Scheffel Por Ele Mesmo

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O Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli tem a honra de convidar para a abertura da exposição “Scheffel Por Ele Mesmo”, com curadoria de Angelo Reinheimer, dia 24 de outubro, às 19h, na Pinacoteca do MARGS.

A Exposição “Scheffel por Ele Mesmo”, reúne obras da Coleção Família Zelmanowicz, , Fundação E. F. Scheffel e acervos privados e propõe revelar ao público um recorte sobre a obra de Scheffel, talvez o mais instigante de sua produção: a década de 1970, que permanece ainda pouco conhecida. A escolha das obras forma um conjunto estabelecido pelo próprio Scheffel – com texto de sua autoria – em uma exposição por ele sonhada e não realizada em vida. Apresenta ainda, uma mostra de retratos, promovendo uma visão panorâmica sobre a produção artística de Scheffel, a partir da década de 1950 até os anos 2000.

Em diálogo com a Exposição, o Museu de Arte do Rio Grande do Sul apresenta uma coletânea de obras dos professores do artista, no Instituto de Belas Artes (atual Instituto de Artes da UFRGS), do período entre 1941 e 1946. Entre eles, nomes consagrados da pintura gaúcha, como: João Fahrion, Ângelo Guido, José Lutzenberger, Benito Castañeda, Maristany de Trias e Fernando Corona, possibilitando ao público um olhar sobre os Mestres que influenciaram diretamente a obra de Ernesto Frederico Scheffel.

Os nossos agradecimentos ao Dr. Rolf Udo Zelmanowicz, Presidente da Sociedade de Amigos da Fundação Scheffel, grande incentivador desta exposição.

A exposição pode ser visitada de terças a domingos, das 10h às 19h, com entrada gratuita. Visitas mediadas podem ser agendadas pelo e-mail educativo@margs.rs.gov.br.

 

APRESENTAÇÃO

O retrato: uma batalha à parte

 

O retrato é considerado uma especialidade no mundo das Artes Plásticas – pintura e escultura – e significa para o artista, em particular, um duplo desafio. Trabalho de arte único,é uma proposta pessoal, elaborada através de recursos próprios. O retrato é a proposta que se antepõe e, eventualmente, se contrapõe ao artista que, paulatinamente, se exercita mental e fisicamente a devorar o seu objeto, de ponta a ponta, ao ponto de romper com o espaço e o tempo, pondo em desordem o pensamento e o sentimento. Isso não significa caos ou confusão, mas um diálogo pelos caminhos ocasionais das imagens e das sensações, interligadas numa atmosfera de contato, resultado de um pacto comum.

A relação artista-retratado não é, portanto, uma divisão, uma oposição, um combate de rivais em exercício de mútua eliminação de personalidades antagônicas. O relacionamento artista-retratado, frente à frente, é um ato de antropofagia figurada, leal, pré-determinada pelas partes interessadas em criar, como resultado final, uma obra de arte de alto nível em conteúdo e forma.

Com este procedimento – a posse através de uma absorção intensa – o artista não engravida o retratado nem recorre ao Espírito Santo, algo vindo de fora ou de cima, na realização da obra de arte. A obra nasce do entendimento e relacionamento de artista e retratado que decidem remover as máscaras, uma a uma, num ritual de concessão das diferentes formas assumidas pelo indivíduo. Esta faina através das contínuas mutações pretende sintetizar o constante de um modo de ser, de um modo de se apresentar, de um modo de sentir. Aí que se encontra a revelação mais profunda de um caráter – em contínua formação – de uma individualidade única que é “relatada” com seriedade e simplicidade.

Montaigne, nos Ensaios, expressa alguns conceitos mais permanentes e atuais que podem definir essa seriedade e simplicidade, necessárias ao artista, no ato da concepção do retrato, sintetizando numa só virtude: a fidelidade. “Os outros formam o homem (os moralistas), eu o relato”, escreve no Livro III, capítulo 2.

Concluído o retrato, rompe-se o liame entre artista e retratado, em favor de uma obra de arte que pode ter atingido um estado de vida permanente, como se tocada pelo imprevisto sopro dos deuses, caprichosos, através da qualidade na composição, na técnica pictórica e na menção do mundo interior do indivíduo. Está superado o desafio da realização pessoal, como obra de arte.

 

Ernesto Frederico Scheffel

 

TEXTOS CRÍTICOS

Antes de mais nada, não tentemos enquadrar o artista na moldura de uma determinada corrente artística do século XX. Sua obra, a rigor, passa ao largo dos movimentos revolucionários do início do século, que provocaram terremotos e, ainda hoje, os provocam. Não se descobrem, na obra de Scheffel, subversões, bizarrices e escândalos vanguardistas. Talvez a parte mais polêmica e contestadora de sua produção sejam suas telas e desenhos eróticos, que propõem uma leitura marginal, porém estimulante, de determinados aspectos da sexualidade contemporânea. Afora isso, podemos dizer que Scheffel, sem minimizar a dimensão subversiva da Arte Contemporânea, procura se manter em águas extraterritoriais.

