso entre dois mundos, hipnotiza aqueles que chegam. Repare bem o visitante, porque não há, como diria a centenária poeta, fundos de floresta nem de arbitrária fantasia. Não, tudo ao contrário: ali, emoldurando a Dama, há apenas a austeridade neutra, e necessária, de um ambiente interior – digamos, uma pinacoteca. Aproxime-se o visitante, a essas alturas certamente refém do feitiço, e veja a minúcia disfarçada, molduras em imagens varridas e entregues à imaginação. A luz, na qual adejam mistérios, se concentra na figura de branco, e é ela, a Dama, que fulgura com justiça e com direito. Antebraço apoiado, a mão direita prende luva e sombrinha; a mão esquerda, enluvada, arrepanha a saia, deixando à mostra a ponta do pé protegida por couro castanho. Coqueteria faceira, reforçada pelos matizes arrancados ao branco – como se se pudesse matizar a cor absoluta, reunião de todas as outras. Agora, o rosto, ensombrecido pela aba do chapéu, entrega- se em faces coradas e expressão grácil; um bosquejo de sorriso, que se doa sem se revelar. A ruga junto à comissura dos lábios é o vinco de um tempo passado – há nela um certo ar de sabedoria brejeira e perpétua. Mangas fofas, seios fartos, curvas de corpo insinuadas pelo movimento fluido do pincel, que repete a sinuosidade do tecido. A cintura se afina, deixando que se adivinhe a fartura das carnes, das pernas e das nádegas. Repousa, hospitaleira, a Dama de Branco, num momento capturado ao próprio tempo, subtraído ao incessante fugir das horas. Ela, ali, dona do espaço do próprio quadro e do entorno, miolo de uma secreta existência conferida por tintas e vernizes, tempo congelado em linho e óleo, sentimento máximo do limite entre um mundo e outro. No amor que se estabelece entre artista e modelo, entre tela e espectador, cessou a máquina do mundo e todos os momentos se fizeram em leve pedra e em fugaz revelação. Superior, aquela mulher, como que se sabendo póstuma ao próprio instante em que o artista eterniza, como se pudesse ter a consciência das coisas que transcendem o estreito passeio entre as duas pontas da vida. Altiva em sua sabedoria, a Dama sabe que a arte é gerúndio, movimento que é sempre sendo. Cândida e belamente feminina, flutuando acima dos limites do humano, a Dama entrega-se ao visitante que é, no tempo, seu futuro e que se inclui, a cada visita, em seu passado e já em seu destino. O destino infinito e eterno de ser a bela anfitriã e amorável dona de casa.
Cíntia Moscovich
Escritora
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Arthur Timótheo da Costa
Arthur Timotheo da Costa (1882-1923) é o autor da Dama de branco, um dos quadros mais populares do MARGS. Cenógrafo, integrou a Escola Nacional de Belas Artes num importante período formativo das nossas artes visuais. Dedicou-se ao retrato e à paisagem dentro dos cânones acadêmicos, mas sensível à luminosidade impressionista. Morreu tragicamente no Hospício de Alienados no Rio de Janeiro, um ano depois da Semana de Arte Moderna. É considerado um dos artistas que buscou a pintura nacional.
Cíntia Moscovich
Cíntia Moscovich é jornalista e escritora, mestre em Letras. É autora das obras O reino das cebolas (1996), Duas iguais – Manual de amores e equívocos assemelhados (1998), Anotações durante o incêndio (2000). Faz parte da antologia Geração 90: manuscritos de computador, organizada por Nelson de Oliveira, e que reúne os 17 melhores contistas surgidos nos anos 90 no Brasil.
Jornal do MARGS nº 75, dezembro de 2001
MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
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90010-150 - Porto Alegre - RS - Brasil
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