Memória do Museu

Lembranças e envolvimento profissional

Anos 90 Um lugar privilegiado

 

Joana Mondadori*

 

Vim para o MARGS, para a sede atual, após a saída do diretor Luiz Inácio. Aqui já encontrei Christina Balbão que muito nos apoiou e com quem tive o prazer de conviver por muitos anos. É uma das detentoras da memória da instituição, pois esteve junto ao MARGS desde a sua criação.

 

Muitos funcionários permaneceram longo tempo no Museu e acompanharam carreiras de artistas em ascensão desde o início. Artistas já consagrados, além do contato profissional, tornaram-se nossos amigos e nos visitavam. Iberê era um deles. Vinha consultar a documentação do NDP (Núcleo de Documentação e Pesquisa), quando queria checar datas ou outros detalhes, depois complementou nosso acervo sobre si próprio doando-nos arquivos pessoais. Fui a primeira organizadora do material doado, mas tive auxílio das colegas, depois soube que a Beatriz Marodin catalogou e acondicionou em papel neutro esse material além de, com Christina Almeida, ter organizado o Guia de Fontes de Iberê Camargo no MARGS, aguardando publicação.**

 

O NDP, onde desenvolvi quase toda minha carreira funcional, recebia suas visitas ilustres e lembro-me de um dia em que Aldo Obino apareceu. Ele também havia nos doado extensa documentação sobre arte. O tempo estava muito frio, esperávamos a neve para qualquer momento. Ficamos muito preocupados com a volta de Aldo Obino para casa.

 

Pessoas sempre foram muito importantes para mim, e elas no ambiente do Museu tornavam tudo muito estimulante. O pessoal vivia a arte. Discutia-se sobre arte. Vinha-se com alegria para o trabalho. Havia muito a fazer. Aprendi muito com todos. Christina Balbão foi uma grande mestra.

 

Os funcionários eram incentivados a fazer cursos, como o de Especialização em Arte-Educação do Palestrina, o de Especialização em Museologia da PUC, eacompanhavam exposições fora daqui, em outros estados.

 

A sede do museu tem um aspecto imponente. As pessoas, à época, tinham até receio de entrar. Faltava-lhes o hábito de irem a museus desde pequenos. Faltava vivência. Vinham escolas e continuam vindo. A vivência da arte deve começar cedo. Lembro de uma exposição canadense que apresentou totens indígenas. Foi um sucesso entre os escolares.

 

Os lindos prédios da Praça da Alfândega atraíam a arte. Esse conjunto maravilhoso agora abriga o Memorial e o Santander Cultural, mas, antes disso, já imaginávamos o que há agora. Um sonho que se tornou realidade.

 

Os visitantes de fim de semana eram diferentes. Eram curiosos que estavam entrando no Museu quase por acaso. No início, os espaços para expor eram mais restritos. Havia salas com móveis e guardados dos antigos ocupantes que aos poucos foram sendo retirados e até doados para nosso uso. Herdamos arquivos, escrivaninhas, fichários. O cofre, logo após a mudança, estava ocupado e só veio a abrigar o acervo depois. As montagens de exposição eram feitas por mutirão, a profissionalização nesta área veio aos poucos. Havia uma sala exclusiva para tapeçaria, assim como as salas negras eram exclusivas da gravura.

 

Quem já trabalhou aqui, quando volta em visita, dá-se conta do quanto este lugar é privilegiado. Além de bonito, vê-se a arte renovar-se sempre. Talvez quem esteja aqui todos os dias não tenha isso presente, mas é realmente um lugar privilegiado.

 

* Historiógrafa e ex-funcionária do MARGS
** O acervo de documentos pessoais doados por Iberê, em 1984, estão sob a guarda da Fundação Iberê Camargo

 

Lembranças e envolvimento profissional

MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
Praça da Alfândega, s/n° - Centro
90010-150 - Porto Alegre - RS - Brasil
Fone (51) 3227-2311 - Fax (51) 3221-2646
museu@margs.rs.gov.br