Memória do Museu

Lembranças e envolvimento profissional

Anos 70 Os últimos tempos no foyer

 

Armando Almeida*

 

É gratificante, depois de tantos anos, poder, talvez, acrescentar alguma coisa à reconstituição da história do MARGS. Para mim, ser diretor do Museu foi difícil. Eu era muito jovem, já um profissional da Arte, mas não tinha vocação especial para dirigir um órgão de tanta expressão como era, e continua sendo, o MARGS. Eu era funcionário da Secretaria de Educação e Cultura, à qual o Museu estava subordinado, através do seu Departamento de Assuntos Culturais, dirigido, na época, pela professora Antonietta Barone.

 

Antônio Hohlfeldt era o diretor, mas foi transferido para outro órgão da Cultura, e eu fiquei em seu lugar. Então procurei dar continuidade ao trabalho dele, cumprindo a agenda que ele havia proposto. Depois, naturalmente, acrescentei novas exposições, após trocar idéias com o professor Malagoli.

 

No Museu, naquele tempo, constituíamos uma espécie de baluarte: éramos muito poucos e as dificuldades, imensas. Devo mencionar nomes que foram, nesse período, de grande importância para a instituição. Começo pela professora Christina Balbão, que deu dimensão especial ao trabalho desenvolvido. Havia mais quatro ou cinco funcionários, pessoas da época do professor Malagoli, pessoas fantásticas em termos de trabalho, de aptidão, de discernimento. Entre essas cito Maria Aparecida, Aparício, o irmão dele, Manoel Pedro da Rosa, Aristides, Maria da Roza e a filha, Célia. Posteriormente, vieram outros e entre eles Teniza Spinelli, jornalista, que fez um trabalho belíssimo de divulgação, Dr. Paulo Xavier, muito culto, inteligente, um verdadeiro mestre, e Flávio Rocha, que veio a ser diretor e também participou da transferência para a sede da Salgado Filho. Figura imprescindível era Cunha, o eletricista, tanto para o MARGS como para o próprio Theatro São Pedro.

 

Naquela época, em Porto Alegre, havia poucas galerias, muito atuantes, e alguns salões, um ou dois, mas mesmo assim era um lugar efervescente em termos de artes plásticas. Críticos não havia quase e, até hoje, são muito poucos. Mas tínhamos o professor Aldo Obino, pessoa admirável, sempre andava com um caderninho debaixo do braço e anotava tudo o que via e perguntava muito – até hoje ele carrega essa inquietação. Lembro, também, do professor Herbert Caro, do consulado alemão, de Scarinci, de Armindo Trevisan, de Ostermann e de alguns artistas que se manifestavam através de jornal, comentando exposições e eventos.

 

O MARGS já tinha tido diretores de alto gabarito como o professor Malagoli, Scarinci, Xico Stockinger. Scarinci fez um trabalho muito bom, devido ao seu conhecimento como crítico e o acesso que tinha aos diretores de outros museus de São Paulo e Rio de Janeiro. Então, para mim, dar continuidade a esses trabalhos foi difícil. Fiz o máximo possível dentro das condições recebidas.

 

Percebi que havia muitas exposições que vinham do exterior para nós, por meio de intercâmbios culturais, e que as nossas dificilmente saíam daqui. Recebemos exposições muito importantes, em parceria com os consulados americano, inglês e francês, mas não conseguimos mostrar nosso trabalho para outros públicos, assim, o intercâmbio não se completou.

 

Através do Cultural Alemão, hoje Instituto Goethe, aconteceu uma exposição inesquecível sobre Kafka. Era composta por cartazes enormes, acompanhados de grandes estruturas. Enquanto imaginávamos a solução para essa montagem, chegaram os operários especializados, e, com uma caixa de ferramentas minúscula, montaram rapidamente os painéis. Que eficiência!

 

Nessa ocasião, aproximadamente em 1972, começaram as tratativas para a transferência do Museu. Mesmo exonerado da função pública, continuei a fazer parte da equipe de transferência. Então, já se imaginava um centro cultural em Porto Alegre, na Praça da Alfândega. Chegou-se a pensar naquela grande casa, na esquina da Praça da Matriz, onde hoje é o Memorial do Ministério Público. Havia uma idéia, da qual eu era partidário, no sentido da construção de um Museu de Arte Moderna, num prédio novo, especialmente projetado, mas isso não aconteceu.

 

Naquele período, o saudoso artista Plínio Bernhardt passou a trabalhar no Museu e participou da procura da sede nova. Quero deixar minha homenagem ao querido amigo Plínio, que nos ajudou bastante, foi um excelente diretor e continuou até os últimos dias trabalhando pela Arte no Museu.

