Memória do Museu

Lembranças e envolvimento profissional

Anos 90 MARGS, espaço de transformações

 

Beatriz Fichtner Marodin*

 

O meu primeiro museu foi o Julio de Castilhos; depois conheci o Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro. No início da década de setenta, não se falava no MARGS nas escolas. O Museu existia, mas não existia uma política de divulgação no meio estudantil. Portanto, ele ficava restrito a um grupo de artistas e a uma parcela da sociedade. Os professores de Educação Artística também não mencionavam o Museu. O que era de lamentar, pois a divulgação é fundamental: visitantes em potencial, que não sabem o que há no museu, não virão.

 

Vim trabalhar no MARGS na gestão de Luiz Inácio Medeiros, já na sede definitiva.Fiquei deslumbrada com o prédio, com o acervo e com as exposições!

 

Muito do que a maioria das pessoas conhecia sobre artes plásticas, no Rio Grande do Sul, era através de estampas em livros, revistas, jornais e, posteriormente, cinema e televisão. Diretamente pela obra, muito raro.

 

Com a abertura do MARGS, teve-se a possibilidade de apreciar uma pintura, uma gravura, desenho, escultura, cerâmica, tapeçaria, instalação, fotografia de arte, objeto e performance na forma e conteúdo peculiar de cada artista.

 

Meus primeiros contatos com a arte foram em visitas a residências e em consultórios médicos, quando acompanhava minha mãe e procurava me distrair olhando as obras penduradas nas salas de espera. Os consultórios tinham belas obras de arte! – Ainda não havia muitos monumentos espalhados pela cidade. Agora é possível ver o Vasco, no painel da Assembléia, o Tenius, no Parcão, a Tomaselli, em Ipanema...

 

Quando cheguei ao MARGS, fui trabalhar no Núcleo de Documentação e Pesquisa. Nossa coordenadora, inesquecível, era Madalena Lutzenberger; aberta a novas idéias. Outra pessoa importante para mim foi Circe Saldanha; ela tem prazer em ensinar. Com ela aprendi as características e os processos da arte da gravura e do trabalho do gravador.

 

Existia uma efervescência artística no fim dos anos 70 e o Museu era muito freqüentado.

 

Tido, outrora, como um lugar de colunáveis e artistas endeusados, foi adquirindo com o tempo a posição de espaço aberto para todos, do intelectual experimentado às pessoas menos providas de conhecimento, riqueza e disposições afetivas em relação à arte. Devido a políticas de divulgação para todos os tipos de público, aos poucos, os vernissages, como encontro social, foram substituídos por encontros para troca de idéias, em que o interesse pelas obras preponderava.

 

Luiz Inácio Medeiros, então diretor, participou de um curso sobre preservação de obras de arte e o transmitiu para nós. Foi a partir daí que aumentamos nosso interesse pelo assunto e começamos a olhar a obra com visão mais profissional.

 

Pessoas oriundas de graduação em Letras, Artes Plásticas, História, Sociologia, entre outras, trabalhavam com dedicação no Museu, mas não havia conhecimento específico em Museologia. Uniam-se a boa vontade e a curiosidade. Aos poucos, com palestras, cursos e encontros, íamos melhorando nosso desempenho. A partir da década de 80, o trabalho empírico realizado começou a tornar-se mais profissional e o Museu e a comunidade ganharam com isso. Pessoas ligadas ao Museu e Míriam Avruch, na época diretora, interessaram-se pela criação de um curso de Museologia. O primeiro Curso de Especialização em Museologia aconteceu na PUC em 1990 e 1991. Míriam estimulou os funcionários a freqüentá-lo. Um novo curso de Museologia só aconteceu anos depois, em 2002, na UFRGS, e, novamente, um grupo de funcionários foi fazê-lo.

 

O Museu, que iniciou no papel, sem sede própria, hoje está sediado num monumento arquitetônico em cuja inauguração estiveram presentes o Governador do Estado e a Primeira Dama, autoridades, artistas e convidados que apreciaram a exposição da maior parte do acervo e a apresentação do balé Mosaico, inspirado no piso da pinacoteca central.

