CHRISTINA BALBÃO

Christina Helfensteller Balbão

—  Por Maria Tereza Medeiros – Coordenadora do Núcleo de Documentação e Pesquisa do MARGS

 

Mulher admirável e de múltiplos talentos ocupou lugar de destaque na História da Arte do Rio Grande do Sul como artista, professora  e organizadora do Museu de Arte do Rio Grande do Sul Ado Malagoli – MARGS, sendo a sua primeira funcionária. Discreta sobre a sua pessoa, poderia falar ininterruptamente sobre arte com a sensibilidade, o entusiasmo  contagiante e a alegria que a caracterizavam, sabendo como transmitir  o seu notável conhecimento adquirido com muito estudo, viagens e trabalho durante os seus 90 anos de vida.

 

Christina Helfensteller Balbão nasceu em Porto Alegre em 1917. Iniciou seus estudos artísticos no Instituto de Artes, cursando Artes Plásticas. Foi aluna de Francis Pelichek, João Fahrion, Luiz Maristany de Trias e Libindo Ferraz, fazendo estágio no atelier de Leopoldo Gotuzzo. Suas primeiras obras na pintura eram figurativas. Aos poucos foi pesquisando novas formas de expressão, passando para o abstrato, tornando-se uma artista de vanguarda. Começou  então a estudar escultura, fazendo parte da 1ª turma de mulheres formadas em escultura no Estado pelo Instituto de Artes. Mais tarde realizou um curso de aperfeiçoamento em Buenos Aires, quando teve a  oportunidade de aperfeiçoar seus conhecimentos trabalhando com Horácio Juarez. A sua escultura é rica em belas e harmoniosas curvas, executada com objetividade e força, excluindo as superfícies lisas de suas figuras.

 

Sempre ligada ao Instituto de Artes, foi convidada para ser assistente da cadeira de escultura, trabalhando com Fernando Corona. Depois, passou a ser titular da cadeira de desenho onde formou diversas gerações de artistas gaúchos.

 

Christina Balbão viajou muito pelo Rio Grande do Sul, Brasil e exterior, tendo oportunidade de conhecer pessoalmente artistas, visitar museus, escolas de arte e instituições. Acompanhou excursões de alunos ao Rio de Janeiro e São Paulo. Compareceu à 1ª Bienal de São Paulo e, mais tarde, foi uma das incentivadoras da criação da Bienal do Mercosul. Estas viagens a mantinham em sintonia com as correntes vivas da arte.

 

Participou de salões e coletivas, tendo recebido prêmios e medalhas de bronze e prata. Em 2007 foi a artista homenageada por ocasião da primeira edição do Prêmio Açorianos de Artes Plásticas.

 

A sua obra pictórica, gráfica e escultórica ainda é pouco conhecida e estudada, mas demonstra uma notável qualidade e coerência. Sobre ela Christina,  com sua simplicidade impressionante, referiu-se em diálogos pessoais: ”Não faço mais objetos. O mundo já está atulhado deles. Trato de transformar a minha vida em obra de arte”. E, foi pensando assim, que aceitou de imediato o convite de Ado Malagoli para trabalhar na criação do Museu de Arte do Rio Grande do Sul.

 

Criado por decreto do governo do Estado, em 1954, o Museu de Arte do Rio Grande do Sul, através da Divisão de Cultura, pertencente à Secretaria de Educação e Cultura do Estado, não recebeu nem sede, nem garantia de condições materiais e técnicas para funcionamento.

 

É Christina quem relata um pouco da sua atuação no museu, no capítulo “Um museu vivo”, do livro dos 50 anos do MARGS:

 

Enquanto esperávamos a inauguração do Museu, exercíamos nossas atividades na sede da Divisão de Cultura.[…]

 

O Malagoli, ali, organizou a exposição retrospectiva de Weingärtner, que inaugurou a primeira sede do MARGS, no teatro São Pedro. Como estávamos prontas a fazer de tudo, eu e a Alice Soares, saímos também à rua para procurar as famílias de colecionadores, recolhendo, por empréstimo, os quadros para a exposição.[…]

Malagoli, desde o início, já estava atento à adaptação daquela sala do teatro. Ele não era só exigente com os quadros, mas preocupado com o ambiente e a iluminação. Já estávamos quase inaugurando, e ele cuidando dos retoques, quando viu que a madeira do parquê apresentava frestas. Lembro de eu  ter usado massa de vidraceiro, misturada com uma tinta siena, para cobrir as frestas sem que se notasse o remendo. […]

 

A reforma levou dois anos. A sala foi modernizada porque Malagoli fez curso nos Estados Unidos, estava preparado para realizar uma obra séria, com entusiasmo. Era uma sala bem moderna  e eu estava nesse espírito de modernismo. Enfim, o Museu ganhou seu espaço.

 

Um grupo pequeno montava as exposições. Os homens: Aristides e o servente, muito educado e estimado, eram muito eficientes. Nós pegávamos no martelo e eles não só nos ajudavam a montar a exposição como, depois dos convites prontos, os distribuíam de mão em mão; o correio nem se usava.[…]

 

Era difícil o processo de aquisição de obras.[…]

 

O início da biblioteca do MARGS foi um armarinho, bem pequeno, com poucos livros, a maioria da doação de Mário Bernd. O espaço ainda era repartido com material da Administração. A sala da Administração era onde é, hoje, o bar do Teatro São Pedro. Ali ficava todo o mundo.

 

Os vernissages do Museu foram sempre muito concorridos […].

 

[…] Em uma ocasião, Iberê Camargo reclamou que não havia bastante luz para mostrar o colorido dos seus quadros quase negros. Tentamos a ajuda de holofotes do teatro.[…]

 

Às vezes, no Teatro São Pedro, chegávamos à janela e víamos os funcionários saindo da Assembleia e do Palácio, gente que passava, atravessava a rua e “nem te ligo”. Dava vontade de ficar gritando e chamando. O nosso tipo de trabalho apaixona! […]

 

Nós tínhamos de sair do teatro São Pedro, que necessitava de restauração. Mudar o Museu para a Avenida Salgado Filho não teve problema, era novinho e cabia num espaço pequeno![…] As verbas como sempre eram pouquíssimas. […]

 

Nessa sede as direções sucediam-se muito rápido.[…] Não era fácil encontrar pessoas para dirigir o Museu, talvez porque Porto Alegre fosse um cidade pequena, provinciana. A direção exige muito e não é um cargo bem remunerado.

 

Lembro, já na sede definitiva, do projeto Música no MARGS-Ospa, […] uma tarde de domingo por mês.[…]

 

Na nova sede a equipe aumentou, já não éramos mais só cinco funcionários.

 

Recebíamos visitantes de outros estados nas férias de verão. Não faltavam estrangeiros de passagem. Alegra-me que o Museu tenha conseguido vir para a praça. Observo que os artistas daqui vão-se afirmando cada vez mais e o Museu participa  disso.[…] Agora é possível acolher exposições grandes. O Museu está vivo como Malagoli desejava!

 

Essa era Christina Balbão. Uma vida dedicada à arte e pela arte.

 

No ano do centenário do seu nascimento, prestamos a nossa homenagem a esta figura ímpar, repetindo as palavras de Alice Soares: “Christina Balbão é um nome que não pode ficar esquecido”.

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