 

Como responsável pelo Museu e artista gravador nunca procurei privilegiar uma só área, procurei contemplar todas as técnicas: pintura, escultura e desenho. Fiz algumas exposições individuais, como a de Waldeni Elias e a do gravador de Santa Maria, Nelson Ellwanger, e a de Paulo Houayek, por indicação de Scarinci. Deu-nos um trabalho gigantesco a mostra de Gumercindo – o Guma. Tinha esculturas muito grandes e dei-me conta de que elas não entrariam pelo acesso habitual do Museu no Theatro São Pedro. O que fizemos? Fomos ao quartel e conseguimos um caminhão fortíssimo e 12 a 15 soldados para o transporte da obra de Guma.

 

Expusemos Alice Soares e Yeddo Titze, que tinha chegado recentemente da França, onde fizera um curso de tapeçaria. Naquela época, Genaro de Carvalho era o único que trabalhava nessa área. Entre outras mostras importantes, cito o intercâmbio com a Aliança Francesa, que trouxe litografias de Salvador Dali, Lurçat e Picasso, entre outros, e a retrospectiva de Gastão Hoffsteter. Chegamos a fazer uma exposição de Avatar Moraes, de objetos. Era um tipo de arte estranha à nossa cultura, mas ele era um artista muito inquieto e, de certa forma, um pioneiro.

 

Exposições itinerantes sempre foram realizadas pelo MARGS. Sob minha responsabilidade, fizemos quatro, uma em Caxias do Sul, outra em Rio Grande, em Ijuí e em Pelotas. Desta última, acompanhei a montagem e a desmontagem. Aliás, em uma dessas ocasiões houve um problema técnico com uma das obras, um pequeno dano. A obra, é certo, foi restaurada. Isso serviu de experiência para nós, e para outros que nos sucederam, em relação ao cuidado que se deve ter.

 

Realizamos, com excelente repercussão, a Exposição Internacional de Arte Infantil, vinda da Inglaterra. Nesse tempo, Augusto Rodrigues havia implantado no Brasil as Escolinhas de Arte Infantil. Aliás, Alice Soares foi a primeira Diretora da Escolinha de Artes Infantil de Porto Alegre, que funcionava no quarto andar do Instituto de Artes, onde eu orientei xilogravura para crianças. É uma técnica difícil, exige muito cuidado. Porto Alegre foi uma espécie de berço da gravou a. O Atelier Livre já existia, e ótimos gravadores são provenientes de lá.

 

Naquela época, nos eventos em que havia premiações, os critérios de avaliação eram muito rigorosos. Os júris eram compostos por profissionais, professores, e, principalmente, artistas atuantes, que conheciam a fundo a Arte.

 

Quando não tínhamos funcionários disponíveis para atender aos visitantes do Museu, nos sábados e domingos, eu mesmo ia até lá. Após o período como diretor, decidi me afastar do serviço público e investir na minha carreira de artista plástico. Não era possível desenvolver um trabalho de envergadura no Museu de Arte e cuidar da minha profissão ao mesmo tempo. Foi uma decisão que se mostrou muito acertada com o correr do tempo. Posteriormente, na gestão de Evelyn Ioschpe, implantei, com meu equipamento pessoal, um atelier de gravura num dos torreões e ministrei aulas de gravura em metal. O curso continuou na época de Miriam Avruch, com outro professor. Nesse período, realizei no MARGS a retrospectiva Reflexões intempestivas. Participei, também, do projeto de resgate da história da gravura no Rio Grande do Sul, na gestão de Romanita Disconzi, com uma exposição individual nas Salas Negras.

 

O MARGS ficou muito bem na sede definitiva. Atualmente, está com bons equipamentos, cursos e excelentes exposições. Eu e todos os artistas ficamos felizes ao constatar que o Museu, apesar das dificuldades, tem os seus núcleos de apoio, o seu laboratório de restauro, sua documentação, os cursos, enfim, tudo o que um museu deve ter. É pequeno em tamanho, não podemos compará-lo com museus seculares, porém tem todas as condições para continuar desenvolvendo um ótimo trabalho, com abertura em relação às artes e, assim, cumprir sua missão de museu atual, moderno e dinâmico.

 

*Artista plástico e ex-diretor do MARGS

 

Lembranças e envolvimento profissional

MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
Praça da Alfândega, s/n° - Centro
90010-150 - Porto Alegre - RS - Brasil
Fone (51) 3227-2311 - Fax (51) 3221-2646
museu@margs.rs.gov.br