Memória do Museu

Lembranças e envolvimento profissional

Anos 90 Um velho cruzar de caminhos

 

José Luiz do Amaral*

 

Lembro pouco do Museu na Salgado Filho; lembro mais da confeitaria da Lulu, do outro lado da rua, onde iam artistas, pessoal de teatro e quem mais gostasse de bom atendimento, boa música e bom papo. Não me agradava o jeito que o Margs tinha ali, preferia as exposições no Theatro São Pedro e no Mata-borrão. Talvez porque lá os tempos eram outros, menos marcados pela evidência dos descaminhos por onde, nos anos setenta, os sonhos iam dando em nada. Até que, no início dos oitenta, o Margs, reentrou em tom e ritmo mais decidido em minha vida e, certamente, na de muitos mais. Mas também nossas vidas iam entrando em compasso de retomada de coisas que haviam sido reprimidas.

 

Quando, em 1983, fui procurado pelo Britto Velho e pela Regina Ohlweiler com a proposta de que aceitasse uma indicação para a Direção do Museu, aquilo me pareceu loucura. E era realmente de algo fora dos parâmetros do momento que se tratava. Uma tomada de posição de artistas jovens que pretendiam mostrar que existiam e queriam ser ouvidos, mesmo sabendo que naqueles anos, que ainda eram de chumbo, estava bloqueado o caminho para qualquer participação vinda de fora dos mecanismos do poder. Se até o Prefeito era nomeado, sem ninguém ser ouvido, por que aconteceria de outro modo com o diretor do Museu? Mas é que o Margs era visto como algo nosso, de quem era do meio, um lugar onde ocorriam conversas, reuniões, debates e onde se aportava até para tomar um cafezinho ou ir ao banheiro. Afinal, ele não só fora criado por um artista, mas outros já o haviam dirigido. Talvez tenha sido esse sentimento que influenciou as adesões ao que já se ia tornando um movimento, com a participação de nomes como Ado Malagoli e Iberê Camargo. Mas felizmente para mim, que já começava a me assustar com as proporções que a coisa ia adquirindo, tudo não foi além da tomada de posição: como era de esperar, oGovernador não abriu mão de colocar alguém de sua confiança.

 

Desde aí, o Museu não cessou de se evidenciar no centro de debates e polêmicas. Logo, houve a discussão em torno ao Salão Caminhos do Desenho Brasileiro e, depois, o bate-boca gerado pelo 2º Encontro Nacional de Artistas Profissionais, em que Gilberto Salvador, de São Paulo, posicionou-se em desacordo com a Funarte e com a organização do evento. Era tempo de provocações e de esperanças na possibilidade da redemocratização, em que as artes no Sul tiveram ativa participação, culminando com o Movimento Artistas Pró-Diretas.

 

Depois, com a retomada da alternância no poder e com a criação, primeiro do Conselho de Desenvolvimento Cultural do Estado e, em seguida, da Secretaria da Cultura, entre 1987 e 1990, o Margs passou a se impor como nunca em minhas preocupações e atividades. Não só foi um dos palcos dos Encontros Latino-Americanos de Artes Plásticas que coordenei em 1988, 1989 e 1996, como foi em uma de suas salas que tive a satisfação de criar a Galeria João Fahrion, onde realizaram sua primeira exposição inúmeros artistas que hoje estão aí com carreira consolidada, como Marilice Corona, Gelson Radaeli, Miriam Tolpolar, Flávio Gonçalves, Cris Rocha, Richard John, Hamilton Coelho, Eduardo Haesbaert e muitos outros. Também no Museu ocorreram os panoramas da arte sulina de cuja organização participei em três governos diferentes: Arte Sul 89, Arte Sul 93 e Arte Sul 96.

 

Tudo isso, entretanto, talvez não tenha ocorrido senão na seqüência de um velho cruzar de caminhos iniciado nos anos cinqüenta. Desde muito cedo, fui sendo levado para o que naqueles tempos a cidade nos dizia de arte e de cultura. Ainda criança, ia com meu avô aos concertos no Araújo Viana, na Praça da Matriz e, com minha mãe, freqüentava as exposições na Casa das Molduras. Mal começava a adolescência e descobri os roteiros não só dos namoros na Rua da Praia, em frente ao Krahe, mas dos concertos e espetáculos no Theatro São Pedro. E, naturalmente, as exposições organizadas pelo Margs. No palco, Mirandolina, com Maria de La Costa, Maria Stuart, com Cleide Yaconis, Pega Fogo, com Cacilda Becker, Gulda, Pablo Casals e tantos outros; no foyer do teatro, nos intervalos, Vasco Prado, Iberê Camargo, Ângelo Guido e quantos mais. Lá estava o Museu. Um museu do qual uma das primeiras exposições fora muito comentada lá em casa porque reunira pinturas de um antigo vizinho que presenteara meu avô com uma paisagem que presidia nossas refeições, colocada sobre o grande rádio da sala de jantar: o Pedro Weingärtner.

 

Talvez venha daí a associação que sempre faço entre o Margs e o pintor. Coisa de sentimento, de emoção; embora me utilize da razão para encontrar relações entre a arquitetura eclética do prédio onde o Museu acabou por se consolidar e as experiências formais do artista, com o mesmo tom positivista do início do século 20 no Rio Grande. Relações também fáceis de se apontar entre o fato de a sociedade local ter-se visto pela primeira vez como centro produtor de arte nas obras de nosso ilustre conterrâneo, o pintor Pedro Weingärtner, como noticiava o Correio do Povo, e o fato de o Margs ter-se firmado como o nosso Museu no imaginário das artes sulinas.

* Técnico em assuntos culturais e funcionário do MARGS

Lembranças e envolvimento profissional

MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
Praça da Alfândega, s/n° - Centro
90010-150 - Porto Alegre - RS - Brasil
Fone (51) 3227-2311 - Fax (51) 3221-2646
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