Lembranças e envolvimento profissional
Circe Saldanha*
Na década de 50, as vitrinas da Rua da Praia apresentavam obras de arte. Viam-se pinturas nas livrarias, alfaiatarias, enfim em qualquer vitrina que se dispusesse a exibi-las; a arte não se mostrava em um lugar especial, exclusivo para ela.
Na época em que o MARGS foi inaugurado, eu tinha concluído o Belas Artes e fui trabalhar no Instituto de Educação. Desenhava ilustrações para os conteúdos programáticos da Cadeira de Psicologia da Escola Normal. Fazia organogramas, fluxogramas e mapas. Uma equipe de psicólogos trabalhava na parte teórica. Eu também tirava fotografias das solenidades do Instituto; eu não estava ligada à parte de arte propriamente dita.
Comecei aos poucos a trabalhar com a arte da gravura. Desde o início interessei-me por ela. Quis fazer uma gravura em madeira, grande, com a imagem das vilas, principalmente da Vila da Rede Ferroviária, sobre a qual havia sido feita uma pesquisa, e então peguei a madeira e comecei a fazer xilogravura com essa temática. No Belas Artes, Malagoli introduziu a composição, a projeção da pintura, mas lá não havia aula de gravura. Estava sendo fundado, com a participação do Danúbio Gonçalves e do Grupo de Bagé, o Clube de Gravura. Aqui, havia o Scliar e outros trabalhando com gravura, mas era apenas o começo. No primeiro Salão que aceitou gravura, Fahrion foi o único selecionado, com duas litos.
Acabei minha formação e depois fiz aperfeiçoamento. Casei-me logo em seguida, mas o meu marido não me incentivava a freqüentar o grupo de gravadores. Fui, depois, ter aula de xilogravura no Atelier Livre e na Chico Lisboa. Tirei o curso com Armando Almeida, no Ateliê Livre, quando era ainda na Rua Lopo Gonçalves. O curso era bem simples, e deu para aprender a lidar com a tinta, a limpar os rolos, a cuidar da pedra. Como a gravura sempre atraiu meu interesse, procurei me aperfeiçoar e ler muito sobre o assunto. Para publicação nos Boletins do MARGS, fiz uma série de pesquisas sobre essa técnica.
No MARGS, eu era ligada à biblioteca. Quando os jovens estudantes de arte vinham para suas monografias, ou para um trabalho mais curto, eu os orientava, especialmente na parte de gravura. Existem na biblioteca livros específicos que tratam de litografia, e outros de gravura em geral. Eu também ajudava a preparar a documentação que hoje compõe os extensos dossiês dos artistas.
Na sede definitiva foi montado um atelier de fotografia, que funcionava onde era o Gabinete Dentário da Delegacia Fiscal. Era uma peça escura e veio a calhar... Comprou-se então um ampliador fotográfico, bacias... A Mabel Vieira era a coordenadora e Eduardo Viera da Cunha ali trabalhava também. Ele fotografava as exposições, revelava no laboratório e uma seleção aparecia no Boletim. Mabel fazia também slides, fotografando as obras de arte, principalmente as pinturas. Ela fez audiovisuais de Pedro Weingärtner e de Lutzenberger, entre outros, dos quais eu não me recordo agora. Nesses audiovisuais usavam-se, às vezes, dois projetores – era coisa da época. As sessões de audiovisual ocorriam no auditório, eram abertas ao público, obedecendo a um planejamento em que grupos agendavam dia e hora.
Quando havia necessidade de letreiros, eu trabalhava com o normógrafo. Usávamos também letras que vinham num papel e eram coladas. O logotipo do MARGS, usado nessa época, foi criado por mim. Fiz alguns trabalhos de diagramação para as publicações do Museu. Os cartazes de divulgação de exposições eram feitos artesanalmente, em serigrafia. Usavam-se os meios disponíveis para se ter uma divulgação de qualidade.
Mexendo num material guardado, achei um quadradrinho de papel artesanal assinado pelo Iberê. Lembrei logo daquele seu jeito de assinar, daquela sua compulsão pelo trabalho e da abertura do audiovisual sobre ele onde figurava o papelzinho. O Iberê gostava muito de passear na Rua da Praia e chegava sempre no Museu para conversar com a Flávia, com a Lyryss, a Joana, a Maria Elisa, a turma toda. Aqui ele se sentia em casa.
Uma coisa marcante, que ocorreu na sede nova, e de que me lembro bem, foi quando começaram a arrumar as salas do segundo andar. Havia um cofre que estava trancado, e o pessoal da Secretaria da Fazenda, ao sair daqui, falava: “está trancado porque dentro tem uma cobra” ou alguma coisa igualmente perigosa. Nós tínhamos uma curiosidade enorme de saber o que havia realmente no cofre, e então o Dr. Luiz Inácio chamou uma firma especializada. Abriram o cofre, e nós fomos desvendar o mistério: o cofre estava cheio daqueles selinhos que colocavam em documentos, um selinho longo, que todo mundo, muito tempo atrás, tinha de usar para recolher imposto. Nós achamos uma graça! Havia uma enorme quantidade que, pela falta de uso, acumulara lá dentro...
Madalena Lutzenberger coordenou um trabalho de elaboração de currículos dos artistas; foi o início do arquivo atual. No começo, era só uma caixinha com algumas fichas que continham dados básicos de cada artista. Depois, Madalena começou a arrecadar entre os artistas, e nos vernissages, os convites, que eram anexados à ficha. Nós íamos a todas as exposições; passamos a ser “ratos de exposição”. A idéia do Boletim também foi de Madalena, que trabalhava na Revista de Ensino, e tinha experiência com publicações. A gente sentia, desde o início, que tudo era o primeiro passo de alguma coisa muito importante.
* Artista plástica e ex-funcionária do MARGS
MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
Praça da Alfândega, s/n° - Centro
90010-150 - Porto Alegre - RS - Brasil
Fone (51) 3227-2311 - Fax (51) 3221-2646
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