 

A inauguração do Museu na nova sede, em 78, favoreceu o diálogo com a comunidade. O prédio por si só é uma referência em termos de divulgação. Ele se impõe! As exposições, antes, no Theatro S. Pedro, desapareciam diante das atividades teatrais, o mesmo acontecia com a sede na Salgado Filho, que não se destacava entre os outros prédios da Avenida.

 

No início da década de 80, época da gestão de Evelyn Iochpe, o MARGS deu um salto na divulgação. Muitos cursos foram realizados: de História da Arte, de escultura com Xico e Vasco. O Museu editou os primeiros grandes livros sobre Iberê, Stockinger e Vasco, além de catálogos diversos, com acabamento primoroso. O Museu saía do prédio e ia até a praça, onde foram promovidas exposições e balés. Evelyn procurava abrir espaço para a música e outras manifestações de arte. Houve um desfile de modas, quando Iberê apresentou uma série de obras cujo tema era Manequins. A divulgação na imprensa era estrondosa. Nunca se tinha visto nada igual. Essa época de crescimento do Museu foi favorecida pela Lei Sarney.

 

A Associação dos Amigos, criada na gestão do Roberto Pimentel, solidificou-se. A verba da cultura, antes misturada com a da Educação, era muito restrita. A Associação foi a solução para o Museu receber doações, criar a Arteloja, que vendia catálogos de exposições, obter renda por meio de venda de obras de arte e, depois, candidatar-se às Leis de Incentivo à Cultura.

 

Os artistas, como Iberê e Vasco, entre outros, faziam matrizes de obras para a Associação imprimir, cuja renda revertia em benefício do Museu.

 

A gestão Evelyn foi importante para trazer a arte nacional e internacional. Promoveu “Caminhos do Desenho Brasileiro”, com repercussão nacional, e trouxe ao público do Rio Grande do Sul a arte que estava sendo feita no Brasil naquele momento.

 

A gestão de Míriam Avruch complementou a gestão anterior, divulgando a arte gaúcha não só aqui, mas no interior do Estado, através de exposições itinerantes.

 

Outro fato importante foi que a partir da década de 80 começou a impor-se a preponderância dos critérios técnicos na ampliação do acervo artístico. O Museu vinha abrigando obras heterogêneas. Com a criação do Conselho, que apreciava as obras que chegavam ao MARGS através de doação, novos critérios foram elaborados e solidificados com o uso.

 

Cursos importantes ocorreram no Museu como o de Museografia, com Evaldo Schumacher, com Mestrado na Itália, que nos mostrou a importância da arquitetura para uma boa exposição e as vantagens dos prédios construídos para serem museus sobre os adaptados.

 

Antes de reformado, o museu foi muito divulgado entre todas as camadas da população e havia grande interesse em atender à comunidade escolar.

 

O prédio começou a deteriorar-se, embora tenha abrigado grandes exposições, como as da gestão de Romanita Disconzi, que apresentou, entre outras, Regina Silveira e uma série que resgatou a Gravura no Rio Grande do Sul; o prédio não estava atraente para os visitantes.

 

O MARGS sofreu transformação e recebeu reais melhorias técnicas em 1998. Após o restauro de 98, que ocorreu com a participação do atual e, à época, diretor Paulo Amaral, o MARGS voltou a ter uma fase áurea e pôde abrigar exposições como Picasso, cerâmicas (1998), Missões (2000), De Frans Post a Eliseu Visconti (2000), e o Modernismo na Pintura Brasileira (2000), entre outras.

 

Criado para divulgar as artes plásticas no Rio Grande do Sul, o MARGS foi além desse objetivo quando se tornou um espaço não só de apreciação e lazer, mas também de comparação, discussão, polêmica e transformação de pensamentos e afetos. Necessita, ainda, ampliar a divulgação no interior do Estado, com maior número de mostras itinerantes e com palestras proferidas pelos técnicos do MARGS sobre o Museu, seu acervo e seu prédio.

 

* Museóloga e ex-funcionária do MARGS

 

Lembranças e envolvimento profissional

MUSEU DE ARTE DO RIO GRANDE
DO SUL ADO MALAGOLI
Visitação de terças a domingos,
das 10 às 19 horas. Entrada franca
Praça da Alfândega, s/n° - Centro
90010-150 - Porto Alegre - RS - Brasil
Fone (51) 3227-2311 - Fax (51) 3221-2646
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