A obra de Scheffel se enraíza na arte do passado, em especial na Arte Renascentista, e, em grande parte, nas expressões que floresceram a partir da segunda metade do século XIX. É tributária, em especial, das correntes do Realismo, do Simbolismo e do Romantismo. Scheffel bebeu de todas as fontes, também das contemporâneas. Mas tudo isso é filtrado por um temperamento que não quer abandonar o próprio caminho, pouco importa para onde este o conduza. Por nossa parte, destacamos alguns aspectos interessantes da contribuição do artista.

Sua opção pelo figurativismo, sempre acompanhado por uma meticulosidade técnica que constitui um dos trunfos de sua afirmação pessoal. Cabe aqui uma pergunta: estará a figura exaurida? Terá ela dado o último suspiro? Cremos que não. Um artista contemporâneo chegou até a declarar: “A figura é a Terra Prometida”. Sob esse ângulo, permanecer fiel à figura significa, para Scheffel, tomar partido pela História, e pelas dimensões psicológicas e sociológicas da imagem.

Por outro lado, numa conjuntura em que o descartável se torna avassalador, como não impressionar-se com o cuidado que o artista põe na elaboração de suas composições? Em nossa opinião, convém valorizar as aquarelas e as criações gráficas de Scheffel. Pode ser que aí se encontre, senão a expressão maior de sua arte, ao menos uma contribuição de indiscutível atualidade.

É preciso, igualmente, levar em consideração a parte documental da obra de Scheffel. Temos aí um artista cujas raízes étnicas estão vivas, cujas ressonâncias psicossociológicas têm tudo a ver com a terra natal, inclusive com o gosto dessa terra. Sabemos que qualquer artista pode chegar à universalidade através de seus trabalhos, mas, antes de atingi-la, necessita fazer um ato de juramento à sua própria terra – como diria Chesterton. Van Gogh será menos universal por ser holandês? Admitamos: os girassóis de Van Gogh não são, a rigor, holandeses. São girassóis de qualquer parte do mundo, mas não podemos duvidar de que a mão que os pintou nasceu e aprimorou-se sob os céus de Rembrandt… É essa qualidade invisível que os torna imortais. De igual forma, a obra pictórica, gráfica e escultórica de Scheffel é a de um descendente de alemães que amou a terra de seus ancestrais, a despeito de sua vida, em grande parte, longe dela. É uma obra complexa, instigante, provocadora, com clareiras estéticas surpreendentes, que possui, entre outros méritos, o de repropor uma reflexão permanente e fértil sobre o que a cultura precisa para não se esquecer de si mesma.

 

Armindo Trevisan

É doutorado em Filosofia pela Universidade de Fribourg (Suíça) e lecionou História da Arte e Estética na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

 

 

O ARTISTA

Ernesto Frederico Scheffel nasceu em 8 de outubro de 1927, em Campo Bom, Rio Grande do Sul. É descendente de imigrantes alemães de Berghausen – Westfalen, chegados em 1825 e estabelecidos na antiga colônia de São Leopoldo.

Aos 12 anos de idade, Scheffel fez parte do Grupo de “coloninhos” que foram levados a Porto Alegre, numa ação do Governo do Estado do Rio Grande do Sul, dentro das políticas de nacionalização do Estado Novo. Foi convidado a estudar no Instituto de Belas Artes e, simultaneamente, na Escola Técnica Parobé.

Em 1950, segue para o Rio de Janeiro, com bolsa de estudos do Estado do Rio Grande do Sul. É acolhido pelo pintor Osvaldo Teixeira, Diretor do Museu Nacional de Belas Artes, com quem trabalha como assistente. Scheffel participou dos Salões Nacionais de Belas Artes. Após receber as medalhas de bronze e prata, em 1958 conquista o Prêmio Viagem ao Estrangeiro com a obra “Jerônimo”. O quadro premiado está no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.

Partiu para a Europa, em 1959. Depois de viajar e conhecer diversos países estabeleceu-se em Florença, na Itália, onde desenvolveu sólida carreira. Trabalhou com o Professor Augusto Vemehren, Diretor do Laboratório de Restauro da Galeria dos Ofícios, restaurando pictoricamente obras de Rubens, Velázquez, Ticiano, entre outros. Ao longo dos anos 1960, Scheffel realizou oito obras públicas, a maioria de cunho religioso, em Florença.

