Memória do Museu

Lembranças e envolvimento profissional

Anos 80 Um museu com mais autonomia

 

Evelyn Berg Iochpe*

 

Minhas lembranças sobre a primeira sede do MARGS, no foyer do Theatro São Pedro, são, também, minhas reminiscências mais antigas sobre um assunto que veio a ser central no meu labor: arte-educação. Estava eu começando o Ginásio, no Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – constituído para ser um laboratório de pesquisas sobre educação – e nossa professora de artes, Maria Anita Linck, nos incentivava ao convívio com a arte, através da proposta de um Diário de Artes.

 

As galerias comerciais estavam em estado embrionário e nosso foco de visitação era mesmo o MARGS, aonde íamos de caderno em punho para registrar e depois exercer nosso espírito crítico em relação ao que tínhamos visto. Excetuando, talvez, as aulas de português, em que exercitávamos nosso beletrismo, não havia nada de que eu gostasse mais do que aquelas visitas silenciosas ao foyer, onde minha dimensão apenas humana e juvenil se ampliava, dando-me a sensação de participar do melhor que os corações e mentes de artistas talentosos haviam criado, integrando-me assim ao saber universal.

 

Uma exposição teve em mim especial impacto: Raimundo de Oliveira. Foi também este artista que, já adulta, pus-me a procurar em leilões que apontavam pela cidade.

 

Já na sede do Cotillon, minha memória coleta uma vivência da jornalista que eu era, responsável pelas entrevistas de domingo do jornal Correio do Povo, geralmente centradas em Cultura. O grande artista brasileiro Volpi inaugurava uma exposição no MARGS, e lá fui eu, de gravador em punho, para escutar o mestre das cores e tentar traduzir para o leitor um tanto da personalidade e das inquietações daquela figura humana. Entrevista inesquecível: Volpi ou não sabia ou não queria falar sobre sua obra. Meia dúzia de palavras vagas – foi tudo que extraí de sua boca. Foi a entrevista mais frustrante de minha história jornalística.

 

Terceiro tempo: a Associação de Artistas Plásticos Chico Lisboa me indica, em 82, para a direção do MARGS. Paulo Amorim, Diretor do Departamento de Assuntos Culturais da Secretaria de Educação, me convida, o Governador Jair Soares me nomeia. No dia da posse, passo por uma exposição de desenhos dos funcionários de uma secretaria de Estado, na grande sala de exposições do Museu. Naquele instante, tomei uma decisão: era preciso implantar uma política cultural que tivesse legitimidade perante a comunidade cultural do Estado, para que o MARGS – que não é coordenador de recursos – tivesse a independência de funcionar como um verdadeiro museu e não como um departamento governamental. Foram criados Conselhos de Acervo, de Exposições Temporárias e de Extensão, com figuras notáveis da comunidade cultural, sob a liderança insuspeita de Ado Malagoli. O Museu, que já funcionava em sua magnífica (e difícil) sede da Praça da Alfândega, foi ganhando autonomia e executando uma política escrita a muitas mãos.

 

Os funcionários, desmotivados por anos e anos de parcos recursos financeiros, em que nada parecia ser possível, já não se mostravam dispostos a desenhar planos. Quando finalmente resolveram ousar, viram muitos de seus projetos se realizarem.

 

O MARGS fez nascer exposições de relevo nacional como Chagall e a Bíblia, Iberê Camargo, Segall e o Judaísmo, Caminhos do Desenho Brasileiro e tantas outras. A Associação de Amigos do Museu assumiu a tarefa de realizar a monitoria, gerando um primeiro núcleo voluntário de educação. Criou-se o Núcleo Investigação, aberto por Regina Silveira, que mensalmente ofereceu espaço para novas linguagens. Um programa semanal de palestras e outro mensal de concertos, liderado por Eleazar de Carvalho na Pinacoteca, trouxeram novo público à instituição. O Boletim, que desde o início da vida do Museu tinha alcançado nove tiragens, chegou ao número 32. Foi um período de grande efervescência e muito trabalho, que me deu grande satisfação.

 

Os diretores que me sucederam levaram o MARGS a um patamar ainda mais elevado, construindo sobre esta história, num processo que tem feito com que o Museu se situe entre os de destaque no cenário nacional.

 

Espero que muitas crianças continuem chegando à imponente sala de exposições com seus caderninhos, para se arvorarem em críticos de arte e passarem a usufruir desse magnífico universo das artes, como apreciadores informados e analíticos. Afinal, hoje os museus sabem que, além de sua função de coleta, guarda e conservação, são equipamentos de comunicação e educação informal. Acredito profundamente que os museus possam ser as instituições humanizadoras das selvas de concreto em que as cidades se transformaram.

 

*Jornalista e ex-diretora do MARGS

 

Lembranças e envolvimento profissional

MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
Praça da Alfândega, s/n° - Centro
90010-150 - Porto Alegre - RS - Brasil
Fone (51) 3227-2311 - Fax (51) 3221-2646
museu@margs.rs.gov.br