Memória do Museu

Lembranças e envolvimento profissional

Anos 90 Um projeto museológico inspirado

 

José Albano Volkmer*

 

Vagas e esmaecidas são minhas primeiras lembranças sobre a criação do MARGS; reportam- se à primeira Feira do Livro e não propriamente sobre o ato de criação dessa nossa grande instituição da arte. Jovem secundarista, eu não tinha conhecimento e acesso às informações sobre a política cultural e ao debate público sobre as artes plásticas. Não despertara para o mundo da arte. A Feira do Livro, sim, chamou-me a atenção. Aos 12 anos, manusear livros escolares e folhear obras de autores da literatura rio-grandense foi um impacto enorme. Foi uma descoberta ouvir, junto às bancas da Feira, dentre gorgolejantes comentários dos visitantes, que se reuniam em grupos em torno dos cestos e das prateleiras de livros, referências sobre Darcy Azambuja e Simões Lopes Neto. Estes autores regionais abriram-me as portas para o mundo da literatura. Professores, estudantes, livreiros, políticos e amigos povoaram o imaginário juvenil dessa festa ou quermesse de livros em praça pública, tendo a Feira me despertado para os primeiros passos do conhecimento sobre a singularidade dos valores regionais.

 

A leitura, estimulada pelos livros da Feira, descortinou, aos poucos, um vasto campo de observações que alimentavam a curiosidade. Penetrar nesse universo da palavra escrita nos livros foi um impulso que abriu o caminho para desvendar a poesia, a história e a cultura do lugar e da região, em contraponto com os ensinamentos nas salas de aula, de visão eurocêntrica.

 

O interesse pela expressão literária se associou ao da expressão plástica, à medida que as ilustrações das lendas e dos contos gauchescos, pelos traços de Nelson Boeira Fäedrich, me arrebataram para a compreensão de um outro mundo das manifestações artísticas, iniciando pelos artistas locais. Pedro Weingärtner, José Lutzenberger, Fernando Corona, Nelson Jungbluth, Vasco Prado, Zorávia Bettiol, Xico Stockinger, Vera Chaves Barcellos, dentre tantos que tive a oportunidade de estudar e observar nas primeiras visitas ao foyer do Theatro São Pedro e na sede do Cottilon Club. As exposições cada vez mais freqüentes do MARGS ensinavam, através da observação e das leituras em esparsos textos de jornais, o desenvolvimento da sensibilidade para a percepção dos valores que os artistas comunicam sobre as suas interpretações da realidade. Mesmo jovem, aos poucos fui conhecendo muitos dos nossos artistas nas visitas ao atelier de Vasco Prado, ou nos vernissages das escassas Galerias.

 

No meu ponto de vista, o MARGS passou a granjear progressivamente reconhecimento a partir de sua transferência para o prédio da antiga Delegacia Fiscal do Ministério da Fazenda, onde hoje está sediado, junto à Praça da Alfândega. Com todos os problemas de manutenção do seu espaço físico e as adaptações iniciais para receber o acervo e implementar os seus projetos, foi a partir desse momento que o MARGS passou a se desenvolver e a adquirir condições para a construção de sua identidade e personalidade próprias.

 

O povo passou a perceber e a respeitar o MARGS no seu imaginário coletivo, no seu lugar de caráter monumental, reconhecendo, na sua presença material na Praça, a imaterialidade dos seus valores solidamente construídos pela postura política e cultural de crescente independência artística e de serena liderança dentre os diversos projetos museológicos da comunidade artística do Rio Grande do Sul.

 

O MARGS construiu o seu próprio perfil histórico e político e se insere no contexto das instituições culturais das Artes Plásticas do Estado e do país como um paradigma de reflexão e de indagação, como fonte de consulta e pesquisa, como inovação e respeito à história da arte, como instigante parceiro a se integrar ao diálogo e à colaboração com o acervo do Município de Porto Alegre, com outros museus, como o MAC-RS e os que começam a se firmar em diferentes cidades do Rio Grande do Sul. O ideal será no futuro a construção de uma rede sistêmica de museus de arte, distribuídos geograficamente, de forma a buscar sua inserção no contexto da cultura artística das comunidades regional, nacional e internacional.

 

Nessa dimensão, o MARGS, sem dúvida, cumpre um papel fundamental, na medida em que liderar e se integrar com as políticas culturais das instituições museológicas, no circuito das artes plásticas.

 

Durante o período da minha gestão na direção do MARGS, alguns fatos ocorreram, sobre os quais cabem alguns registros. Havia sido tomada a decisão de remanejamento do pessoal docente e técnico, cedido para o Museu, para a Secretaria de origem, ou seja, Secretaria da Educação. Foi aberto um concurso para novas admissões para o Quadro Técnico-Científico, mas levaria algum tempo para que o MARGS pudesse contar com uma equipe mínima e dar continuidade à sua política cultural. Nessa fase, portanto, o Museu contou com apenas sete funcionários, dentre auxiliares e técnicos.

 

Apesar dos enormes esforços desenvolvidos nas gestões anteriores, que realizaram um excelente trabalho, inclusive com a implementação, em etapas, do projeto de arquitetura que previa a sua adaptação mais adequada para as funções museológicas, nos dias chuvosos enfrentávamos as mesmas dificuldades com as infiltrações e problemas com as impermeabilizações. Chegamos a sugerir um concurso de instalações com baldes e espelhos d’água nos pisos. Face aos constrangimentos, foi possível realizar o projeto de recuperação e restauração, visando à adaptação do edifício, e encaminhá-lo ao Ministério da Cultura. As obras foram executadas na gestão seguinte, concretizando finalmente uma das mais importantes reformas que proporcionaram ao MARGS as condições adequadas ao funcionamento, inclusive com o condicionamento do ar, dentre as excelentes novas instalações.

 

Houve, também, no período de gestão, o patrocínio privado para a recuperação do torreão principal, a melhoria da Loja da AAMARGS, a implementação do primeiro bar, a criação de um jornal, do qual tivemos um primeiro número editado.

 

Procuramos sempre, durante a semana de aniversário do Museu, proporcionar atividades variadas, como concertos, palestras e reuniões de confraternização, para marcar a data tão cara à vida cultural de Porto Alegre.

 

* Arquiteto, professor universitário eex-diretor do MARGS

 

Lembranças e envolvimento profissional

MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
Praça da Alfândega, s/n° - Centro
90010-150 - Porto Alegre - RS - Brasil
Fone (51) 3227-2311 - Fax (51) 3221-2646
museu@margs.rs.gov.br