Inicia a década de 1970 influenciado pelas manifestações e protestos contra as instituições e os valores vigentes, que eclodem na Europa, na segunda metade da década de 1960, inaugurando uma nova fase, mais ousada e autêntica. Como o próprio Scheffel define:

“… finalmente posicionei-me no campo da arte pela valorização da individualidade, no esplendor de suas características próprias, cujas qualidades devem ser exaltadas como um direito estético que une a humanidade…”.

Em 1974, retorna ao Brasil como convidado oficial do Município de Novo Hamburgo para uma exposição retrospectiva, dentro das comemorações do Sesquicentenário da Imigração e Colonização Alemã no Brasil, que resultou na criação do Museu de Arte e também sua mantenedora Fundação Ernesto Frederico Scheffel, tornando possível a exposição permanente de grande parte da sua obra. Scheffel também inicia uma verdadeira cruzada pela preservação do patrimônio histórico relativo à colonização alemã no Rio Grande do Sul. A escolha de um prédio de características neoclássicas, construído em 1890, para a instalação do Museu de Arte, sinaliza o trabalho a ser desenvolvido nas décadas seguintes, culminando com o tombamento do Centro Histórico de Hamburgo Velho e o acervo pictórico da Fundação Ernesto Frederico Scheffel, pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em maio de 2015.

Scheffel viveu os últimos anos da sua vida entre Itália e Brasil, e manteve sua rotina através da pintura e composição musical. Faleceu em Porto Alegre, em 16 de julho de 2015.

 

 

Citações de Scheffel sobre seus mestres

“… O Instituto de Belas Artes, que passei a frequentar, mantinha os cursos de Artes Plásticas e o Conservatório de Música com suas subdivisões. Meus professores eram João Fahrion (pintura figurativa), Benito Castañeda (pintura de paisagem), Fernando Corona (modelagem), José Lutzenberger (geometria), Ângelo Guido (história da arte), Luiz Maristany de Trias (anatomia) e Ernani Corrêa (arte decorativa)…”

 

“… Benito Castañeda – pintura de paisagem, revelava-se, para mim, um homem de comportamento simples e estimulante… No Instituto de Belas Artes era um professor de fino trato, talvez o mais amado dentre todos…”

 

“… Fernando Corona mostrava-se um tanto agitado, como quem sempre estava empenhado em resolver inúmeras questões. Alguns alunos notavam no professor Corona – assim como eu – sua devoção quase juvenil ao trabalho dos artistas clássicos pelo tempo de um mês e, no próximo, exaltava as virtudes dos artistas mais destemidos e inovadores da história da arte. Entendíamos, contudo, que essa duplicidade de posição do professor Corona não era criticável, por sua sinceridade e larga visão estética…”

 

“… João Fahrion e Edgard Degas estão unidos, também, pelas soluções técnicas, pelo gosto dos cortes e essencialidade do toque, ao mesmo tempo elegantes e displicentes. As obras de ambos possuem as qualidades da fantasia e do realismo…”

 

“… José Lutzenberger, artista acima de qualquer juízo crítico, cabe lembrar do seu perfeccionismo, pois todos os detalhes de um
projeto eram estudados separadamente e, só depois, no conjunto. Os profissionais da arquitetura, quando não conseguem enquadrar um artista, definem-no “eclético”, devido à sua liberdade criativa. Muito cômodo! Já o arquiteto e escultor Fernando Corona resolve essa questão afirmando que “Lutzenberger é o arquiteto do estilo próprio”. De acordo estou eu, que fui aluno dos dois professores no Instituto de Belas Artes…”

 

 

SERVIÇO

Scheffel Por Ele Mesmo

Curadoria de Angelo Reinheimer

Abertura: 24 de outubro de 2017, às 19h

Visitação: 25 de outubro a 10 de dezembro de 2017

Terças a domingos das 10h às 19h

Local: Pinacoteca do MARGS (Praça da Alfândega, s./n.)

 

 

Realização

Secretaria de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer

Governo do Estado do Rio Grande do Sul

Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli

Fundação Ernesto Frederico Scheffel

 

Patrocínio

Banrisul

BRDE

ABC da Saúde

 

 

Apoio

Café do MARGS

Arteplantas

Celulose Riograndense

AAMARGS

Novo Hamburgo Cultura

 

Museu de Arte do Rio Grande do Sul

Localização: Praça da Alfândega, s./n.

Centro Histórico, Porto Alegre, RS

Telefone: 32272311

Entrada Franca

Site: www.margs.rs.gov.br

www.facebook.com/margsmuseu

www.twitter.com/margsmuseu

 

Fundação Ernesto Frederico Scheffel

Endereço: Av. Gen. Daltro Filho, 911 – Hamburgo Velho

Novo Hamburgo – RS, 93540-000

museuscheffel@yahoo.com.br

Telefone: 51 35936233

Site: www.museuscheffel.com.br/fundacao.htm

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